domingo, 23 de abril de 2017

13 Reasons Why: Reflexões e Realidade



   Já faz uma semana que terminei de assistir à série 13 Reasons Why. Acreditei que no dia seguinte ia conseguir escrever, mas não, não consegui.
     Fiquei pensando milhares de coisas sobre a série, tentando fazer uma linha de raciocínio. E hoje, pensando novamente a respeito, cheguei à conclusão de que, se a série pega pela emoção, é por aí que devo caminhar. Então, não estranhe se o meu texto não tiver a mesma linha cronológica que os episódios, vou puxar e repuxar como fazemos com um estilingue, e espero que a minha mira atinja o coração de  você aí que se propôs a ler este texto.
      Em 2003, eu estava no segundo ano da faculdade de Serviço Social quando a minha turma ganhou uma aluna nova; eu não me lembro do nome dela, só me recordo de como ela era linda, negra, alta, com tranças no cabelo e andava de salto divinamente. Vim a descobrir depois que era passista de escola de samba há muitos anos (I love passistas). 
     Ela ficou um certo tempo no curso e depois acredito que foi para a turma do noturno. Um dia a gente estava conversando, e ela me falou sobre o irmão. Primeiro, de um jeito muito amável, depois, com muito ódio. Ela me contou que ele tinha se suicidado dentro de casa, me descreveu a cena, uma situação realmente muito triste... 
     Ela me disse: "Eu odeio o meu irmão, ele acabou com a minha família, meus pais nunca mais foram os mesmos."
    Eu questionei: "Mas por que ele se matou?"
     Ela me disse que não sabia, ele não tinha deixado nada escrito.
    Novamente questionei: "Ele tinha algum problema, algum trauma?"
    E ela me disse que não, que ele tinha amigos, um bom emprego, era bem-humorado, enfim... por mais que eles pensassem, não conseguiram descobrir nada, nenhum motivo. 
    Me lembrei dela esta semana, das expressões de seu rosto enquanto me contava essa história. Eu juro que pensei: "E se ela pudesse descobrir o que aconteceu com o irmão? E se houvesse um jeito, como em 13 Reasons Why?"
    E, sim, nesse momento acendeu uma luzinha na minha cabeça! É isso! Essa série nos prende porque você se torna expectador do que levou uma garota a se matar, existe essa oportunidade, enquanto que, para a grande parte das histórias de suicídio, não temos acesso ao que levou às vias de fato, não entendemos e, por isso, a nossa tendência é julgar.
     Há umas duas semanas, alguns amigos começaram a relatar que estavam assistindo à série e ficando muito mal, cada um por um motivo diferente. Por trabalhar há algum tempo com o tema suicídio, no mesmo dia outras pessoas me procuraram e me preguntavam o que eu tinha achado, algumas foram até mais específicas: "Eu devo assistir? O que você acha?"
    Bom, como eu não tinha assistido à série, comecei a reproduzir o pouco que tinha lido: "Olha, toma cuidado, como você está atualmente? Algumas cenas podem ser gatilhos; se você passou por algo parecido, não assista sozinho."
     Confesso que, quando soube da cena do suicídio, fiquei com muita raiva com tamanha irresponsabilidade da série (explico melhor daqui a pouco). Apesar de tudo - temia os meus próprios gatilhos -, decidi assistir, eu trabalho com isso, era meu "dever".
     Bom, toda aquela minha resistência inicial à série vinha de achar que ela faria mais mal do que bem, principalmente para os adolescentes e por tudo o que eu tinha lido a respeito. Ainda bem que a vi e consegui formular a minha opinião; e não tenho vergonha de admitir que mudei de ponto de vista. Como boa libriana, coloquei na balança os prós e os contras, e hoje eu afirmo: Sim! Assista à série.
       Quando eu terminei, me lembro de ter dito ao Leo (meu marido): "São todos crianças, muito novinhos e lidando com coisas tão pesadas".
     Não se ofenda se você tiver 17 anos e ler isso, não é criança no sentido infantil, é no sentido de falta de experiência de vida. 
    Do lado de cá, eu com meus 33 anos, me lamentei de ver como a adolescência é e continua a ser um período tão trevoso. Me lembrei de tantas coisas que aconteceram com amigos meus e que eu não ajudei. Penso que quando era adolescente - nos anos 90 - aconteceram coisas iguais, mas tinha um porém, não havia a internet, que existe hoje, não havia google, youtube, facebook, instagram, nem mesmo o orkut existia, o auge era você ter um e-mail e frequentar salas de bate-papo (se a sua internet discada fosse boa). Acredito que ser adolescente hoje é bem mais pesado que na minha época, porque, mudando de escola, na maioria das vezes, o "problema" terminava.
      Vi muitas pessoas na internet julgando os personagens, eu mesma fiz o mesmo, particularmente no estupro da Jéssica: "Hannah, sai da porra desse armário; Hannah pula em cima dele; Hannah grita... Pelo amor de Deus!! Não acredito que você deixou isso acontecer".
     Cinco minutos depois, disse para o Leo: "Acho que teria feito o mesmo que ela."
     A Ju que pensou tudo isso enquanto assistia à cena é a Ju de 33 e não a Ju de 17. Com 17 anos talvez também eu ficasse paralisada, sem reação. 
    Entende quando digo que são todos "crianças" (ou podemos usar o termo "jovens adultos")?
     A grande verdade é que só aprendemos a reagir depois que alguma situação se repete várias vezes na nossa vida, quando alguém que já passou por isso nos orienta: "Olha isso é errado, não é justo."
     Temos um agravante também, pessoas que sofrem violências graves podem literalmente paralisar e até se visualizar fora do corpo, de tão insuportável que é a realidade.
        Na minha época diziam "Cu de bêbado não tem dono". Tem dono sim! Pode ser homem ou mulher.
    Esse dito popular nasceu de onde? 
    Pensem um minuto, a nojeira que é essa pequena frase e que ano após ano é uma piada; será que é piada mesmo ou é a "verdade" que muitos agressores reproduzem, porque se refere ao que fazem constantemente?
     Vamos então a uma expressão corriqueira contida nas palavras de Bryce: "ela estava pedindo".
