quinta-feira, 8 de março de 2018

Parte 2 - Carta aberta ao meu abusador


   Há algum tempo, venho pensando em escrever a continuação desta carta, como forma de agradecimento, mas também para dizer o que aconteceu depois de sua publicação.

      Caso você, querido leitor, não tenha lido a primeira parte desta Carta, acredito que seja melhor você ler, é só ir na parte direita do blog e procurar na coluna: inclassificável.

  Nesta semana aconteceu um fato decisivo para que finalmente eu conseguisse escrever. Eu recebi um e-mail de uma jovem mulher que relatava ter lido esta carta.
   Como esta carta chegou até ela? 
  Eu não sei, mas chegou! Acho que o pássaro de que falei na carta anterior anda voando por alguns lugares e deixando a mensagem para quem precisa. Esse e-mail me comoveu muito, como não se comover com uma história parecida com a sua? Bom, eu respondi carinhosamente a ele e decidi escrever  novamente sobre isso no blog.

   A primeira coisa que me veio à mente para contar foi qual o processo que culminou com a carta, e foi nessa hora que vieram os desenhos à minha cabeça. Os desenhos do meu abuso. Mas antes de escrever sobre isso, preciso contar uma coisa.
   O início do ano passado foi bem pesado emocionalmente para mim. Comecei a ter alergia em fevereiro, manchas avermelhadas começaram a aparecer em meu corpo, elas queimavam, doíam, e partes do meu corpo começaram a inchar muito. Fui ao dermatologista, e ele receitou alguns remédios, diagnóstico: urticária. Ele me explicou que não havia um exame específico para saber a procedência da alergia, mas ressaltou que o ciclo da urticária durava dois meses. Os remédios me ajudaram um pouco, mas não por completo. Eu ia dormir, e pela manhã as manchas estavam lá, às vezes os meus olhos amanheciam inchados, outras vezes a minha boca ficava três vezes maior. Na terapia, chegamos à conclusão de que era raiva, a tal da raiva saindo pelos meus poros, a raiva que eu não conseguira colocar para fora. 

    Em meio a tudo isso, uma das minhas sobrinhas faleceu, e foi a coisa mais triste que presenciei, sinto em minha vida até hoje. Ver o meu querido irmão e cunhada passarem por tudo isso foi dolorido demais e foi também aprendizado. Eu acreditava que a maior dor da minha vida era o abuso sofrido na infância, mas não... a maior dor, o dia mais triste para mim até hoje foi aquele, o dia em que a Athina faleceu. E esse fato mexeu comigo, a certeza não era mais certeza, a minha dor perdeu força dentro de mim e sabe por quê? Porque a vida continua e precisamos deixar que ela se movimente, até as nossas dores precisam se movimentar, dar lugar a outras que virão. A pequena Athina representou para mim "a vida que não pôde ser vivida". E aí eu pirei pensando: o que eu estou fazendo com a minha vida? Estou vivendo mesmo? Uma semana depois que ela partiu, eu tatuei (minha primeira e talvez  única tatuagem) a letra A com um coração amarelo no meu pulso direito. A letra A, por ser a inicial do seu nome, Athina, e o coração amarelo, pois pouco tempo antes de seu falecimento eu tive um sonho com ela. Sonhei que a carregava no colo, de suas mãos saíam pó de ouro, e esse pó eu guardava em uma caixinha. Essa pequena realmente trouxe "ouro", riqueza de sabedoria, não só para mim, mas principalmente para seus pais que foram transformados por sua passagem por aqui. Daqui a alguns dias vai fazer um ano que a nossa pequena se foi, mas deixou em nossos corações uma bela herança: Afeto! Fomos literalmente todos afetados por sua vinda e é uma honra carregar o seu nome no meu corpo até o fim dos meus dias.

  A minha alergia piorou muito depois de tal fato, hoje entendo que fez parte do meu processo.
    Bom, algum tempo depois, na terapia, eu estava contando alguma coisa que me fazia lembrar do meu abuso para a minha psicóloga, ou melhor, das consequências do abuso, coisas que interferiam no meu cotidiano. A minha psicóloga me disse que não sabia como eu tinha sido abusada. Eu me assustei! Como ela não sabia? Eu tinha contado a ela! Ela então me esclareceu que sim, eu havia contado que tinha sido abusada e o que isso acarretava à minha vida, porém eu não tinha contado o que de fato havia acontecido. Eu me lembro de que respondi a ela que talvez teria contado a ela em outra dimensão de tanta certeza que eu tinha dentro de mim sobre o fato. Mas, não, eu ainda não tinha contado a ela, mais de um ano de terapia, nos vendo toda semana, e eu nunca tinha contado. Eu me lembro de que chorei dizendo a ela que talvez eu nunca contaria porque ia me doer demais, ir me desmanchar por completo, e eu não queria isso. Tinha um milhão de coisas para fazer, último ano de faculdade, estágio, TCC... enfim...
    Fui para casa e depois de uns dias eu pensei: como vou contar isso? Ela vai me entender? Foi então que me veio em mente desenhar, literalmente desenhar as minhas lembranças e assim foi ... sozinha em casa coloquei no papel a minha primeira memória, eu queria que a minha psicóloga olhasse como se estivesse com os meus olhos, observasse o que tinha na minha frente, o ambiente em que eu estava  enquanto estava sendo abusada. Foi assim então que desenhei uma sala (a sala da casa da minha avó), uma estante, uma televisão, um colchão e três pessoas deitadas: a minha tia, seu marido (meu abusador) e eu. Do lado do desenho escrevi todas as sensações que me vieram, depois disso chorei muito. Eu realmente era muito pequena.
      Levei o desenho à terapia e mostrei... (pausa para o choro aqui do lá de cá do teclado) Eu me lembro de que naquela sessão eu me dera conta de muitas coisas que eu não estou conseguindo escrever aqui... mas são sensações de estar sozinha, confusa, com medo, de pensar: será que a minha tia estava vendo? Será? PAVOR! Foi isso o que a minha criança não conseguiu articular, o meu adulto agora conseguia... PAVOR! 
      Eu me lembro de ter perguntado  para a minha psicóloga se aquilo, aqueles toques, tinham sido abuso. Foi abuso? Porque por tantos anos eu me senti tão confusa sobre isso, algumas pessoas a quem contei não me ouviram, chegaram a me dizer que "isso não foi nada, acontecem coisas piores". Mas eu era uma criança muito, muito, pequena. A resposta veio: Sim, isso foi um abuso! 
     Alguém precisava validar a minha dor, ela validou, a terapia é o espaço para isso.
      Nas semanas seguintes, eu levei outros desenhos: uma boca grande, uma árvore, um caderno, e assim foi. Meu marido viu o primeiro desenho e ficou muito triste, não quis ver os outros, ele também não tinha dimensão dos detalhes, do que os meus olhos viam.
     No meio de todo esse processo, acredito que movimentei uma energia enorme, e coisas começaram a acontecer. Uma delas, que desencadeou a carta, foi em uma noite que meu marido conseguiu me dizer (ele também tinha começado a fazer terapia) que sentia falta de carinho, de toque, sabe aquele toque do dia a dia. Nós sempre fomos carinhosos com atitudes e palavras, mas ele estava se permitindo dizer coisas que antes não se permitia, afinal eu sempre fui frágil demais. Isso me deixou muito triste, vê-lo triste, me senti horrível, cheguei à conclusão de que eu não dava carinho, toque, nem para os meus cachorros. Eu fiquei mal e, no dia seguinte, sozinha em casa, eu chorei muito e senti uma raiva tamanha que resolvi colocar para fora, sentei à frente do computador e escrevi a carta chorando muito, muito, mesmo.

     Apesar do título da carta, eu nunca tive a intenção de enviá-la ao meu abusador. Se eu quisesse, teria meios para fazer isso. Mas não, não quis, não quero e não permito que nada sobre mim possa chegar aos seus olhos. O nojo por aquele ser e sua esposa ainda é enorme e, só de imaginar que isso pudesse acontecer, me dá náuseas. 

