sábado, 4 de novembro de 2017

A crônica da camisinha faltante



Fazia tempo que não tinha vontade de escrever, mas aí vai um “causo” de minha vida, mais leve, mais suave, mais amor.
Dia desses fui no shopping; e anda daqui, anda dali... o Leo foi ao banheiro e fiquei esperando. Quando vi que na minha frente tinha uma farmácia, pensei: só tem uma camisinha na gaveta. Estava naquela lua, chamada por mim carinhosamente de lua de mel (quem orienta seu ciclo menstrual pelo calendário lunar, sabe do que estou falando); então, entrar naquela farmácia se tornou uma prioridade.
Uma das coisas que sempre me deixam confusa é que nas farmácias praticamente se escondem as camisinhas, quer dizer, mais ou menos, pois sempre ficam perto do caixa. Hipótese um: devem roubar muita camisinha. Hipótese dois: está ali por orientação do Ministério da Saúde, pois, quando você está indo embora, você olha a camisinha e se lembra que é bom ter umas a mais em casa, e assim o controle de natalidade e doenças venéreas é realizado por meio da propaganda subliminar.
Bom, fato é que elas nunca estão na altura dos olhos (já repararam isso?). Estão sempre na parte de baixo da prateleira, o que faz sempre que tenhamos que dar aquela ajoelhadinha para escolher, o que faz que nos escondamos, sumamos da vista (será que é orientação do Ministério da Saúde essa ajoelhadinha, para garantir o sigilo do cliente nas farmácias?).
Me lembro da primeira vez que resolvi comprar camisinha, na época fui em uma farmácia perto da minha antiga faculdade. Eu entrei e fiquei rodando pela farmácia sem achar a dita cuja. Daí veio uma atendente e me perguntou se eu precisava de ajuda, respondi finamente: preservativos. Ela levou um microssusto, não me disse nada e me levou até a prateleira, o sorriso e a espontaneidade dela plenamente treinados para seu cargo desapareceram. Achei estranho...
Voltando ao meu “causo”, entrei na farmácia e logo fui para perto do caixa procurar as camisinhas. Naquela farmácia elas estavam realmente “camufladas” bem na parte inferior da prateleira; tive de agachar muito para escolher, bem desconfortável, fora que elas estavam praticamente na fila do caixa. Me levantei e já tinha duas mulheres atrás de mim na fila, nem liguei, quem mandou colocarem as camisinhas justo ali?
Esperei na fila e logo vi o Leo lá fora me esperando, ele já tinha me achado, já que não avisei que ia entrar ali.
Cheguei no caixa, era uma moça bem simpática, ela tinha tatuado na mão uma tesourinha, fiquei com vontade de perguntar se ela era costureira, mas controlei as minhas fantasias tatuagísticas e não disse nada. Quando ela viu os dois pacotinhos de camisinhas, colocou rapidamente na sacola; e quando eu estava digitando a senha do cartão, ela me disse: quer colocar na bolsa já? Respondi: Claro, obrigada. Daí ela disse: me desculpe, é que não temos uma sacolinha que não seja transparente... e me olhou de um jeito... daí eu entendi o que ela estava querendo dizer; traduzindo, então: Me desculpe, mas não temos uma sacolinha de papel pardo, bem secreta para ninguém notar que você, mulher, ousou comprar camisinhas sozinha em uma farmácia.
Achei bem bizarro para variar. Cabe ressaltar, aqui, que nunca tive esse problema quando o caixa é homem, eles simplesmente colocam na sacola e efetuam a compra. Mas as mulheres sempre soltam alguma PÉROLA. Tudo bem, eu entendo... ou será que o Ministério da Saúde tem a ver com isso?
Saí da farmácia e disse para o Leo: fui comprar camisinha e a caixa disse uma coisa... O Leo me interrompeu e falou: “eu não sei o que a caixa disse, mas tinha duas mulheres atrás de você que estavam bem interessadas na sua compra!”. Respondi: “como assim?”
O Leo então descreveu: “elas ficavam olhando as camisinhas bem interessadas, mas o que a caixa disse?”
Contei para ele o que tinha ocorrido e fui embora pensando sobre isso... nunca perguntei se as minhas amigas compram camisinha, sabe, será que é coisa de homem? Tudo bem que é ele que vai usar, mas é dentro de quem? O “quem” não compra camisinha por causa desse detalhe?
A verdade é que há pouco tempo descobri (em grupo de mulheres no facebook) uma marca de camisinha que não conhecia, uma das poucas que não tem látex natural, o que evita possíveis alergias. A parte engraçada, diria peculiar, é que na embalagem vem escrito: “Origem: Tailândia”. Posso dizer que o pessoal da Ásia faz camisinhas bem mais confortáveis.
Mas, fato é que naquele dia depois de ter passado por aquela situação toda, cheguei em casa e fui guardar na caixinha rosa (coisa de libriana romântica) do meu criado-mudo as camisinhas, e não sei por que resolvi checar a validade, vai saber né, a Tailândia é longe!
E agora cheguei no ápice desse texto!!!
Quando abri o pacotinho, só tinha duas camisinhas, e não três como escrito na embalagem. Conferi novamente, e nada! Pensei: já pago mais caro por elas e ainda me vêm só duas!
Enfim, disse para o Leo e perguntei: “será que aciono o SAC (Serviço de Atendimento ao Cliente) da empresa?”. Ele disse que era bom.
Fiquei com uma raivinha que logo passou, quando fui olhar a embalagem e vi escrito: “Origem: India”.
Como assim? A mesma marca com origem diferente agora!
Naquele momento, sei lá o que me deu, pensei na minha fantasia camisística: A Índia é um país pobre, com certeza aquela camisinha faltante foi roubada por algum funcionário que queria fazer um amorzinho seguro, depois de um dia todo olhando milhares de camisinhas na sua frente. Se eu escrevesse para o SAC, com certeza iriam rastrear o lote e sim: essa pessoa seria demitida!
Oh, Deus!!! O que fazer, então? Naquela altura do campeonato, o funcionário já era um homem na minha cabeça, mas especificamente aquele ator que fez o filme Lion (se você ainda não assistiu esse filme, pare de ler este texto agora!! Pegue uma caixa de lenço e coloca no Netflix!) já imaginando que seu nome seria Raj ou Kabir e já tendo traçado toda a história na minha cabeça, uma comédia romântica de Bollywood com aquelas dancinhas no meio do filme, ah que lindeza! Seria “a saga do herói” indiana (um salve para Josef Campbell). Portanto, cabia a mim escolher: diria à empresa que fui lesada ou salvaria o indiano de uma demissão e, assim, sua possível noite de amor?!
Escolhi a segunda opção, a qual escrevo para vocês, escancarando meu surto literário rotineiro, em que tudo é motivo para uma boa história!
Espero que tenham se divertido até aqui, estou muito feliz por escrever algo mais leve depois de tanto tempo. E para provar que essas palavras são reais, tenho uma foto da camisinha em questão que tirei na época já pensando que assim que desse tempo escreveria este texto.