     A velha discussão retorna e sempre retornará: a culpa é da vítima.
     Você, que assistiu à serie, admita que quando Hannah entrou na festa na casa de Bryce o seu pensamento foi: "Por que ela está aí? Hannah, vai embora, sua louca; Hannah, não entra na jacuzzi".
     Eu admito que pensei! 
     Muitos agressores, principalmente jovens, acreditam que "ela está pedindo", e justificam: "com essa roupa curta: tá doida pra dar".
    Bryce diz que Clay não entende nada de mulheres porque é virgem. É mais uma desculpa para homens que usam e abusam da própria força para ter satisfação sexual... 
    Me lembro de meu espanto quando uma advogada veio à minha turma de Serviço Social falar sobre violência contra a mulher, ela indagou: "Se uma mulher estiver nua na cama de um homem é estupro?"
     Resposta: "Se em algum momento e por algum motivo, ela disser NÃO, e o parceiro continuar, é estupro sim".
    Me lembro do embrulho no estômago que saí daquela palestra, muitos estupros acontecem dentro de casa e o agressor é o próprio marido.
     Pensando friamente, achei fantástico o jeito que Bryce, o agressor, foi feito na série: bonito, simpático, agradável, ajuda os amigos; quem iria desconfiar do Bryce, não é mesmo? 
    Os agressores, em sua maioria, se escondem atrás dessa persona. Conheço casos de meninas que foram violentadas pelos namorados - aquele namorado fofo. Um caso de uma mulher que foi violentada pelo melhor amigo - aquele de muitos anos. 
     Infelizmente, o que acontece na série é mais comum do que imaginamos, seja entre adolescentes ou mulheres.
       Sobre o Justin, que polêmico! Sim, ele deixou a namorada ser estuprada. Bryce disse: "O que é seu é meu".
    Fiquei pensando nesse mundo masculino, de parceiragem, camaradagem; até que ponto é o limite?
    Quando Marcus (aquele cara de quem você também não desconfiou) abusa de Hannah em um local público, ninguém a defende, ninguém pergunta o que aconteceu, os amigos sabem, o Zach ainda fica com um peso na consciência, mas não sabe lidar com a situação. 
     Voltando para o Justin, quando explica para a Jéssica o inexplicável, os motivos que o levaram a deixar que acontecesse o estupro, ele diz a ela que quando Bryce o jogou no chão, ele sentiu como a criança que era agredida pelos namorados da mãe e ficava sem nenhuma condição de reagir. Cá entre nós, o Bryce exercia quase uma função paterna na vida de Justin. Ele era tão amigo, não é mesmo?
    Uma das características de alguns agressores é realmente causar essa confusão: "ele é uma pessoa boa". Até quando os homens vão permitir a violência contra as mulheres? ou mulheres também permitirão que tal violência ocorra?
     Quando trabalhava como assistente social, eu já vi e ouvi cada história... Dou graças aos deuses que de uns três anos pra cá a questão sobre o assédio esteja sendo tão escancarada. Quando falamos de assédio, estamos ensinando garotas e garotos, homens e mulheres a reagir. Adolescentes não são ensinados a reagir, portanto não se pode julgar Hannah nem mesmo Justin de um jeito tão feroz.
      Uma outra coisa que veio em mente: essa série deveria ser assistida por todos os diretores, coordenadores, professores de escolas. Fica claro, como essa instituição não é preparada para lidar com questões de violência  - e olha que a escola da série é bem mais prafrentex do que as nossas escolas no Brasil. O objetivo de muitas escolas hoje se resume quase que na seguinte frase: temos que treiná-los a desempenhar o máximo no ENEM e no vestibular.
     E no vestibular da vida, quem orienta?
     Sabemos que os pais têm uma função essencial nesse papel, mas e a função educadora da escola, ainda existe?
    Os conflitos escolares são um aperitivo para a nossa vida adulta; se a escola não consegue lidar com isso (e muitas não querem mesmo), olhamos para a nossa sociedade e encontramos a mesma coisa.
     As nossas leis nos protegem? As leis são cumpridas?
    Uma cena reveladora para mim foi quando a mãe de Hannah foi ao banheiro da escola e fica impressionada com a quantidade de frases agressivas escritas na parede, e confronta os responsáveis pela escola. A decisão então foi apagar tudo, pintar as paredes do banheiro, ou seja, apagar as provas do crime.
     Podemos até pensar "isso é tão comum". Concordo com você, na nossa sociedade é tão comum a violência que paredes com frases ofensivas não significam mais nada, vivemos uma completa banalização da violência. 
   Quando se fala sobre Bullying, se ouve tanto: "Isso aconteceu comigo, na minha época era a mesma coisa, isso passa". 
     Percebe que, com frases desse tipo, estamos permitindo que a violência ocorra geração após geração? Não se ensina outro tipo de comportamento, e pior, se reproduzimos esse tipo de pensamento, somos igualmente agressores!
    Um adolescente que está no primeiro ano do ensino médio ou no sexto ano do ensino fundamental e ouve que "uma hora isso passa", "a escola daqui a pouco termina", pode ter certeza de que, além de não se sentir ajudado (afinal de contas ele precisa ir à escola todos os dias), ele nunca mais terá a confiança para contar sobre seus problemas, pois estes serão sempre minimizados.
      Tem gente que começou a assistir à série e não achou nada de mais. Nos primeiros episódios, Bryce publica uma foto das partes íntimas de Hannah contidas no celular de Justin para o pessoal da escola: isso não é nada de mais? Quando falei da banalização, é isso que quero dizer, não se enxerga  mais a violência, apesar de estar ali.
         O que vocês acharam dos pais de Hannah? 
    Eu achei pais normais, presentes. Agora, por que, mesmo tendo pais assim, ela não conseguiu pedir ajuda? E os pais de Clay, que sabiam que alguma coisa estranha estava acontecendo e chegaram até a verbalizar isso? E os pais de Jéssica?