       A carta em si foi avassaladora,  nunca havia escrito alguma coisa chorando tanto. Foi muita energia em cada palavra. Eu finalmente tinha colocado para fora um pouco da minha dor. Depois, naturalmente, veio o pensamento... e se eu publicasse?
       Ao mesmo tempo que eu tinha essa vontade de finalmente quebrar em mim alguns dos meus medos, talvez o maior deles, me veio o medo de ser julgada pelo bicho mais cruel da natureza: o ser humano. Foi então que veio a ideia de escrever um prefácio para colocar "alguns pingos nos is". Contei sobre a carta para o meu marido, mas ele disse que não gostaria de ler, mas me apoiaria caso eu realmente publicasse a carta. Levei então a carta para a terapia e disse da minha intenção de publicar, e conversei sobre isso. Eu ainda relutei, tentei esquecer a carta, deixá-la para lá, mas não consegui também, parecia que ela tinha tomado vida. Foi então que eu tive um sonho. Sonhei que a minha psicóloga me dizia que a minha carta não estava boa. Acordei bem incomodada. Inclusive contei a ela depois. 
            O que será que faltava naquele texto? Já tinha colocado tudo ali! eu tinha certeza! Esse sonho foi bem providencial, realmente a carta não estava completa, ela precisava de explicações para os possíveis leitores, um fio de esperança, uma luz ao final do túnel, um carinho depois do tombo. E foi assim que sentei de novo e escrevi o posfácio. A carta ficou pronta!

      Daí aconteceu outra coisa bem decisiva para a publicação,  o meu outro irmão veio passar as férias de julho em casa com as suas filhas. Foi uma semana bem legal, pois as minhas sobrinhas ainda não conheciam a minha casa aqui no Paraná. Uma delas estava para fazer aniversário, iria fazer 11 anos. Me dei conta de que na idade de 11 anos tinha sido a última vez em que fui abusada, foi quando eu consegui dizer: Para! Eu não gosto disso! Se fizer isso, eu vou contar para os meus pais! E ele nunca mais encostou aqueles dedos sujos em mim. A criança estava crescendo, os seios começavam a aparecer, e eu consegui ser forte e dizer não. Ao olhar a minha sobrinha feliz e brincando em casa, eu levei um susto! Eu era pequena, eu era uma criança, não tinha sequer corpo de adolescente. Meu passado me rondava. O abuso é como se fosse um fantasma que vem te vistar de vez em quando, das maneiras mais improváveis, vinha agora em forma de aniversário, com uma idade específica, a idade do último abuso. Entendi que precisava fechar esse ciclo. Assim que a minha família foi embora de casa, eu decidi publicar a carta.
    Falei para o meu marido que dois meses depois daquela crise, eu queria que a carta voasse por aí. Foi então que ele resolveu ler a carta, ademais, como um profissional das letras, queria revisar o texto, para que tudo fosse perfeito. Eu agradeci e esperei, pois a tal da revisão não se deu em um dia. Ele leu, se emocionou, parou, e depois de alguns dias tudo ficou bem. Fui no blog e cliquei no botão publicar.

   Divulguei a carta somente no meu facebook, onde eu adiciono somente pessoas que conheço pessoalmente e também  "local" que não tenho adicionado grande parte da minha família (mais especificamente, apenas adicionei duas pessoas da família). Publiquei a carta e saí da internet, fiquei com uma mistura de medo e ansiedade. Horas depois, para o meu alívio, li recados carinhosos e respeitosos de amigos e professores da faculdade. Me senti aliviada, a carta teve quase 300 visualizações.
       Uma das coisas que eu queria, e falei disso na carta, era conhecer os meus iguais, aqueles que, como eu, tinham passado por tal violência na infância. E vieram... recebi mensagens de pessoas que eu não imaginava, que conviviam comigo de perto há algum tempo e que também tinham passado por isso. E AGRADEÇO AQUI PUBLICAMENTE A VOCÊS QUE ME ESCREVERAM RELATANDO UM POUCO DE SUA DOR PESSOAL. Foi muito importante para mim, me senti triste ao ler, ao mesmo tempo em que me senti acolhida por vocês escreverem. SOMOS SOBREVIVENTES! E cada pessoa que me escreveu encontrou meios de seguir em frente, apesar de ainda ser muito difícil.

        Depois da publicação da carta a alergia foi embora.

       E finalmente mais confiante, com menos peso em minhas costas, consegui, aos poucos, conhecer "a parte roubada de mim". Fiquei menos tensa, meu marido pôde entender muitas coisas em nossa intimidade que antes era impossível  para mim colocar em palavras. Por exemplo: às vezes tinha flashbacks. Eu via o rosto do meu abusador quando estava fazendo amor, era horrível, a imagem aparecia sem a minha permissão. Depois disso, eu não conseguia fazer mais nada. 
      Hoje eu entendo que a imagem aparecia nas partes do meu corpo em que ele tocou, não era por acaso. Nos meses seguintes, fui me apropriando das minhas partes, percebi que comecei a me cuidar mais, do cabelo aos pés, agora eu dava atenção, tentava me olhar mais no espelho, sentir cada pedaço do meu corpo, exercitando o toque. Sim, foi me passado esse exercício para eu fazer todos os dias. E assim, aos poucos, fui relaxando e tocando mais meu amado marido, um abraço, um cafuné, um olhar, um deslizar de mão pelo seu dorso. Um dia muito feliz para mim foi quando ele me disse que eu não me assustava mais. 
               Como assim? Assustada? 
          Ele me explicou que, por vezes, em nossa rotina em casa, ele chegava para me acarinhar mais maliciosamente (a famosa pegada), e eu assustava, ficava brava, falava sempre para me perguntar antes se ele podia me tocar. Naturalmente, ele foi parando de tentar, pois via que eu me incomodava. As coisas estavam mudando, e dessa vez para melhor. Outro momento transformador foi a finalização do meu TCC, analisei (de acordo com a teoria elaborada por Carl Gustav Jung, a Psicologia Analítica) o livro Diário de Anne Frank como Símbolo no processo de individuação de uma leitora, no caso eu sou a leitora. Foi bem intenso, pois também tem a ver com meu trauma, mas isso é outra história, não vou me aprofundar aqui.
      Uma decisão muito importante para mim também foi parar de tomar o anticoncepcional, muitos anos de medicamento por conta dos ovários policísticos. As dores de cabeça estavam bem frequentes, sentia dores nas pernas por conta das varizes que foram aumentando ao longo dos anos e também porque tinha lido um estudo em que associava  o medicamento com a depressão. Pesquisei bastante e vi que era possível tentar um tratamento mais natural. No dia 7 de setembro dei meu grito de liberdade (coincidência, né?!), fui dormir e não tomei a pílula. Estava com medo do que poderia acontecer? Muito!! Até chorei! Mas encarei!! 
      Com o passar dos meses os pelos voltaram com mais frequência, a acne também, e a queda de cabelo ficou bem estranha. Isso foi a parte ruim, que felizmente tenho conseguido manejar. A parte boa foi que me senti mais disposta, as dores de cabeça agora são raras e o meu humor melhorou muito, fico pensando se a minha depressão foi mais penosa por conta do medicamento. A parte BEM BOA MESMO!! foi que a minha libido voltou ao normal, para quem não sabe, a pílula dá uma "castrada" na mulher.
             Imagina eu "castrada" e com alguns traumas?! Tive que aprender a lidar com essa libido toda, coisas que antes eu não sentia foram acontecendo, e eu me espantava e até comemorava. Não me permito entrar em detalhes aqui porque senão isso vira um conto erótico, e não é essa a finalidade. 
            Outra coisa que ajudou foi ir ao sebo e comprar um livro sobre o Tantra, a chamada Yoga do Sexo. Sempre tive o pé atrás com o Tantra, pois, para mim, por motivos óbvios, é inconcebível ir a um local e passar por um tratamento com outras ou outra pessoa me tocando. Não consigo. Mas tendo acesso à literatura específica, comecei a praticar em casa, e o resultado foi impressionante. Posso dizer que me sinto curada e plena em diversas áreas. Conseguir ter intenso prazer com amor, sem medo, conseguir dar prazer ao meu amor é algo transcendente, uma experiência sagrada.

      Vou descrever uma cena muito pessoal aqui, apenas para dimensionar o quão grandioso é conseguir se apropriar do próprio corpo:
     Eu e meu amado abraçados embaixo do chuveiro, eu chorando, em extrema emoção. Quando consegui respirar disse a ele que sentia que a cada vez que fazemos amor é um remédio que adentra em minha alma, me sentia cada vez mais curada, mais inteira. Ele me respondeu que ambos estávamos sendo curados, que ele queria, sim, que cada vez mais eu sentisse mais prazer por todo o meu corpo e ele também.

     Descobrir e sentir que a energia sexual é muito importante e potente, literalmente te deixa mais saudável tanto no corpo quanto na alma.  Quando conseguimos ver o sexo de maneira boa, prazerosa, sem as limitações sociais e até mesmo sem as limitações causadas por traumas, a vida começa a vibrar pelos poros, de dentro para a fora. Se sentir amada, sentir desejo e ser desejada é muito transformador! 
      Cabe ressaltar que tal processo foi ao longo de vários meses, talvez, uma vida toda não é mesmo?!  