Boa noite, possíveis leitores!!!
E lembrem-se: o Ministério da Saúde tá de olho em você! 


quarta-feira, 12 de julho de 2017

Carta aberta ao meu abusador



   Esta carta foi escrita há quase dois meses.

   Prefácio

   Coragem – a força que vem do coração.
   A publicação dessa carta, para mim, tem finalidade terapêutica, ser capaz de mostrar a minha dor é também ultrapassar limites pessoais, ultrapassar o limite do silêncio. Esse silêncio que me assola e me devora.
    “Não conta nada a ninguém”. Essa frase ecoa aqui dentro de mim há anos e hoje - com muita coragem e também receio - resolvi fazer o contrário, vou contar a todos que puder. Minha intenção também é procurar os meus iguais, homens e mulheres que assim como eu sofrem pelo fato de terem sido abusados sexualmente na infância. Onde vocês estão? Vocês sentem o que eu sinto? Além da minha psicóloga e de algumas pessoas que me amam, eu não converso e não conheço aqueles que, como eu, silenciaram, pois não são reconhecidos em sua dor.
   Peço, encarecidamente, que, caso você se interesse em ler esta carta, não me desrespeite. A vida já é por demais difícil do lado de cá. Se quiser compartilhar, compartilhe. Se quiser escrever como isso te tocou, escreva. Mas, por favor, não dê uma opinião cheia de ódio e achismos se você não me conhece, não faça isso, por favor.
    Aqui, do lado de cá, de quem escreve, de quem se expõe, está se fazendo um esforço enorme, um movimento nunca antes feito... a dor é algo extremamente atemporal, já faz mais de vinte anos e ela continua aqui, me visitando. Se você se sentir tentado a escrever coisas do tipo: “perdoa”, ou “vai viver a sua vida”, ou “esquece isso, já faz tanto tempo”, ou “Jesus pode curar a sua dor” - vou logo avisando que, ao longo de tantos anos, já tentei todas essas opções, encontrei Jesus e até o Diabo, e nenhum deles foi capaz de apaziguar o que “jaz aqui dentro”, portanto não julgue, pessoas são seres diferentes.
   Esta carta foi escrita durante minha mais recente crise, em um momento de muita dor, e é neste momento que não consigo saber as consequências de tal ato, de publicar a carta, que peço que respeitem a minha dor.
    Uso aqui, então, meu recurso, meu blog, para ser portador eterno desta carta. Lanço esta carta, a minha dor, como alguém que lança um pássaro no ar, esperando que ele voe e que encontre um novo lar, que ele conheça novas terras, novos olhares – e, em meu desejo, espero que ele não volte nem para me visitar, nem para dar notícias, espero que finalmente encontre o seu caminho.
Juliana T. Moraes