     Achei interessante a série colocar pais presentes e, de certa forma bons, para os personagens centrais. Ter pais presentes não significa que o filho ou filha está isento de cometer suicídio ou ser estuprada em seu próprio quarto. Quando Jéssica diz ao pai "aconteceu uma coisa comigo", eu literalmente desmanchei. Ter a coragem de dizer essa frase não é fácil, o medo de ser julgada por quem nos ama pode ser avassalador, e o silêncio pode ser a escolha mais "confortável".
     Voltando à primeira pergunta, não sei se existe uma resposta exata, mas a vergonha e a culpa podem ser respostas aceitáveis. Infelizmente, a nossa sociedade ainda culpa a vítima por ter sofrido violência, e não digo nem a sexual, quantas histórias ouvimos assim "foi assaltado... mas por que você deixou o celular em cima da mesa do restaurante? ou como você deixou seu carro naquela rua tarde da noite? Você  não sabe que não se deve andar com a mochila nas costas em ônibus?" 
    "Com certeza você estava pedindo para ser assaltado! Pedindo para ser estuprada!"
     É triste pensar isso... será que Hannah pensou?
     Levar embora um celular, um carro que não é seu, é crime. Tocar no corpo de alguém sem a permissão da pessoa também é crime, não importa a situação.
     O grande erro da escola, para mim, foi escancarado na figura do senhor Porter. Difícil ser conselheiro, eu entendo, na conversa com Hannah ele começou bem, porém as duas opções que ele deu a ela foram difíceis de engolir: "Ou denuncia ou você segue com a sua vida?"
     Acredito que Sr. Porter representa muitos profissionais que são mal-instruídos acerca das questões ligadas à violência. Me recordei de um fato que aconteceu comigo há uns 11, 12 anos. Uma colega de profissão me contou que uma garota de uns 15 anos tinha relatado a ela que o pai a estuprava constantemente; ela disse que a menina deveria denunciar, a garota respondeu que tinha contado para a diretora da escola. Sabe o que a escola fez? Chamou o pai da menina para conversar; ele negou tudo de maneira tão convincente que a escola encerrou o caso. Sabe o que aconteceu com a menina quando ela chegou em casa? Adivinhem... foi violentada novamente.
     Bom, essa minha colega não denunciou o caso, me disse que o local era uma favela, e ela tinha que trabalhar, tinha medo de denunciar e ser morta em alguma viela. Eu me lembro de ficar transtornada com essa história e dizer a ela: "Denuncie e morra com dignidade!"
        Quem tem o dever de proteger está mesmo protegendo? Quantos profissionais chamam o agressor para uma conversa em vez de acreditar na vítima? 
     Fiz um curso de violência infantil há muitos anos, e a orientação era a seguinte: se a criança relatar uma situação de violência, denuncie! Coloque sob proteção. Depois, com inquérito, a história vai ser verificada, se é verdade ou mentira, depois será investigado. A primeira coisa a se fazer é acreditar na vítima, pois muitas crianças não são protegidas por este motivo, são desacreditadas em sua palavra.
         Vamos falar sobre Hannah Baker.
     Eu me lembro de que na minha adolescência senti algumas vezes uma imensa solidão, não sei explicar exatamente, mas me lembro de me agarrar às amizades, mesmo que não fossem amizades tão legais, pelo simples fato de não querer ficar sozinha. Vi a Hannah fazer isso algumas vezes no decorrer dos episódios, se colocar em situações para se sentir parte de alguma coisa, tanto que várias vezes ela mesma diz: "Eu não deveria ter ido na festa, não deveria estar aqui". A intimidade dela foi exposta tantas vezes, fosse por meio de comentários, imagens, pela violação de seu corpo ou até pelos pensamentos divulgados sem sua autorização em uma revista da escola. Em quem acreditar? Em quem confiar?
     Quando muitas coisas ruins acontecem e se está fragilizado, é possível que se acredite que a causa dos problemas está em si, e a única maneira de colocar um fim a tantas coisas ruins, é acabando com a causa, ou seja, consigo mesmo. Interessante é que quando Hannah rabisca em um papel, querendo entender por que tudo aconteceu com ela, chega a todos os nomes, a todas as razões, ela diz sentir um alívio, uma vontade de viver. Isso se deve ao fato de ela conseguir visualizar que outras pessoas colaboraram para que ela estivesse em sofrimento. Se eu pudesse encontrar Hannah Baker diria, repetidas vezes, a culpa não é sua!
       Hannah também foi grossa com alguns de seus colegas, cabe pensar por que ela começou a agir assim. 
    Escrevo aqui uma "provocação", apesar das inúmeras razões que Hannah utiliza para justificar o suicídio, ela talvez se esqueceu de colocar uma pessoa, ela mesma! Digo isso porque eu mesma pensei sobre mim, sendo eu, do chamado grupo dos "sobreviventes de si mesmo". Com certeza, uma das razões, talvez a primeira da fita, seria eu mesma. Podemos fugir de tudo o que se possa imaginar, se trancar em um quarto e não ver mais ninguém, mas não se pode fugir de si mesmo, da própria consciência e da raiva que se sente quando não conseguimos agir ou tomar alguma atitude positiva. Nos transformamos em nosso próprio agressor, no nosso próprio assassino. É duro conviver com quem nos deseja mal, ou seja, conosco mesmo.
        Gostaria muito de encerrar com Clay, ao lado de Hannah, foi o outro grande protagonista. Enquanto Tony, às vezes, o apressava a ouvir as fitas, Clay foi o mais saudável do grupo. Ele não conseguia "seguir em frente" como os outros estavam fazendo, preocupados com a suas referências para entrar na faculdade, com frases "A Hannah morreu e não se pode fazer mais nada". Clay literalmente surtou, e com razão, era pesado demais, pesado demais para continuar vivendo a vida como antes. Clay era alguém diferente, pois não fazia questão de estar em grupos; podemos dizer que havia uma autenticidade, apesar da pouca idade. Ele começa a fazer coisas, ser justiceiro e, de certa forma, presta apoio à Jéssica, grava a fita denunciando Bryce. Move uma energia e age de um modo que, ao final, vários personagens passam a contar a verdade quando intimados.
        Após Clay entregar as fitas para o senhor Porter e contar sobre Hannah, ao sair da sala do conselheiro, diz:

"AS COISAS PRECISAM MELHORAR, PRECISAMOS MELHORAR A FORMA COMO CUIDAMOS UNS DOS OUTROS."

            Me permitam ser repetitiva:

    "As coisas precisam melhorar, precisamos melhorar a forma como cuidamos uns dos outros."
     "As coisas precisam melhorar, precisamos melhorar a forma como cuidamos uns dos outros."
     "As coisas precisam melhorar, precisamos melhorar a forma como cuidamos uns dos outros."
   

     Quando uma pessoa comete suicídio, segundo pesquisas recentes, no mínimo cinco pessoas próximas são atingidas e, possivelmente, vão precisar de tratamento psicológico. Assim, conseguimos identificar o impacto da morte de Hannah em muitos personagens. Podemos até afirmar que todos eles precisariam passar por tratamento psicológico. Ao final da série, isso é escancarado com a tentativa de suicídio de Alex.
              Vocês assistiram ao documentário que tem quando terminam os episódios? Assistam, vale a pena. 
     Entendi o porquê de ter cenas tão fortes, hoje aceito que cenas fortes produzem efeitos, passa a ser mais claro o sentimento da vítima, o pensamento do agressor. Mas ainda acredito que a cena de suicídio deveria ter sido filmada de outra maneira, aquilo é uma perigosa aula de como se matar. Se a série consultasse especialistas em suicídio, essa cena com certeza não existiria.
     O desespero dos pais quando encontram Hannah já é por demais avassalador, somente essa cena seria o suficiente.

      Mesmo escrevendo tanto, não dei conta de falar de todos os personagens. Mas novamente recomendo: é boa série para assistir, gerar discussões; eu, portanto, recomendo.

 Destaco, entretanto, alguns cuidados que se podem ter:
- Não assista sozinho, convide um amigo, seus pais e converse ao final de cada episódio;
- Não faça maratona da série. Ela precisa ser assistida aos poucos, muitas cenas podem estar mexendo com você, apesar de você acreditar que não;
- Se você sofreu ou sofre bullying, violência sexual ou pensa em suicídio, por favor, não assista à série sozinho, lembre-se de que os personagens são fictícios. A arte, mais especificamente o cinema, tem sempre o objetivo de nos sensibilizar de alguma forma, e a finalidade, segundo o documentário da série, é exatamente a de fazer que quem precisa de ajuda se sinta encorajado a pedi-la.
 - Você não precisa assistir a todas as cenas se não tiver vontade, não se force a assistir e a sofrer sem necessidade. Cenas com conteúdos violentos podem ser gatilho para que você se deprima mais ou pense em suicídio.

       Se você conhece alguém que pensa em suicídio. Saiba que há formas de buscar tratamento:

     - Busque apoio de amigos e familiares, conte o que está acontecendo;
      - Busque tratamento psicológico e psiquiátrico. Busque o CAPS  (Centro de Atenção Psicossocial) de seu bairro para uma orientação com um profissional de saúde especializado, procure tratamento nas faculdades de Psicologia.
     - No Brasil, existe uma linha telefônica por meio da qual você pode pedir orientação 24h por dia. Esse trabalho é desenvolvido pelo CVV (Centro de Valorização da Vida). Disque 141 e converse anonimamente com algum voluntário, ou entre no site www.cvv.org.br e converse pelo chat.
     - Em casos graves: não deixe a pessoa sozinha, esconda facas, remédios, cordas etc. Internação sem o consentimento da pessoa é uma maneira de evitar que ela cometa suicídio.
         
         Não julguem um suicídio! Suicídio é ato de desespero!

   "AS COISAS PRECISAM MELHORAR, PRECISAMOS MELHORAR A FORMA COMO CUIDAMOS UNS DOS OUTROS"




        



            
      


      
       

quinta-feira, 16 de março de 2017

Para educar crianças feministas


     Como começar a escrever sobre esse livro? Não sei. Por isso decidi ser mais honesta possível, assim as ideias surgem na minha cabeça, na mesma velocidade que meus cabelos brancos o fazem.
   Cá estou eu, há cinco minutos, comendo uma paçoca caseira que a minha amiga trouxe de outra cidade só porque sabe que eu gosto – dos carinhos diários que é importante ressaltar – e cá também estou olhando para a tela do computador pensando: Como começar a escrever sobre esse livro? Hoje o reli, em especial para tentar escrever esse texto - e o impacto foi o mesmo.
      Vou escrever que o livro é uma carta. Quem escreve cartas atualmente?
     Tenho um saco de pano em que guardo as minhas cartas em casa, e a beleza delas é que se tornam algo permanente, algo que pode até ser passado pelas gerações – não que seja a intenção – quem guarda e-mails por tantos anos? Fica aí o silêncio.
     Me lembro de quando achei em uma pasta uma carta que meu pai escreveu para a minha mãe pouco tempo antes de se casarem, muito revelador descobrir nas suas palavras carinhosas a ansiedade pela primeira noite de amor.
      Pois bem, Chimamanda escreve uma carta a sua amiga de infância Ijeawele na “esperança de que fosse algo prático e sincero”. A amiga gostaria de saber o que devia fazer para criar sua filha como feminista. O que se sucedeu depois comigo ao ler a introdução foi o ato de não parar de ler – devorar – até a última linha.
     O livro consegue realmente dar a impressão de que você abriu uma caixa e encontrou uma carta, de alguém conhecido ou não, e resolveu ler, e assim caminhou até o final. Tudo isso porque Chimamanda coloca referências da infância dela e da sua amiga, fala de coisas muito particulares e durante todo o tempo se refere a Chizalum, a filha recém-nascida de Ijeawele.
     Gostaria de ressaltar sobre o questionamento da amiga da autora: o que devia fazer para criar sua filha como feminista. Esse questionamento, a princípio passou por mim rápido, mas na segunda vez que li o livro até grifei essa parte: CRIAR SUA FILHA COMO FEMINISTA.
     Bom, acredito que finalmente eu encontrei um norte para esse texto. O que mais me atingiu nesse livro foi justamente o fato de ele me fazer questionar as minhas ações e pensamentos do cotidiano, ele me fez voltar a vários momentos da minha vida em que fui criada em um sistema machista, mas também a momentos em que eu mesma reproduzi e ainda reproduzo esse machismo todo. Por isso que essa indagação torna-se importante, criar uma filha (o) como feminista também pode ter um duplo sentido, na primeira vez que li me deu a impressão  de entender o seguinte: como criar uma filha para que ela seja feminista. Mas não, não é isso, essa palavrinha COMO é o que faz todo a diferença.
  E aí que veio o meu desconforto, será que eu verdadeiramente sou feminista?
    Chimamanda escreve para a amiga dando quinze sugestões para que ela possa criar a filha como feminista, mas como educar uma criança para que ela venha a ser feminista se eu ainda sou contraditória em relação ao feminismo?
     Acho que o fato de ainda não ter filhos fez com que eu lesse esse livro como espelho, ou seja, olhando para minha imagem e trazendo reflexões à tona.
      Não vou falar sobre as quinze sugestões de Chimamanda, quero deixar o gostinho para que você, caríssimo leitor, seja mordido pelo bichinho da curiosidade e, na próxima vez que entrar em alguma livraria, pegue esse livro na mão para ler. Vou falar de quatro coisas que me tocaram no livro; não que as outras coisas não tenham importância, é questão pessoal mesmo, cada um tem a sua.
       Aí vai:

1.  Eu tenho valor.
   Chimamanda logo no início de sua carta, fala a amiga de suas duas premissas feministas, a primeira é: eu tenho valor. “Eu tenho igualmente valor. Não “se”. Não “enquanto”. Eu tenho igualmente valor. E ponto final.”
   Parece algo simples, mas não o é. Como e de maneira profunda, as mulheres não são criadas para se valorizarem e consequentemente crescem e se tornam inseguras em muitos aspectos da sua vida. O pior, a insegurança, para muitos, já virou uma característica do “ser mulher” na nossa cultura.
    Essas três palavras – eu tenho valor -  me pegou bem nas tripas, pois em muitas coisas eu me desvalorizo, seja para questões internas, quanto externas. Um exemplo disso é o próprio ato de escrever, sempre gostei de escrever, tenho textos guardados desde criança, porém posso contar nos dedos as vezes em que mostrei eles para alguém. Agora, mulher feita, quantas e tantas vezes já escrevi e depois apaguei tudo, simplesmente por achar que “não é bom”, “quem vai querer ler isso”, “tem gente que escreve melhor do que eu” e assim vai a lista da autossabotagem, ou seja, cadê o meu valor? O valor das minhas palavras?
   Felizmente, o ato de fazer terapia me ajuda muito nessas questões, mas o que me deu um empurrãozinho para divulgar meu blog foi ter sonhado com Eliane Brum, (vou abrir um parênteses aqui para questões oníricas). No sonho, ela, Eliane, respondia indagações para leitores em uma revista. Me lembro de uma mulher que me dizia ser muito difícil a sua questão ser escolhida por ela para ser publicada; eu então pegava uma revista e mostrava a essa mulher que Eliane Brum tinha escolhido três indagações minhas e publicado, me lembro do meu espanto em perceber que o “algo difícil” tinha acontecido comigo e não uma, mas três vezes. Na manhã seguinte, meu eu interior, meu self, com roupinha de Eliane Brum, me deu a coragem que precisava para começar a divulgar meu blog.
    Bom, outra coisa foi que eu cresci sem dar valor para a minha aparência pessoal, sem me achar realmente bonita, algo que tem muitas questões por trás também, mas hoje eu vejo que a minha mãe não me ensinou isso, pois ela não se acha bonita e não adianta as pessoas a elogiarem, porque ela não sente isso. Me lembro de ser criança e estar sentada na janela do quarto dos meus irmãos, olhando a minha mãe lavar roupa no tanque. De repente, ela parou e disse: as minhas mãos são feias.  Eu respondi a ela que não eram, mas ela me rebateu: são sim, são mãos de quem lava roupa.  E eu novamente rebati e disse: suas mãos lavam roupas, mas são bonitas.
   Ainda nos sentimentos de criança achei aquilo triste, tanto que está marcado na minha memória.
   A primeira sugestão de Chimamanda para sua amiga é: seja uma pessoa completa. Ouso dizer que quem não se dá o valor não consegue ser completo.

2. Ensine a Chizalum a não se preocupar em agradar.
    Chimamanda pede a amiga que não coloque essa pressão em sua filha. “Ensinamos as meninas a serem agradáveis, boazinhas, fingidas. E não ensinamos a mesma coisa aos meninos. É perigoso. Muitos predadores sexuais se aproveitam disso. Muitas meninas ficam quietas quando são abusadas, porque querem ser boazinhas. Muitas meninas passam tempo demais tentando ser “boazinhas” com pessoas que lhes fazem mal. Muitas meninas pensam nos “sentimentos” de seus agressores. Esta é a consequência catastrófica de querer agradar.”
    Quando li esse parágrafo, fiquei literalmente acabada.     Fui vítima de abuso sexual na infância, o agressor era da família, e eu era muito pequena para entender o que se ocorria comigo. Quando me dei conta (ainda criança, um pouco mais crescida), me recordo claramente da minha agonia, dos sentimentos contraditórios em relação ao acontecido: “será que eu conto?” “O que vão pensar?”,  “Vou acabar com o casamento da minha tia... eu gosto tanto dela” e, assim, querendo ser boazinha, demorei anos para falar sobre isso. Portanto, essa sugestão de Chimamanda é tão importante e profunda, não só pela questão do risco de abusos na infância, mas também que, quando você ensina sua filha (o) a ser agradável, você não ensina a ter personalidade, opinião.
   Agradar a todos não é benéfico, muitas mágoas e feridas acontecem porque você se calou, tanto na vida pessoal quanto na profissional.
  Chimamanda escreve uma coisa simples e maravilhosa: “Mostre-lhe que não precisa de que todo mundo goste dela. Diga-lhe que, se alguém não gosta dela, outro gostará. Ensina-lhe que ela não é apenas um objeto de que gostam ou desgostam, ela também é um sujeito que pode gostar ou desgostar.”
     E nós, seres adultos e bem-resolvidos, conseguimos fazer isso? Fica aí o silêncio novamente.