     As minhas partes, queridos leitores, estão se unindo finalmente, a pequena Ju, o Tomás e a Serena. Sinto que agora tomei "posse" da Serena (uma Serena com menos raiva e mais centrada, mais desejosa, mais amada e mais bonita).

       Estava aqui pensando que, agora, depois de dois anos de terapia, ainda não terminei de desenhar todos os meus abusos, materializar todas as minhas memórias. O processo é lento e doloroso. Esta semana tive vontade de desenhar mais um abuso, mas não consegui, não sei quando vou terminar de desenhar, ou se ainda quero, dou tempo ao tempo. Quero aproveitar o fato de estar falando neste assunto para ligar com a novela que está passando na Globo "O outro lado do Paraíso". Acredito que o autor foi muito feliz em levar o tema Pedofilia a milhões de pessoas em horário nobre. Muitas pessoas estão se reconhecendo e tomando coragem para denunciar o abuso sexual infantil. Recebi um relato emocionante por e-mail de um casal no qual o marido, assistindo à novela, entendeu que sua esposa tinha sido abusada na infância, e ela finalmente teve coragem de abrir o coração e confessar ter passado por tamanha atrocidade ainda tão pequena. Abordar esse tema na novela tem muito valor. Por conta disso, eu mesma comecei a acompanhar a personagem e me reconhecer, chorei muito na cena em que ela finalmente se lembra de ter sido abusada pelo padrasto. Achei a cena brilhante! Acho que poeticamente conseguiram materializar que na memória infantil é tudo muito confuso, o que fica são as sensações de toque, de escutar uma gargalhada, de olhar uma mão gigante vindo em sua direção e de sentir dor, raiva, medo. Meus elogios terminam aqui, agora vem a crítica pesada mesmo, colocar na novela uma advogada coach para "acessar a memória" da mulher foi de uma irresponsabilidade gigantesca. O já famoso recalque (mecanismo de defesa descrito na psicanálise) tem uma função muito importante de proteger o ego, a consciência. Os mecanismos de defesa são necessários, pois, por vezes, o sofrimento é tamanho que é necessário literalmente haver uma proteção, um esquecimento, para a pessoa não cindir com a realidade. Eu passei por recalque dos 11 aos 16 anos, eu me esqueci do acontecido, até que um dia as memórias foram ativadas por um acontecimento específico.
      Casos de abuso infantil devem ser tratados por psicólogos, por bons profissionais. Acabei de relatar aqui que eu demorei mais de um ano para conseguir detalhar o meu abuso para a minha psicóloga e agora, depois de dois anos, ainda não contei tudo o que me aconteceu. Porque é por demais difícil e doloroso. O bom profissional sabe esperar o tempo do paciente, sabe fortalecê-lo a cada sessão, para que naturalmente a pessoa conte sobre o próprio sofrimento. Na novela, vimos claramente como a personagem Laura surtou quando recobrou essas memórias. As consequências do trabalho dessa coach poderiam ser mais desastrosas ainda, psicologicamente falando.
         
        Minha carta aqui se encerra com um alívio no peito e um sentimento de gratidão avassalador. Agora já sou psicóloga formada, o ano passado foi bem difícil, a flor para nascer precisa estourar a casca da semente, eu estourei a minha e atualmente estou estudando para abrir na minha cidade um grupo terapêutico para adultos que sofreram abuso sexual na infância. Vou trabalhar com aquilo que me fez ser o que hoje eu sou, vou prestar um tipo de serviço psicológico que eu mesma não consegui encontrar. 

         Vida que segue! 
         Vocês conseguem ver o meu sorriso?
         Vocês conseguem ver a minhas lágrimas de felicidade?
         Um grande abraço a todos!!
          
                  
        Observações do amor: vou colocar  ao final da postagem fotos de livros que me ajudaram muito. E gostaria de agradecer a duas pessoas especiais, aqueles que me deram acolhimento e amor nessa caminhada.

       A minha QUERIDA psicóloga, Mariana Borges A. de Lima, agradeço as Deusas por ter encontrado uma profissional tão porreta! (não consigo pensar em outra palavra, rs) Tão comprometida! Tão linda! Que consegue andar junto comigo pelos os meus escombros e que ama muito essa profissão, da qual hoje eu também compartilho. Muito obrigada, de coração!

          Ao meu AMADO marido Leonardo Cassanho Forster, obrigada por esses quinze anos ao meu lado. Sabe, outro dia, estava conversando com uma amiga e ela me relatava sobre as próprias dificuldades emocionais, estas também advindas da infância. Ela me disse uma coisa que achei muito maravilhosa, disse que o marido a amparava muito e que ele conseguia fazer isso porque também tinha as próprias dores "Juliana, um homem saudável não daria conta de mim!". Achei essa frase brilhante! E eu entendi o que ela quis dizer, só consegue segurar alguém que está sofrendo quem também já sofreu. O dito saudável na sociedade é não ter problemas, é ser feliz a maior parte do tempo. Nesse senso comum do que é ser saudável, definitivamente não nos encaixamos. Mas, para a minha amada Psicologia, ser saudável é conseguir lidar e conviver com o sofrimento, buscar novas formas de enfrentar a vida e, quiçá, ser feliz. Acredito que estamos colhendo o nosso "quiçá", a minha mudança fez você mudar e se permitir a desejar a vida de outra forma, um novo caminho, com outras descobertas. Saiba que agora é a minha vez de dar colo, de aliviar as suas dores da maneira mais presente possível. Estou mais feliz, mais forte e com mais fé na vida. Conte comigo, meu amor, hoje, amanhã e sempre! Muito obrigada por tudo!

    Livros:









      