CARTA ABERTA AO MEU ABUSADOR

 27 de maio de 2017.

Eu te odeio, eu te odeio profundamente!
Quanto mais eu luto para esquecer o que aconteceu mais difícil fica - e sabe por quê? Porque, hoje, com mais de 30 anos, eu me lembro e tenho consciência de quão nojento e covarde foi o que você fez comigo.
Eu sinto que não tenho mais forças para continuar...
A velha pergunta me assombra nos momentos de crise:
 Que Juliana era para existir agora? Como ela seria sem as cicatrizes? Eu choro... eu choro muito, estou chorando agora, sozinha, porque eu sinto que nunca vou conhecer essa parte roubada de mim.
Tenho que conviver com isso, mas às vezes doí, e doí tanto, que se a morte me olhasse nos olhos, eu a convidaria para ser minha irmã, aquela que nunca tive, aquela que faria tranças em meu cabelo e fecharia meus olhos com as mãos.
A raiva me domina por completo, as pessoas não entendem o que tem aqui dentro de mim, não entendem por que me isolo, por que quero resolver as coisas sozinha. 
Dentro de mim existe uma imensa solidão, a solidão de uma menina de 5 anos que não sabia o que estava acontecendo. Você sentiu prazer em me tocar? Acreditava que estava me masturbando?
Eu me lembro da sua risada, seu filho da puta, ela não sai da minha cabeça. Saiba que eu tive dor durante dois dias depois dessa "brincadeira".
Já tentei me matar algumas vezes, hoje sei que era você que eu queria matar, matar esse horror que existe dentro de mim.
Eu sou ruína, eu sou escombro, eu sou quilos e quilos de pedras fragmentadas, eu sou esse quebra-cabeça de granito que tenta se montar há anos e não consegue terminar... e, por vezes, vem uma nova tempestade, e eu preciso recomeçar, achar aquelas pedras que fazem sentido e que se aproximam.
 Eu não estou nunca sozinha, existem partes de mim que se conversam, às vezes é dia, as vezes é noite, e na minha frente aquela montanha de pedras para juntar. Daí surge a minha pequena, a pequena Ju, aquela que você abusou por tantas vezes, a menina alegre e triste ao mesmo tempo. Ela sempre vem me perguntar coisas, juntar as pedrinhas, acho que ela tem esperança que um dia eu a salve.
Do outro lado está uma mulher forte, bonita e cheia de raiva, essa mulher que sempre me levanta, é uma parte de mim, que me espera também, é o meu futuro ou meu presente que você me roubou. Ela sempre me espera, ela é vulcão, a chamo de Serena... Serena como um vulcão. Serena carrega Tomé, um menino que eu salvei dos meus sonhos obscuros, ela cuida dele, porque eu ainda não consigo.
Consegue ver meus fragmentos? As minhas pedras? Todos os elementos para uma bela psicose estão juntos, não é mesmo? Sim, isso é loucura, a loucura pode enlouquecer; a minha me salva e me cura. Todos esses pedaços, todas as Julianas um dia vão sair de dentro de mim, e nesse momento eu vou me sentir livre, não vou mais sentir medo.
Sem medo de me olhar no espelho,
Sem medo de andar de vestido,
Sem medo de tocar!
Ah, sim, o toque! Infelizmente eu carrego esse peso até hoje, tenho medo de toque, porque você, seu estrume, me tocou quando eu era uma criança. Até hoje eu não me permito por vezes ser amada, amada por quem me ama e a quem, por vezes, eu não consigo dar amor, dar afeto, dar toque. Nesse momento em que eu vejo a pessoa que me ama infeliz é que eu me lembro de você e do que você fez comigo.
Eu estou cansada, isso não passa, não vai embora, estou cada vez mais sozinha, não sei fazer quem me ama feliz... eu... eu já não sou feliz há muito tempo.
É tão injusto viver e sobreviver, dia após dia, com essa dor
Você não vai me matar, essa fase de tentativas já passou. Mas daqui para frente eu vou ser o seu inferno, se prepare, eu não vou mais me silenciar.
Eu vou viver!