3. Dê a Chizalum um senso de identidade.
    A sugestão da autora é que a amiga ensine a filha a ter orgulho de ser, entre outras coisas, pertencente à cultura Igbo. De ensinar as partes bonitas de sua cultura e rejeitar aquelas que não são, mas, enfim, ensiná-la suas raízes, a ter orgulho de sua história e orgulho de ser o que é. É algo que ela deverá aprender em casa e não na escola. Sabemos o quanto isso é importante, em especial à criança negra, que durante a sua vida não vai se encontrar representada em vários âmbitos da sociedade.
    Bom, eu não sou mãe, mas essa parte do livro me pegou em especial por sentir uma lacuna em minha vida, no que se refere a identidade e ancestralidade. Se eu tenho essa dificuldade, acredito que vai ser complicado se um dia tiver que fazer isso com um filho(a).
     Nos últimos anos, em especial, me dediquei a essa questão de raízes e descobri muitas coisas que não me foram contadas na infância e também não me foram ensinadas como, por exemplo: pensei a vida toda que meu sobrenome era espanhol, mas na verdade é português. Pode parecer só um detalhe, mas a história, ao ser contada e recontada, foi mudando e escondendo fatos importantes, fatos esses que passam até pelo sobrenome. Eu não me sinto conectada com as minhas raízes, elas não me foram contadas em sua verdade, cabe a mim atualmente juntar esses caquinhos quebrados e dar significado a cada um deles.

4. Ensina-lhe sobre a diferença.
   “Torne a diferença algo comum. Torne a diferença normal.”
      Ensinar sobre a diferença tem que estar no topo da lista de qualquer pai ou mãe ou daqueles que um dia almejem sê-los.
        E o que acontece depois?
   O que acontece é que, para se fazer isso, é necessário olhar para si e para todos os seus preconceitos e questioná-los uma a um.
     A maioria dos nossos preconceitos são apreendidos na infância, a criança observa tudo ao seu redor, até as contradições provindas dos pais, que podem falar coisas bonitas, mas não efetivamente colocá-las em prática. E, sim, a criança vai ver tudo isso. 
    A grande questão sobre ensinar a diferença, para mim, tem a ver com violência. A nossa sociedade está doente porque não há tolerância com o diferente, pessoas morrem todos os dias porque não se aceita o diferente e colocam-se nesse balaio as mulheres, os gays, os trans, os negros, os índios, as religiões que não são da “maioria” e por aí vai a lista. O mundo não é um quadrado em que posso selecionar os que têm direito e os que não têm, os certos e os errados. O Mundo é redondo, com muitas pessoas lindas e diferentes entre si - e nós nos incluímos nele.

     Bom, Chimamanda no decorrer do livro traz muitas questões relevantes como: permitir-se falhar, “fazer junto” com o pai, papéis de gênero, sexismo, linguagem, não associar aparência com moral, vergonha, romance, opressão, dentre outros.
      Eu recomendo esse livro “pra geral”, para aqueles que têm filhos, para aqueles que pensam sobre o assunto, para aqueles que não querem ter filhos, para aqueles que têm sobrinhos, irmãos mais novos, até para aqueles que não convivem com crianças, porque, se queremos uma sociedade mais justa e igualitária, temos que começar a nos questionar sobre os nossos preconceitos e as nossas ações, para que haja uma mudança de comportamento, de atitude, a longo prazo. Só assim as crianças serão educadas de uma maneira alternativa, que não é mesma como fomos criados.
     Esse livro, sendo uma carta - repetindo o que já escrevi -, torna-se algo permanente, algo que podemos ler e reler. Chimamanda, carinhosamente fala à amiga, que ela pode seguir suas sugestões, mas isso não garante que tudo saia como imaginado, “porque às vezes a vida é assim”.
    O importante é tentar, mas o conselho dos mais valiosos contidos no livro é: “E sempre confie nos seus instintos mais do que em qualquer outra coisa, porque o amor por sua filha que lhe servirá de guia.”
         Suspiros, suspiros...