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Tour pelo meu corpo


    Desde que um fato aconteceu nos primeiros dias do ano, venho pensando em escrever para relatá-lo. Bom, este texto teria outro nome, porém agora achei melhor esse nome aí de cima: "Tour pelo meu corpo". Mas vou voltar aos acontecimentos para conseguir ser entendida.
  Eu acredito que tudo chega ou acontece na nossa vida quando estamos preparados, a tal da sincronicidade. Eu acredito também que não basta ter olhos, é necessário querer olhar.
      Nos últimos dias do ano passado, eu vi uma reportagem da BBC Brasil sobre Gordofobia e depois vi pelas redes sociais que a mesma reportagem foi alvo de preconceito do apresentador Danilo Gentili. A pessoa ofendida tem um canal no youtube que se chama Alexandrismos e seu nome é Alexandra Gurgel. Ela gravou um vídeo que viralizou, era uma resposta ao Danilo Gentili - e uma resposta muito boa por sinal. Fiquei muito tocada com o vídeo dela e fui assistindo outros... assisti um em que ela conversa com a jornalista Daiana Garbin, uma mulher dentro dos ditos padrões (alta, loira, magra e de olhos claros). Daiana é casada com outro jornalista bem famoso e faz algum tempo que pediu demissão da Globo e criou o próprio canal no youtube para falar de transtornos alimentares.
      O que Alexandra e Daiana têm em comum?
      Anos de sofrimento odiando o próprio corpo.
     Esses vídeos são bem pesados de assistir, pois elas tocam em suas próprias feridas. Daiana fala que chorou assistindo um vídeo de Alexandra que se chama "A solidão da mulher gorda". Eu fui assistir o vídeo e fiquei bem impactada, eu sabia o que era Gordofobia, mas nesse vídeo eu descobri que eu mesma era gordofóbica - e o pior: era ou sou gordofóbica comigo mesma. Não tenho os "sintomas" de quem pratica Gordofobia com o outro, mas descobri que por várias vezes faço isso comigo mesma. Um exemplo é achar estranho um casal de homem magro com mulher gorda (vice-versa). Sim, estou falando que esse pensamento tive comigo mesma algumas vezes, e daí vai para o "não sou bonita", ou quando não conseguia encontrar roupas para comprar e me culpava, achando que o problema era o meu corpo e não das lojas que não vendem tamanhos maiores.
      Em todos os vídeos a mensagem é: ame o seu corpo, não tenha vergonha dele, o caráter de uma pessoa não está em seu peso e tudo mais.
       Daiana também relata que durante seu trabalho na Globo, alguns de seus chefes falaram em diferentes momentos que ela precisava ser MAIS magra, o que só reforçava seus pensamentos sobre ela ser gorda (ela nunca foi gorda e nem teve sobrepeso).
     Depois que li isso, fiquei pensando um tempo... não existem repórteres gordos na TV, em nenhum canal! Quantas pessoas altamente profissionais perdem uma oportunidade de serem repórteres por questões estéticas?
     Achei todo o conteúdo que assisti uma coisa muito séria e dei graças às deusas por ele ter caído em meu colo. Faço parte de um grupo de estudos sobre questões ligadas ao corpo e ao Feminino e nesse processo fui aceitando e questionando muitas coisas sobre mim, minha história e também a relação que eu tenho com o meu corpo. Na terapia, também tratando das minhas feridas, percebi que não olhava o meu corpo, muito menos cuidava dele, por muitas vezes o escondia, pois não queria que ele chamasse a atenção, tinha medo de novos abusos, enfim... O olhar o corpo é realmente não perceber nem o tamanho real que ele tem. Eu meu achava gorda quando eu era magra, e quando fiquei gorda, achava que era magra ao ponto de comprar roupas erradas, ou seja, eu não percebia quando engordava ou emagrecia, tudo muito confuso na minha cabeça.
     Juntando tudo isso, vem o poder da mídia. E quando falo em "poder", é no sentido grandioso mesmo, ao ponto de existir o que é certo ou errado, padrão e não padrão. Somos muito influenciados o tempo todo, o que faz com que as pessoas não aceitem o que elas são. Não aceitam que o corpo se transforma com o tempo.
      Vou contar uma coisinha aqui bem rapidinho, assim como o corpo da criança uma hora vai embora, o corpo adolescente também vai, nunca o seu corpo de trinta vai ser o mesmo que o de 20, e assim por diante (por mais dentro dos padrões que você esteja).
      Uma coisa bem difícil e que vi nos vídeos e que todo mundo deveria exercitar é: NÃO dar pitaco no corpo alheio. Não faça isso!! Sei que todos nós fazemos isso ou já fizemos um dia. O corpo do outro é do outro, ok?! Se uma pessoa é gorda não quer dizer que ela é preguiçosa ou doente ou fracassada ou que não transa com ninguém. Assim como a magreza não quer dizer que a pessoa é saudável, bem sucedida, que pega todo mundo na balada. Não, não é nada disso!! Portanto menos julgamentos!!! E faça esse exercício com você mesmo em primeiro lugar. 
       Não maltrate o seu corpo (ou seja, não se maltrate; não vamos dissociar) de acordo com as coisas que acontecem no seu dia a dia. Por exemplo: uma professora minha, uma vez, me tratou muito mal mesmo, quando eu sai da sua sala, me veio uma vontade de comer algo muito gorduroso, um salgado frito ou algo parecido, e eu estava indo comprá-lo. Então pensei comigo (algo que aprendi no grupo de estudos): são 8h20 da manhã, eu tomei café da manhã, isso não é fome, eu não estou com fome, por que então fiquei com vontade de comer isso agora?
     Segundos depois, veio a resposta: estou com raiva, estou magoada, fui maltratada sem motivo. Depois disso é que veio a vontade de comer o tal do salgado. Quando elaborei esse pensamento, a vontade de comer sumiu rapidamente. Autoconhecimento é algo muito difícil de se fazer, mas não impossível, nossa relação com a comida é algo muito mais profundo, tem a ver com a relação que tivemos com quem nos alimentava desde pequenos, a mãe (principalmente), o pai ou com quem fez esse papel de cuidador. Nos tornamos adultos que não sabem o que é sentir fome, a fome nem chega de verdade, pois comemos de acordo com o que sentimos, raiva, alegria, tristeza. O transtorno alimentar não tem a ver com o sujeito e ponto, tem a ver com a forma como alguém foi criado, alimentado, amado. As pessoas estão engolindo os seus sentimentos em forma de comida, é preciso expressar as emoções e não comê-las. Eu já ouvi casos como o de garotas que tomam remédios para emagrecer, para serem bonitas e aceitas pela família, para sentirem que possuem algum valor - e o pior: são os pais muitas vezes que as levam ao médico e compram o remédio.
     Comprei o livro da jornalista Daiana Garbin e pude entender melhor a loucura que é ter um transtorno alimentar. Chegar ao ponto de fazer empréstimo para realizar uma cirurgia plástica (mesmo sem motivos) ou de colocar a cabeça dentro de uma lixeira para sentir o odor fétido com o intuito de fazer a fome passar ou ainda de se viciar de tal maneira em remédios para emagrecer a ponto de se injetar insulina mesmo não sendo diabética para caber no vestido de casamento... é muito triste!
      Bom, nesse processo fiquei muito reflexiva. No ano novo,  meu primo me mandou uma foto que ele encontrou de sua primeira eucaristia. Eu na foto estava com uns 16 anos e levei um susto, quem era aquela pessoa?
      Eu era muito magra, com os ossos aparecendo e tudo mais. Olhei bem para a foto e não me achei bonita, não tive saudades daquele corpo, a minha cunhada também viu a foto e me disse: Nossa Ju! Posso falar? Você está muito mais bonita hoje! 
      Eu concordei, é claro! Porque a beleza, queridos leitores anônimos, não está no tamanho do seu corpo, mas em como a pessoinha que habita aquele corpo está se sentindo. A garota magra da foto não era feliz, ela mal sabia quem ela era e das coisas que gostava, guardava um segredo terrível dentro do coração e nunca tinha sido tocada com o amor que merecia. 
      Percebi que, de uns tempos para cá, essa minha beleza salta aos olhos; eu emagreci?
      Não! Estou mais feliz?
       Claro que sim! Olhar para as minhas feridas, falar sobre elas e tratar o meu corpo com amor, me permitir sentir prazer, parar de tomar a pílula me fez sentir menos entorpecida, anestesiada, comecei a me sentir dentro de mim novamente, foi um grande passo.
       Bom, depois do evento da foto, outra coisa aconteceu que se tornou um motivo para que eu quisesse escrever este texto. No dia 2 de janeiro fui para Paraty, havia anos que não ia para a praia. Na verdade, desde 2008 não ia ver o mar, e, nos últimos meses, isso começou a me angustiar, sentia que eu precisava ver e nadar no mar, até comecei a sonhar com isso constantemente. Apesar disso, por uma série de fatores que aconteceram no final do ano, cancelamos a viagem. Por fim, fomos assim mesmo, sem planejar, em uma decisão de última hora.
    As praias mais centrais de Paraty não são recomendáveis para nadar, então, no dia seguinte, pesquisando na internet, achamos uma praia que se chama Praia Grande de Cajaíba. Uma praia isolada que também tem cachoeira, porém só se chega pelo mar, ou seja, nada de carro.
      Fomos para o cais e descobrimos que de barco ia demorar quase duas horas para chegar a ela, tudo a um precinho de R$400,00. Se a gente fosse de lancha, chegaríamos em 50 minutos. O ideal era conseguir pessoas que estivessem indo para o mesmo lugar e rachar a viagem. Um mulher de uns 60 anos se aproximou e disse que ia para uma praia ao lado,  Pouso de Cajaíba. O marinheiro (sim, eles existem!! falamos com um senhor de cabelos brancos, sentado de um jeito peculiar, todo vestido com roupas brancas e com um chapeuzinho do Popeye) nos disse que, para uma viagem mais barata, a gente poderia ir a outro cais onde saem lanchas de carga e não para passeio. Quase 30 minutos de caminhada, acredito que já estávamos na periferia de Paraty, chegamos ao cais e nos ofereceram a vigem por R$60,00 por pessoa, sendo que a gente iria junto com uma carga (cerveja, pão e água). Uma hora de espera conversando com essa mulher que estava sozinha com sua mochila e um travesseio na mão, descobrimos que ela era de São Paulo e ia encontrar "os filhos que fiz por aí". Levava seu travesseiro, pois não sabia quando iria voltar, nem onde iria dormir, levava umas cervejas também na sacola, bem empoderada, viajando sozinha há dias.
     Partimos na lanchinha rumo a tal da praia, a lancha ia muito rápido mesmo. Apesar disso, depois de uns 20 minutos, o cara parou a lancha e disse que ela tinha ficado muito pesada, o que faria a gente demorar muito para chegar. Nisso, já apareceu uma lancha menor. Ele disse para a gente ir com o outro cara e que não precisaríamos pegar para ele não, pagaríamos para o outro. No meio do mar, sem opção, mudamos de embarcação. A outra lancha foi realmente muito rápido mesmo, e a tal da praia era realmente muito longe. Mas enfim chegamos, e eu estava doida para finalmente mergulhar.
       A praia era um deslumbre de bonita, havia umas duas ou três barraquinhas de caiçaras e poucas pessoas (se tinha 25 pessoas era muito). Larguei tudo, mergulhamos e estava tudo ótimo. Como já era hora do almoço, fomos pegar o dinheiro para comer e vimos que tínhamos pouco dinheiro. Ali não aceitavam cartões, o que fazer?
        Pedimos um pastel e uma coca, e dividimos. O Leo foi perguntar no caixa da  barraquinha quando cobravam para a viagem de volta. Um cara que tinha uma lanha escutou a conversa e disse que por menos de R$200,oo era difícil quem levasse para Paraty. Nós estávamos com exatos R$139,00 na carteira - e agora?
        O fato é que ficamos tensos, como que a gente ia voltar ou sacar dinheiro, não tinha nada na praia. Se alguém fosse voltar para Paraty, mas as pessoas que lá estavam não pareciam que iriam embora. Escutei uma conversa de que eles estavam dormindo na casa dos caiçaras. Ficamos sentados observando e falei para o Leo conversar com os caras que tinham lancha e explicar a nossa situação. Ele foi conversar com um rapaz bem simples que tinha uma pequena lancha. Foi muito sincero: "Somos eu, minha esposa e R$139,00. Acho que o cara ficou um pouco sensibilizado e disse que 17h levaria a gente de volta para Paraty. Resolvido isso, nos sobravam quatro horas para aproveitar.
      Havia tão poucas pessoas na praia que a maioria ficava embaixo da mesma árvore, uma grande árvore em busca de sombra. O pessoal era bem tranquilo, quase todos estavam lendo livros ou dormindo. Não tive medo que nos roubassem ou coisa do tipo. O Leo decidiu deitar e eu disse que iria andar. Vivi uma sensação de plena felicidade. Andei quase 1 km sozinha beirando o mar e não tinha ninguém, nenhuma alma viva, bem deserto mesmo, e eu não tive medo de estar ali sozinha: a sensação de não ter medo e me sentir segura foi inexplicável. Fiquei sentada um bom tempo olhando o mar e agradecendo, depois fui nadar naquelas águas bem calmas. Parecia uma piscina gigante. Preferi voltar nadando em vez de andando. No meio do caminho, encontrei o Leo, que voltou comigo nadando também. 
      Comentei com ele sobre o fato de me sentir segura em todos os sentidos. Ele disse que sentia isso também, que as pessoas ali estavam para curtir e que o lugar era tão longe que era praticamente impossível ter assaltante.
     Voltando para debaixo da árvore, o Leo deitou de novo e eu fiquei relaxando, mas sentada mesmo, curtindo a vista e observando tudo. Vi que o cara um pouco mais à frente de mim estava lendo Jorge Amado, e havia umas mulheres lendo também no silêncio, só se ouvia o mar. As mulheres que ali estavam não tinham vergonha do corpo, digo isso porque tinha umas duas ou três gordinhas de boa em seus biquínis - e afirmo: eram muito lindas, transbordava uma beleza diferente delas. Daí foi que aconteceu o que venho anunciando desde o início do texto: uma das mulheres tirou a parte de cima do biquíni. Ela era magra, bem branquinha, fez seu topless. Levei um susto, meu primeiro pensamento foi: vão retalhar essa mulher, sei lá, vão xingá-la ou alguma mulher vai ter uma crise de ciúmes ou algum homem vai assediá-la. Para piorar o aperto do meu coração, ela se deitou e colocou uma camiseta nos olhos e foi dormir.
     Meu Deus!! Achei-a bem louca, estava quase pedindo licença e indo cobri-la, para proteger, sei lá. Mas fiquei olhando e percebi que ninguém ali ligou para o acontecido, nem as mulheres, nem os homens, nem as crianças que brincavam, filhos dos pescadores: ninguém ligou! Foi então que pensei: esse lugar é seguro mesmo!!  Ninguém vai se agredir ou arrumar confusão.
      Estava maravilhada, acordei o Leo e disse: aqui é muito seguro, tem uma mulher fazendo topless bem de boa.
      Nisso, algumas  mulheres entraram no mar para se banhar com os seios desnudos. Estavam felizes, tranquilas, algumas voltaram do mar e foram para seus livros, outras foram se aconchegar no namorado. Disse para o Leo: olha que bonito! 
        Eu vi uma mulher sair do mar, parecia uma deusa, linda! Ria e falava com os amigos. Ela era bem gorda, e estava linda com os seios desnudos - um corpo feliz! um corpo em que mora uma pessoa feliz! 
      Ela saiu, se enxugou e colocou um vestido. Foi tão lindo de ver que parecia que ela se movimentava em câmera lenta.
    Ah! Lembra do cara que estava lendo Jorge Amado?
     Então, ele começou a ficar com outro cara, bem no carinho, bem no chamego. E estava tudo bem! ninguém julgou ninguém seja pelo corpo ou pela orientação sexual. 
      Disse para o Leo: aqui é o paraíso!
    O dia terminou com uma chuva bem forte, para lavar a alma mesmo!! Voltamos em uma lanchinha para Paraty. No meio da chuva, os pingos pareciam pequenas pedrinhas em nossos corpos, a lancha pulava tanto que eu achava que estava montando um boi; não enxergava nada à minha frente e não tinha nada na lancha, nem salva-vidas. Foi assim por uma hora. Nos solavancos mais fortes, eu olhava pro Leo e caía na risada, fazer o que né?
      Até pedi para Iemanjá acalmar o mar para conseguirmos chegar a Paraty, onde aportamos depois de uma hora.
         Amei esse dia e voltei pensando em escrever o texto: "Paraíso Perdido, o lugar onde podemos ser o que somos!"
        Por fim, virou outra coisa hoje, pois vi no youtube um vídeo que se chama "Tour pelo meu corpo", do canal "Tá querida!", da Luiza Junqueira. Achei muito inovador, pois as pessoas fazem vídeos, tour pelo meu quarto, tour pela minha sala e a danada da menina fez um tour pelo corpo dela.
      O vídeo é lindo, é uma lição de amor!! Adorei quando ela fala: peito é mole mesmo porque é feito de carne!!
      Daí, pelo que pesquisei, ela iniciou um movimento e vários youtubers começaram a fazer a mesma coisa, com a finalidade de mostrar um corpo real, diferente dos padrões. E tem uns videos lindos!!
      Eu chorei com o vídeo da Gabi Oliveira, ela faz um tour pelo rosto dela, ressaltando seus traços chamados "negroides" e contando como já sofreu, como se achava feia por ser negra e hoje se ama muito!!