domingo, 12 de março de 2017

Moonlight


Sem saber ainda que naquele dia eu iria ao cinema, horas antes comentava com o meu marido sobre como eu era preconceituosa na adolescência. Recordava que tinha amigos gays, mas, na minha cabeça, o “certo” ainda era os casais serem heterossexuais.  Pensava que era desrespeitoso um casal gay manifestar sua afetividade perto de crianças.
Ainda bem que o mundo não para de girar, e eu também girei com ele, me lembro de que esse meu pensamento foi embora quando me dei conta de como é injusto duas pessoas que se amam não poderem andar de mãos dadas na rua, algo tão simples e corriqueiro para qualquer casal hetero. Resumindo: meu preconceito caiu por terra, quando me coloquei no lugar do outro, quando tive a capacidade de ter uma verdadeira empatia, de observar este mundo cheio de padrões que não fazem sentido, já que sempre vai haver determinado grupo de pessoas que não têm o direito de serem felizes por aquilo que são.
Das sincronicidades do universo, fui assistir ao filme Moonlight no mesmo dia, e a minha sensação foi bem parecida com o que descrevi acima: Moonlight abre a facão uma trilha no nosso coração: a trilha da empatia.
O filme me impressionou muito, a maneira como foi filmado, a fotografia, o ritmo do filme em si, até pelo fato de ser o primeiro filme a que assisto em que todos os atores são negros. Porém, gostaria de destacar duas coisas: os atores e as falas do filme.
Sou muito observadora quanto a isso, pois adoro cinema. Os personagens principais Chiron, sua mãe Paula e Juan: a atuação desses atores foi impecável, coisa linda de se ver. Todos os atores que interpretaram Chiron em especial, se eu pudesse, abraçaria eles longamente.
Acredito que uma das coisas mais difíceis para um ator é conseguir passar o sentimento de medo e insegurança pelo olhar, e isso eles conseguiram fazer, ao mesmo tempo fizeram Chiron uma criatura extremamente doce.
Esse filme toca em pontos polêmicos como: maternidade, paternidade, drogadição, tráfico de drogas, homossexualidade, desamparo. Tudo costurado com falas cruas, reais e profundas.
O enredo e tudo o que o acompanha me sensibilizaram demais exatamente por isso: aquilo que eu disse sobre empatia, lembra?
É isso!
Quem assiste consegue sentir a dor quando se tem um parente que é viciado em algum tipo de drogas. Eu passei por isso, não com a minha mãe, mas com o meu pai, que durante alguns anos bebia tanto que quase morreu.
O sentimento de Chiron pela mãe, tão ambíguo: ora preocupação, ora ódio, ora  indiferença – sei bem o que é isso. Para quem nunca passou por situação semelhante na família, com o filme consegue minimamente sentir um pouco dessas emoções. São feridas abertas ao longo de muitos anos que afetam os relacionamentos para sempre.
E o cubano Juan? O que é esse homem? Um traficante detentor de todo o mal do mundo?
Não! Não, nesse filme. Aliás, brilhantemente, podemos constatar escancaradamente a mensagem de que ser pai e mãe não precisamente tem a ver com o fator biológico e, sim, com assumir um compromisso perante outro ser humano. Isso é Juan, com todas as suas contradições, um traficante, que representa a figura paterna para Chiron, e juntamente com Teresa, sua namorada, encarnam a mãe e o pai que protegem, alimentam, que respondem às dúvidas, sejam elas quais forem.
Uma cena especial, para mim - acho que é a última cena em que aparece o Juan -, foi a conversa que Chiron teve com Juan e Teresa. Uma conversa dura, que leva Juan às lágrimas. Essa cena deveria ser vista por todos aqueles que ainda acreditam que não alimentam um sistema de tráfico quando consomem drogas ilícitas. Sim, alimentam, e esse sistema destrói pessoas, destrói famílias. A minha família quase se desmanchou por causa de uma droga lícita, igualmente vil, mas aquelas que ainda são proibidas possuem um ciclo mais cruel ainda. Sim, podemos ser responsáveis direta ou indiretamente pela queda de alguém, e quando Chiron (ainda criança) se levanta da mesa e dá as costas para Juan é o momento em que ele entende isso. Juan desmorona. Juan o ama. Juan vende drogas para a mãe de Chiron.
Apesar desse paradoxo, Chiron leva Juan para sempre consigo. Arrisco dizer que encarna Juan, até como proteção, como podemos ver na terceira parte do filme.
De maneira sensível, Moonlight fala sobre homossexualidade, aquela velha história: se fosse para escolher, ninguém escolheria ser homossexual. Infelizmente essas pessoas sofrem e sofrem muito, desde a infância. Guardadas as particularidades do Chiron, podemos sentir todos os seus percalços até a vida adulta pelo fato de ser o que é. Porém, tudo é sublimado quando Chiron tem os sentimentos correspondidos.
De verdade, como toda libriana que se preze, o romance corre nas minhas veias, e a última sequência de cenas do filme aumentou consideravelmente a minha quantidade de suspiros por segundo! O que foi aquilo? Aquela tensão? Aquele carinho todo?
Kevin consegue deixar Chiron totalmente nu, e não estou aqui dizendo de roupa e, sim, de alma. (Dica para a vida: se encontrar alguém que consiga te deixar nu desse jeito também, pense seriamente em dar companhia para a sua escova de dentes).
Kevin alimenta Chiron – literalmente - com comida de verdade; Kevin, através de uma música, diz a ele o quanto Chiron nunca saiu de seus pensamentos; Kevin o questiona em determinado momento: Quem é você, Chiron?
Moonlight é filme que expõe umas das principais características do ser humano: ser contraditório. Todos os personagens o são, porém é um filme que também fala sobre o amor: e todos os personagens amam - e amam muito.

 O filme se encerra com duas frases:
“Você foi o único que me tocou.”
“Eu nunca fui tocado por mais ninguém.”

O símbolo ultrapassa a literalidade em questão, a declaração de amor mais bonita que já vi em um filme e que me levou às lágrimas.







sábado, 11 de março de 2017

Helena


Lendo o envelope que chegou em casa "agradecemos por ter doado sangue em nosso hospital (...)"
E assim sem querer...
Senti o gosto da sua sopa de feijão na minha boca,
Me lembrei das suas mãos e das unhas pink,
Do seu cabelinho curto colocado sempre de lado,
Da sua saia até o joelho,
Dos seus pés inchados,
Do "come mais, eu não vi você comer",
Das suas histórias da época da vila,
Das histórias de quando morou em São Paulo e sabia andar de bonde por toda a cidade,
Das minhas perguntas de criança "Vó, doi ter filho? Resposta: "Vixi!"
Me lembrei dos presentes:
da roupa de lambada,
da Barbie,
do bolo de chocolate,
do terço,
do pano de prato,
 do jogo de lençol,
do doce de mamão...
Do "Vó, posso deitar na sua cama?"
Dos seus conselhos nada ortodoxos: "casa com homem rico"
E eu desobedeci, me casando com um professor...
Do "Ela é biscate, eu sei!"
Das suas risadas olhando para o chão e colocando a mão na boca,
E por fim, das nossas últimas conversas... "Que Deus te abençoe, felicidades viu, cuida dos seus pais".
Na cama da UTI, você me olhando sem poder falar... eu dizendo... "vai ficar tudo bem, vó, fica tranquila, eu te amo"
Você apertou minha mão bem forte e eu nunca vou esquecer disto.
Vó Lena!
A saudade,
A vontade de ainda pegar o telefone e te ligar é uma reverência, uma forma de gratidão sempre!!!

fevereiro de 2015




segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A Velha Chola


- O que aconteceu? Que você está com essa cara?
- É que... uma velha, uma velha chola passou por mim...
- Uma velha chola?
- Sim, isso mesmo!