Moral da história: 
O amor cura!! 
O autoamor cura!!
Não odeie seu corpo!!
Ame seu corpo!!
Não fale de um corpo que não seja o seu!!

Por hoje é só!
Beijos de Luz!! hahahahah
#Paz

Obs: Aí vão os vídeos de que falei!!

Resposta ao Danilo Gentili

A solidão da mulher gorda


Tour pelo meu corpo

Tour pelo meu rosto

Transtorno alimentar e distorção de imagem

Livro da Daiana Garbin

Sobre gordofobia


Eu aos 16 anos






Eu com 34 anos, na Praia Grande de Cajaíba

Praia Grande de Cajaíba



sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Terapia do Prazer

Esses dias estava sozinha a procurar um bom documentário para assistir no Netflix, não simpatizei com nenhum. Aproveitando o fato de "estar sozinha", coloquei então na categoria de filmes românticos. Sabe como é... eu sou de libra, o marido é de escorpião, e ele não tem esse sangue de morango com chocolate correndo em suas veias, portanto o catálogo do Netflix sempre gera acordos e desacordos.
Bom, fui rodando as sinopses dos filmes e vi um filme de 1997 chamado Terapia do Prazer. O resumo dizia que um casal busca ajuda de um terapeuta sexual e se inicia nos mistérios do sexo tântrico. Me pareceu uma boa pedida já que um tempo atrás tinha comprado um livro no sebo sobre tantra.
Fui em busca do meu escorpiano, que estava deitado na minha maca (resquício da época em que eu era massoterapeuta). Ele já tinha sido devidamente massageado e havia tomado relaxante muscular para aliviar sua dor no pescoço e na cabeça (quem é casado com professor(a) sabe do que eu estou falando). Fui perguntar se ele estava bem, ele disse que sim, falei para ele do filme, voltei para a sala e dei o play.
Cinco minutos depois, o escorpiãozinho se aconchegou no sofá para ver se o filme realmente seria interessante.
Alerta: spoiler!!
Fomos pegos de surpresa no decorrer do filme. Não sabíamos que muitas questões que o casal do filme passa eram familiares para nós também; felizmente não tive gatilho nenhum, acho que estou conseguindo olhar as coisas mais distantes agora, vamos dizer que a cicatriz do abuso está mais branquinha, mais velha, já não inflama com tanta frequência.
No filme, o marido descobre que as dificuldades sexuais da esposa se devem a um trauma sexual muito forte, um incesto. O que transcorre depois é muito interessante, ele descobre que a esposa estava indo a um terapeuta sexual que ensinava sobre o tantra. Se sente traído, vai tirar satisfação e, por fim, conversando com o terapeuta da esposa, ele mesmo começa a ser "iniciado" na prática do tantra.
As coisas que lhe são ensinadas me fizeram lembrar de um livro que li e me ajudou muito, se chama Vagina, de Naomi Wolf (quero muito escrever no blog sobre esse livro). Nele a autora aborda questões biológicas e culturais, e mais um monte de outras coisas em torno da vagina, tudo isso para fundamentar que a vagina é mais que um orifício em nosso corpo. E, sim, é uma força poderosa que está ligada diretamente ao nosso cérebro. A verdade é que a energia sexual, quando é vivenciada de maneira consciente com autorrespeito e amor próprio, pode levar a um estado de harmonia, de conexão com o mundo e, além disso, faz a mulher também se tornar mais confiante e criativa, o que a torna, por fim, dona de seu corpo. Esse livro é muito rico em muitos sentidos, pois a autora entrevista muitos profissionais.
No livro, ela argumenta que um trauma sexual, além de ficar registrado no corpo, fica registrado no cérebro, portanto, apesar de muitos anos após o trauma, a vítima apresenta diferenças cerebrais que incluem alterações no tamanho e ativação do hipocampo e nos níveis de cortisol. Um trauma sexual pode literalmente reprogramar o seu corpo, em que passa a existir: estado de tensão permanente, estresse e medo, ou seja, segundo pesquisas recentes, o sistema nervoso autônomo é modificado após um trauma sexual, e isso afeta o corpo, os afetos e até disposição em criar, em trabalhar e sentir alegria nas minímas coisas. Para se ter uma ideia da belezura desse livro, a autora chega a ir até Serra Leoa para entrevistar mulheres que foram vítimas de estupros (estupros como arma de guerra) e também entrevistou os estupradores. Me lembro que parei de ler esse livro por semanas depois desse capítulo, pois entendi que uma mulher brutalmente ferida é extremamente interessante para os "donos da guerra". Uma mulher ferida, que tem a sua vagina destruída, tem também parte de suas funções cerebrais afetadas, o que faz que ela não responda mais para a vida, nem mesmo quando seus filhos são sequestrados para virarem soldados. 
Como reconhecer uma uma mulher ferida em qualquer parte do mundo?
Olhe seus olhos! Existe vida? Existe brilho?
Falo disso porque, mesmo que a vida nos empurre a vivê-la e, às vezes, passe a impressão de que uma mulher é feliz na intimidade do lar, esse olhar ferido é rapidamente percebido pelo companheiro(a). Esse é um dos fatos abordados nesse filme que assisti. O marido percebe que a esposa sempre deu sinais de desequilíbrios. Na vida sexual, inclusive, ele fica surpreso ao descobrir que a mulher não tem orgasmos.
O terapeuta, em uma primeira conversa com o marido, lhe pede para descrever em detalhes como ele faz amor com a  esposa. 
Minutos depois, ele conclui: "você faz amor com você mesmo, não com a sua esposa".
É realmente chocante... com os ensinamentos do tantra, ele começa primeiro a entender que sexo tem a ver com a sua relação com seu próprio corpo. Daí vem a pergunta: você se masturba? (alerta tabu!) a orientação é clara: quem não sente prazer com o próprio corpo não consegue dar prazer a outro corpo.
Durante o filme, o terapeuta vai passando vários exercícios tântricos, práticas que nunca serão encontradas em filmes pornô - que infelizmente são altamente consumidos por homens, objetificando a mulher e a beleza de um ato sexual. 
O terapeuta transmite instruções como: "sinta a energia no corpo de sua mulher, olhe nos olhos dela, veja como ela sente prazer em seu próprio corpo e permita que ela veja como você sente prazer em seu corpo...", por aí vai.
Bom, quando você acha que o filme chegou ao ápice e que tudo deu certo, ocorre o contrário, tudo desmorona! 
Liberar a energia sexual não é simples quando se foi vítima de um abuso. A esposa fica muito mal depois de terem feito amor e finalmente consegue relatar os próprios traumas sexuais e explicar como é difícil ter prazer em meio a flashbacks do passado. 
O terapeuta avisa que a piora é necessária e que o marido precisa entender e dar espaço à esposa. Cenas bem fortes ocorrem no filme, ressalto o momento da terapia de grupo em que a esposa consegue detalhar seus sentimentos a respeito de quando fazem amor.
O final do filme é bem dolorido, mas ao mesmo tempo é transformador (dá-lhe alquimia!). O terapeuta explica ao marido que todo o processo nunca teve a ver com a esposa, mas sim com o marido, questionando-o sobre por que ele teria tanta necessidade em dar prazer à mulher sendo que recebia tão pouco de volta. 
Sim, queridos leitores, ao buscar o amor de alguém, na verdade, precisamos nos questionar acerca de que tipo de amor idealizamos, o que queremos em troca? 
E quando a troca não vem, quando não recebemos o que idealizamos? 
Sim, relações morrem nesse momento e outra relação pode nascer já destinada ao mesmo fim.
Terminamos o filme bem impressionados e também sensibilizados, uma vez que enredo e expectadores acabaram se misturando no processo.
É um ótimo filme para abordar a questão do trauma sexual (claro que se eu soubesse o teor da história provavelmente não iria assistir, por medo de gatilhos), mas também para levar a uma reflexão séria tão pouco abordada em nossa mísera sociedade atual: Como é a relação com seu corpo? Te ensinaram a amar o seu corpo? Quais os medos e tabus que fazem com que você não conheça o seu corpo? Você consegue proporcionar prazer a você mesmo? Você ama e respeita corpo do seu parceiro(a)? Você sabe que a energia sexual é extremamente importante para a nossa vida?
Faz bem pensar nessas questões e ler sobre o assunto. Não perca mais seu tempo acreditando que pornografia é sexo de verdade. 
É importante que nós, mulheres, percebamos que, sim, somos educadas consumindo revista Capricho e depois de adultas partimos para revistas quase semelhantes que ensinam a como agradar um homem na cama - "claro, porque se ele vai procurar sexo fora de casa a culpa é sua, que não sabe fazer, que não sabe agradá-lo..." 
Então, vamos rever esses conceitos aí, aprendizes de Deusas!
Ame-se profundamente e deixe-se ser amada!
Ressalto que a prática do amor não é somente bailar entre as luzes, mas também entre as trevas interiores de cada ser humano, sejam as suas ou de seu parceiro(a), o que implica na difícil arte de dar e receber amor e todas as entrelinhas que isso implica.