Existem momentos na vida – acredito eu – que somos impactados por algum acontecimento que levaremos no coração por muito tempo. Às vezes, não temos consciência de tal fato, esse momento veio e passou e só percebemos um bom tempo depois. Não foi o que aconteceu comigo, eu sabia que o que eu vivi naquela manhã, teria consequências; soube disso no exato momento em que a vi.
A viagem tinha sido longa, cheguei em São Paulo de manhazinha, na Rodoviária da Barra Funda. Decidi passar no banheiro, paguei os R$ 0,50 cents e entrei. Não é lá o banheiro dos sonhos ou o da sua casa, mas a necessidade coloca o ser o humano a fazer coisas incríveis. E lá estava eu, usando o equilíbrio que desde pequena minha mãe já havia ensinado, para não encostar na privada enquanto se faz xixi. Sim, isso não é só possível, é uma arte transmitida há muitas gerações pelas mulheres. Nesse exato momento, começo a ouvir um homem gritando, mais precisamente em espanhol. Achei estranho, lavei as mãos e me encaminhei até a porta de saída. Foi então que a vi...
Uma senhora, uma velha, uma velha chola estava com as suas roupas e saia coloridas, o cabelo divido em duas tranças que percorria as orelhas, passava por seu colo e iam até a cintura; logo acima da cabeça, um pequeno chapéu. Não sei precisar o que aconteceu comigo ao vê-la, por isso vou descrever a cena a priori e depois relatar o que seu senti e o que ainda sinto.
Essa mulher, com essas roupas e esse cabelo, estava paralisada na catraca da saída do banheiro; o homem que gritava com certeza era seu parente. Ele pedia para ela andar para frente, assim a catraca rodaria. Esse homem parecia nervoso, a velha chola parecia muito confusa, até um pouco assustada. Felizmente, a funcionária do banheiro ajudou e assim eles foram embora. Sim, uma cena simples, quiçá cotidiana, e eu a levo comigo quase sete anos depois.
Meu primeiro pensamento depois do ocorrido era: o que aquela senhora estava fazendo ali? Claramente não era o seu lugar, ela não estava feliz ou calma, parecia uma flor arrancada de sua terra e que agora não sabia como se portar no vaso novo. Fiquei com a imagem da velha chola muito presente naquele dia, decidi até escrever sobre ela, mas não consegui. Acredito que o que bateu em mim foi uma tristeza por ela, por ela não estar à vontade, não estar no seu lugar, na sua casa.
Desde então até os dias de hoje, a velha chola já passou por mim algumas vezes mais, e eu literalmente criei a expressão “a velha chola passou por mim hoje”. Digo sempre isso quando acontece de eu ver ou conhecer uma pessoa que traz no corpo o significado de suas raízes, do lugar onde habita, daquelas pessoas que, apesar da distância física, não se vestem ou se portam de maneira diferente, que não aderem aos “modismos” de seu novo lugar, que ainda conseguem se conectar de alguma maneira aos que vieram antes, aos seus antepassados.
Essas coisas eu sinto de maneira muito suave, pode ser um chapéu, um suspensório, um antigo anel de rubi, uma bolsa antiga de vime, um tamanco surrado. Podem ser muitas coisas, até mesmo um paninho florido que cobre a máquina de costura de sua mãe. Quando me vem essa sensação, eu logo digo - na verdade é pergunta disfarçada – Que anel bonito! Amo suspensório! E essa bolsa, hem... em quantos bailes já foi?  
Todas as vezes que faço isso, essas pessoas abrem um sorriso, e é só esperar que a história vem. Sobre o paninho florido, eu até levei um susto, aquela estampa já me era conhecida desde a infância, porém, quando a minha mãe me disse que aquele pano em cima da máquina de costura era um pedaço do vestido de casamento da minha avó, quase enfartei! Como assim, mãe? Vestido de casamento?
“Sim, naquela época, na roça, não tinha esse luxo de vestido de noiva, o vestido mais bonitinho que você tivesse guardado era usado na cerimônia.”
Com o tempo, o vestido foi ficando muito velho, a minha mãe então guardou um pedaço do velho tecido que hoje fica em cima da sua máquina. É exatamente nesses momentos que a velha chola passa por mim!
Tempos atrás, assisti a um filme não muito novo, se chama Spanglish. É um filme de comédia com uma boa surra de drama. Muitos assuntos importantes são abordados ao mesmo tempo, mas vou me ater a personagem da empregada mexicana que começa a trabalhar na casa de um casal americano nos EUA, nem sei o que escrever, é maravilhosa essa mulher!
Ela luta de todas formas para que a filha não seja influenciada pela convivência com essa nova família, o que realmente é muito difícil. Ela mostra para a filha que não se pode ter o que, na verdade, nunca foi seu. Ao final do filme, a menina entende que a mãe não deixou que ela perdesse o significado das próprias raízes.
Certamente, a velha chola, com esse filme, passou por mim mais uma vez.
Nessa sexta-feira à noite, eu coloquei no History channel e estava passando um programa chamado Alienígenas do Passado - sou desse tipo de gente, que assiste esse tipo de programa e adora.
Bom, eles apresentaram muitos casos ocorridos em diferentes partes do mundo na Antiguidade; fatos considerados folclore e abordados como indícios de comunicações alienígenas. Um exemplo são os dragões nas antigas histórias chinesas, que poderiam ser, na verdade, espécie de ovnis que abduziam pessoas, temporariamente ou de maneira permanente, como teria acontecido com um dos mestres, se não me engano, do TAO, que foi embora para sempre em cima de um “dragão”.
Outro caso que eles contaram nesse programa me impressionou pelas imagens. Creio que é no Chile e acontece todos os anos, trata-se de uma cerimônia religiosa e que, pelo que entendi, se chama “Estrela da Neve”. Muitas pessoas, homens e mulheres sobem nas montanhas cobertas de neve, há muitas cholas também. A finalidade é realizar esse ritual para trazer coisas boas durante o ano.
Apenas alguns homens sobem na parte mais alta e perigosa da montanha e trazem blocos de gelo considerados sagrados, que vão proteger e iluminar as pessoas daquela comunidade. É claro que a especulação é de que a estrela de neve resultaria de comunicações alienígenas ocorridas no passado, enfim...
De qualquer modo, tirando essa parte, as imagens, como falei, eram lindas. Comovia ver aquelas pessoas subindo a montanha para agradecer e pedir proteção, afinal, elas vivem ali.
 Foi nesse momento que a velha chola passou por mim novamente. Era aquele o seu lugar, nas montanhas, não presa na catraca do banheiro da rodoviária Barra Funda.

Obrigada, querida chola! Obrigada por continuar afetando a minha vida, para eu não me esquecer das pequenas coisas, das minúsculas coisas que me constroem, que me deixam em pé e me fazem ser o que sou, seja qual for o lugar em que estiver.

                                                                                                   Imagem: Google

domingo, 10 de abril de 2016

Fragmentos


O medo escondido dos olhos
É alimento para o guia
Ele chega segurando na mão, uma pequena luz, sua paixão
Sussurrando baixinho, o seduz, toma-lhe corpo e enche-se de palavras
O grande guia se dirige aos olhos medrosos
"Venha, toque... não se importe"
É um sonho?
Por favor fale baixo, 
Não me acorde
Ainda o vejo sorrindo.

14/08/2014