Cena do filme: Terapia do Prazer


sábado, 4 de novembro de 2017

A crônica da camisinha faltante



Fazia tempo que não tinha vontade de escrever, mas aí vai um “causo” de minha vida, mais leve, mais suave, mais amor.
Dia desses fui no shopping; e anda daqui, anda dali... o Leo foi ao banheiro e fiquei esperando. Quando vi que na minha frente tinha uma farmácia, pensei: só tem uma camisinha na gaveta. Estava naquela lua, chamada por mim carinhosamente de lua de mel (quem orienta seu ciclo menstrual pelo calendário lunar, sabe do que estou falando); então, entrar naquela farmácia se tornou uma prioridade.
Uma das coisas que sempre me deixam confusa é que nas farmácias praticamente se escondem as camisinhas, quer dizer, mais ou menos, pois sempre ficam perto do caixa. Hipótese um: devem roubar muita camisinha. Hipótese dois: está ali por orientação do Ministério da Saúde, pois, quando você está indo embora, você olha a camisinha e se lembra que é bom ter umas a mais em casa, e assim o controle de natalidade e doenças venéreas é realizado por meio da propaganda subliminar.
Bom, fato é que elas nunca estão na altura dos olhos (já repararam isso?). Estão sempre na parte de baixo da prateleira, o que faz sempre que tenhamos que dar aquela ajoelhadinha para escolher, o que faz que nos escondamos, sumamos da vista (será que é orientação do Ministério da Saúde essa ajoelhadinha, para garantir o sigilo do cliente nas farmácias?).
Me lembro da primeira vez que resolvi comprar camisinha, na época fui em uma farmácia perto da minha antiga faculdade. Eu entrei e fiquei rodando pela farmácia sem achar a dita cuja. Daí veio uma atendente e me perguntou se eu precisava de ajuda, respondi finamente: preservativos. Ela levou um microssusto, não me disse nada e me levou até a prateleira, o sorriso e a espontaneidade dela plenamente treinados para seu cargo desapareceram. Achei estranho...
Voltando ao meu “causo”, entrei na farmácia e logo fui para perto do caixa procurar as camisinhas. Naquela farmácia elas estavam realmente “camufladas” bem na parte inferior da prateleira; tive de agachar muito para escolher, bem desconfortável, fora que elas estavam praticamente na fila do caixa. Me levantei e já tinha duas mulheres atrás de mim na fila, nem liguei, quem mandou colocarem as camisinhas justo ali?
Esperei na fila e logo vi o Leo lá fora me esperando, ele já tinha me achado, já que não avisei que ia entrar ali.
Cheguei no caixa, era uma moça bem simpática, ela tinha tatuado na mão uma tesourinha, fiquei com vontade de perguntar se ela era costureira, mas controlei as minhas fantasias tatuagísticas e não disse nada. Quando ela viu os dois pacotinhos de camisinhas, colocou rapidamente na sacola; e quando eu estava digitando a senha do cartão, ela me disse: quer colocar na bolsa já? Respondi: Claro, obrigada. Daí ela disse: me desculpe, é que não temos uma sacolinha que não seja transparente... e me olhou de um jeito... daí eu entendi o que ela estava querendo dizer; traduzindo, então: Me desculpe, mas não temos uma sacolinha de papel pardo, bem secreta para ninguém notar que você, mulher, ousou comprar camisinhas sozinha em uma farmácia.
Achei bem bizarro para variar. Cabe ressaltar, aqui, que nunca tive esse problema quando o caixa é homem, eles simplesmente colocam na sacola e efetuam a compra. Mas as mulheres sempre soltam alguma PÉROLA. Tudo bem, eu entendo... ou será que o Ministério da Saúde tem a ver com isso?
Saí da farmácia e disse para o Leo: fui comprar camisinha e a caixa disse uma coisa... O Leo me interrompeu e falou: “eu não sei o que a caixa disse, mas tinha duas mulheres atrás de você que estavam bem interessadas na sua compra!”. Respondi: “como assim?”
O Leo então descreveu: “elas ficavam olhando as camisinhas bem interessadas, mas o que a caixa disse?”
Contei para ele o que tinha ocorrido e fui embora pensando sobre isso... nunca perguntei se as minhas amigas compram camisinha, sabe, será que é coisa de homem? Tudo bem que é ele que vai usar, mas é dentro de quem? O “quem” não compra camisinha por causa desse detalhe?
A verdade é que há pouco tempo descobri (em grupo de mulheres no facebook) uma marca de camisinha que não conhecia, uma das poucas que não tem látex natural, o que evita possíveis alergias. A parte engraçada, diria peculiar, é que na embalagem vem escrito: “Origem: Tailândia”. Posso dizer que o pessoal da Ásia faz camisinhas bem mais confortáveis.
Mas, fato é que naquele dia depois de ter passado por aquela situação toda, cheguei em casa e fui guardar na caixinha rosa (coisa de libriana romântica) do meu criado-mudo as camisinhas, e não sei por que resolvi checar a validade, vai saber né, a Tailândia é longe!
E agora cheguei no ápice desse texto!!!
Quando abri o pacotinho, só tinha duas camisinhas, e não três como escrito na embalagem. Conferi novamente, e nada! Pensei: já pago mais caro por elas e ainda me vêm só duas!
Enfim, disse para o Leo e perguntei: “será que aciono o SAC (Serviço de Atendimento ao Cliente) da empresa?”. Ele disse que era bom.
Fiquei com uma raivinha que logo passou, quando fui olhar a embalagem e vi escrito: “Origem: India”.
Como assim? A mesma marca com origem diferente agora!
Naquele momento, sei lá o que me deu, pensei na minha fantasia camisística: A Índia é um país pobre, com certeza aquela camisinha faltante foi roubada por algum funcionário que queria fazer um amorzinho seguro, depois de um dia todo olhando milhares de camisinhas na sua frente. Se eu escrevesse para o SAC, com certeza iriam rastrear o lote e sim: essa pessoa seria demitida!
Oh, Deus!!! O que fazer, então? Naquela altura do campeonato, o funcionário já era um homem na minha cabeça, mas especificamente aquele ator que fez o filme Lion (se você ainda não assistiu esse filme, pare de ler este texto agora!! Pegue uma caixa de lenço e coloca no Netflix!) já imaginando que seu nome seria Raj ou Kabir e já tendo traçado toda a história na minha cabeça, uma comédia romântica de Bollywood com aquelas dancinhas no meio do filme, ah que lindeza! Seria “a saga do herói” indiana (um salve para Josef Campbell). Portanto, cabia a mim escolher: diria à empresa que fui lesada ou salvaria o indiano de uma demissão e, assim, sua possível noite de amor?!
Escolhi a segunda opção, a qual escrevo para vocês, escancarando meu surto literário rotineiro, em que tudo é motivo para uma boa história!
Espero que tenham se divertido até aqui, estou muito feliz por escrever algo mais leve depois de tanto tempo. E para provar que essas palavras são reais, tenho uma foto da camisinha em questão que tirei na época já pensando que assim que desse tempo escreveria este texto.

Boa noite, possíveis leitores!!!
E lembrem-se: o Ministério da Saúde tá de olho em você! 


quarta-feira, 12 de julho de 2017

Carta aberta ao meu abusador



   Esta carta foi escrita há quase dois meses.

   Prefácio

   Coragem – a força que vem do coração.
   A publicação dessa carta, para mim, tem finalidade terapêutica, ser capaz de mostrar a minha dor é também ultrapassar limites pessoais, ultrapassar o limite do silêncio. Esse silêncio que me assola e me devora.
    “Não conta nada a ninguém”. Essa frase ecoa aqui dentro de mim há anos e hoje - com muita coragem e também receio - resolvi fazer o contrário, vou contar a todos que puder. Minha intenção também é procurar os meus iguais, homens e mulheres que assim como eu sofrem pelo fato de terem sido abusados sexualmente na infância. Onde vocês estão? Vocês sentem o que eu sinto? Além da minha psicóloga e de algumas pessoas que me amam, eu não converso e não conheço aqueles que, como eu, silenciaram, pois não são reconhecidos em sua dor.
   Peço, encarecidamente, que, caso você se interesse em ler esta carta, não me desrespeite. A vida já é por demais difícil do lado de cá. Se quiser compartilhar, compartilhe. Se quiser escrever como isso te tocou, escreva. Mas, por favor, não dê uma opinião cheia de ódio e achismos se você não me conhece, não faça isso, por favor.
    Aqui, do lado de cá, de quem escreve, de quem se expõe, está se fazendo um esforço enorme, um movimento nunca antes feito... a dor é algo extremamente atemporal, já faz mais de vinte anos e ela continua aqui, me visitando. Se você se sentir tentado a escrever coisas do tipo: “perdoa”, ou “vai viver a sua vida”, ou “esquece isso, já faz tanto tempo”, ou “Jesus pode curar a sua dor” - vou logo avisando que, ao longo de tantos anos, já tentei todas essas opções, encontrei Jesus e até o Diabo, e nenhum deles foi capaz de apaziguar o que “jaz aqui dentro”, portanto não julgue, pessoas são seres diferentes.
   Esta carta foi escrita durante minha mais recente crise, em um momento de muita dor, e é neste momento que não consigo saber as consequências de tal ato, de publicar a carta, que peço que respeitem a minha dor.
    Uso aqui, então, meu recurso, meu blog, para ser portador eterno desta carta. Lanço esta carta, a minha dor, como alguém que lança um pássaro no ar, esperando que ele voe e que encontre um novo lar, que ele conheça novas terras, novos olhares – e, em meu desejo, espero que ele não volte nem para me visitar, nem para dar notícias, espero que finalmente encontre o seu caminho.
Juliana T. Moraes



CARTA ABERTA AO MEU ABUSADOR

 27 de maio de 2017.

Eu te odeio, eu te odeio profundamente!
Quanto mais eu luto para esquecer o que aconteceu mais difícil fica - e sabe por quê? Porque, hoje, com mais de 30 anos, eu me lembro e tenho consciência de quão nojento e covarde foi o que você fez comigo.
Eu sinto que não tenho mais forças para continuar...
A velha pergunta me assombra nos momentos de crise:
 Que Juliana era para existir agora? Como ela seria sem as cicatrizes? Eu choro... eu choro muito, estou chorando agora, sozinha, porque eu sinto que nunca vou conhecer essa parte roubada de mim.
Tenho que conviver com isso, mas às vezes doí, e doí tanto, que se a morte me olhasse nos olhos, eu a convidaria para ser minha irmã, aquela que nunca tive, aquela que faria tranças em meu cabelo e fecharia meus olhos com as mãos.
A raiva me domina por completo, as pessoas não entendem o que tem aqui dentro de mim, não entendem por que me isolo, por que quero resolver as coisas sozinha. 
Dentro de mim existe uma imensa solidão, a solidão de uma menina de 5 anos que não sabia o que estava acontecendo. Você sentiu prazer em me tocar? Acreditava que estava me masturbando?
Eu me lembro da sua risada, seu filho da puta, ela não sai da minha cabeça. Saiba que eu tive dor durante dois dias depois dessa "brincadeira".
Já tentei me matar algumas vezes, hoje sei que era você que eu queria matar, matar esse horror que existe dentro de mim.
Eu sou ruína, eu sou escombro, eu sou quilos e quilos de pedras fragmentadas, eu sou esse quebra-cabeça de granito que tenta se montar há anos e não consegue terminar... e, por vezes, vem uma nova tempestade, e eu preciso recomeçar, achar aquelas pedras que fazem sentido e que se aproximam.
 Eu não estou nunca sozinha, existem partes de mim que se conversam, às vezes é dia, as vezes é noite, e na minha frente aquela montanha de pedras para juntar. Daí surge a minha pequena, a pequena Ju, aquela que você abusou por tantas vezes, a menina alegre e triste ao mesmo tempo. Ela sempre vem me perguntar coisas, juntar as pedrinhas, acho que ela tem esperança que um dia eu a salve.
Do outro lado está uma mulher forte, bonita e cheia de raiva, essa mulher que sempre me levanta, é uma parte de mim, que me espera também, é o meu futuro ou meu presente que você me roubou. Ela sempre me espera, ela é vulcão, a chamo de Serena... Serena como um vulcão. Serena carrega Tomé, um menino que eu salvei dos meus sonhos obscuros, ela cuida dele, porque eu ainda não consigo.
Consegue ver meus fragmentos? As minhas pedras? Todos os elementos para uma bela psicose estão juntos, não é mesmo? Sim, isso é loucura, a loucura pode enlouquecer; a minha me salva e me cura. Todos esses pedaços, todas as Julianas um dia vão sair de dentro de mim, e nesse momento eu vou me sentir livre, não vou mais sentir medo.
Sem medo de me olhar no espelho,
Sem medo de andar de vestido,
Sem medo de tocar!
Ah, sim, o toque! Infelizmente eu carrego esse peso até hoje, tenho medo de toque, porque você, seu estrume, me tocou quando eu era uma criança. Até hoje eu não me permito por vezes ser amada, amada por quem me ama e a quem, por vezes, eu não consigo dar amor, dar afeto, dar toque. Nesse momento em que eu vejo a pessoa que me ama infeliz é que eu me lembro de você e do que você fez comigo.
Eu estou cansada, isso não passa, não vai embora, estou cada vez mais sozinha, não sei fazer quem me ama feliz... eu... eu já não sou feliz há muito tempo.
É tão injusto viver e sobreviver, dia após dia, com essa dor
Você não vai me matar, essa fase de tentativas já passou. Mas daqui para frente eu vou ser o seu inferno, se prepare, eu não vou mais me silenciar.
Eu vou viver!



Posfácio

É incrível que depois que a crise passa, me vem à cabeça uma suposta calmaria, um “tá tudo bem”. Sim, sobrevivi a mais uma crise de raiva e ódio. Quantas crises já tive ao longo dos anos? Inúmeras. Sinto uma imensa melhora a cada uma delas, antes ficava mais de uma semana deitada no quarto, chorando, chorando a fio por mais de três horas, quanta dor meu Deus! Uma dor que voltava para mim, para uma mutilação do meu coração, a depressão, as ideações suicidas, a melancolia, é por demais cruel. Me tornei a minha própria agressora. Atualmente, nas minhas crises, esse punhado se sentimentos agressivos não são mais dirigidos a mim e sim ao meu agressor.
Acredito que cabe ressaltar aqui que fui abusada desde muito pequena, o último abuso foi aos 11 anos. Recalquei por longos anos tal fato, quanto finalmente contei, aos 16 anos, minha família não soube como lidar, eu também não. Um pouco mais velha, cheguei a ficar cara a cara com meu abusador (marido da minha tia), ele confirmou as minhas memórias, até aquelas de quando eu era muito pequena. Sim, foi tudo real. Aos 24 anos, com a nova lei sobre pedofilia (Lei Joana Maranhão), tentei denunciá-lo à polícia, mas minha tia (esposa do abusador) ameaçou se matar e matar também os filhos... não tive estrutura emocional, voltei para casa, tive meses de gastrite, emagreci quase 10 quilos e deprimi cada vez mais, recomeçando a vida inúmeras vezes.
Atualmente, estou conseguindo revirar memórias na terapia, sentir sensações repulsivas novamente não é fácil, é dolorido, machuca, mas hoje compreendo que é a forma de me libertar de tantas coisas que não foram faladas, porque, afinal de contas, criança assustada não fala. Esse movimento de dar voz à criança é nauseante, eu não estou em terra firme, segura, estou no meio do mar, aprendendo a nadar na correnteza e não apenas no mar calmo.
 Deixar extravasar pelas minhas mãos toda a minha dor e sofrimento, esse é o modo encontrado para superar esses momentos, escrever, chorar, levantar no dia seguinte e continuar com a vida, com as pequenas coisas que fazem feliz. Eis o poder da arte!
Essa é forma de matar a dor que mora aqui dentro, sobrevivendo e realizando os meus planos; essa é a minha doce vingança: não ser destruída nem me destruir. Eu sei que sou forte, talvez mais forte do que eu imagino, mas a minha autoimagem ainda sofre pequenas alterações pelos traumas vividos. Aos poucos, entendo que eu sou uma mulher maravilhosa e entendo também o quanto, em cada crise, eu não fui doente e sim saudável. Sentir dor é sinal de que estamos vivos! E quantas pessoas ao nosso redor não se permitem ser saudáveis, não se permitem escutar suas dores emocionais?
A grande tragédia de ter sido abusada sexualmente na infância (dentro da família) é não ter provas. É sentir a desconfiança do adulto nos pequenos gestos, é ouvir: “Quando foi isso? Por que não me contou?”
Não se pode fazer nada; e assim a vida caminha, pessoas vivendo como se nada tivesse acontecido. A tragédia é: você também passa a viver como se nada tivesse acontecido, pelo bem da família. Quantos anos amargos foram assim vivenciados! Quando se consegue libertar disso é que se começa a viver! Meu reinício foi a base de calmantes, hoje é na terapia e me cercando de amor.
Sabe aquela frase: quem apanha não esquece? É isso, não se esquece um abuso, a invasão sofrida está gravada no corpo, nas células, na memória.
Uma pessoa próxima a mim me perguntou se eu conhecia alguém que tivesse passado por isso e superado. A minha resposta foi: eu não conheço ninguém, e essas coisas não se superam, a gente convive com elas. Acredito que a sociedade atual tem essa ilusão de poder superar qualquer tipo de obstáculo, eu não quero vencer nada, não sou atleta da minha dor, eu quero apenas ter fé, acreditar em mim e saber que agora eu consigo acender o interruptor e iluminar todo o horror que existe dentro de mim. Agora eu posso ver, eu consigo abrir meus olhos e ver cada abuso, cada ferida no meu corpo.
Sei do alto preço que pago em publicar esta carta. Sinto que caminho para a morte, aquela morte simbólica e necessária... algumas coisas precisam morrer para outras novas nascerem.
Me sinto completamente nua escrevendo estas palavras, exposta...
 Vocês conseguem ver minhas feridas? Meus machucados?
Eu ainda sangro, sinto dor...
Sei fazer curativos. Meus curativos, aprendi sozinha, mas agora estou disposta (na coragem) a deixar que outros façam por mim.