Posfácio

É incrível que depois que a crise passa, me vem à cabeça uma suposta calmaria, um “tá tudo bem”. Sim, sobrevivi a mais uma crise de raiva e ódio. Quantas crises já tive ao longo dos anos? Inúmeras. Sinto uma imensa melhora a cada uma delas, antes ficava mais de uma semana deitada no quarto, chorando, chorando a fio por mais de três horas, quanta dor meu Deus! Uma dor que voltava para mim, para uma mutilação do meu coração, a depressão, as ideações suicidas, a melancolia, é por demais cruel. Me tornei a minha própria agressora. Atualmente, nas minhas crises, esse punhado se sentimentos agressivos não são mais dirigidos a mim e sim ao meu agressor.
Acredito que cabe ressaltar aqui que fui abusada desde muito pequena, o último abuso foi aos 11 anos. Recalquei por longos anos tal fato, quanto finalmente contei, aos 16 anos, minha família não soube como lidar, eu também não. Um pouco mais velha, cheguei a ficar cara a cara com meu abusador (marido da minha tia), ele confirmou as minhas memórias, até aquelas de quando eu era muito pequena. Sim, foi tudo real. Aos 24 anos, com a nova lei sobre pedofilia (Lei Joana Maranhão), tentei denunciá-lo à polícia, mas minha tia (esposa do abusador) ameaçou se matar e matar também os filhos... não tive estrutura emocional, voltei para casa, tive meses de gastrite, emagreci quase 10 quilos e deprimi cada vez mais, recomeçando a vida inúmeras vezes.
Atualmente, estou conseguindo revirar memórias na terapia, sentir sensações repulsivas novamente não é fácil, é dolorido, machuca, mas hoje compreendo que é a forma de me libertar de tantas coisas que não foram faladas, porque, afinal de contas, criança assustada não fala. Esse movimento de dar voz à criança é nauseante, eu não estou em terra firme, segura, estou no meio do mar, aprendendo a nadar na correnteza e não apenas no mar calmo.
 Deixar extravasar pelas minhas mãos toda a minha dor e sofrimento, esse é o modo encontrado para superar esses momentos, escrever, chorar, levantar no dia seguinte e continuar com a vida, com as pequenas coisas que fazem feliz. Eis o poder da arte!
Essa é forma de matar a dor que mora aqui dentro, sobrevivendo e realizando os meus planos; essa é a minha doce vingança: não ser destruída nem me destruir. Eu sei que sou forte, talvez mais forte do que eu imagino, mas a minha autoimagem ainda sofre pequenas alterações pelos traumas vividos. Aos poucos, entendo que eu sou uma mulher maravilhosa e entendo também o quanto, em cada crise, eu não fui doente e sim saudável. Sentir dor é sinal de que estamos vivos! E quantas pessoas ao nosso redor não se permitem ser saudáveis, não se permitem escutar suas dores emocionais?
A grande tragédia de ter sido abusada sexualmente na infância (dentro da família) é não ter provas. É sentir a desconfiança do adulto nos pequenos gestos, é ouvir: “Quando foi isso? Por que não me contou?”
Não se pode fazer nada; e assim a vida caminha, pessoas vivendo como se nada tivesse acontecido. A tragédia é: você também passa a viver como se nada tivesse acontecido, pelo bem da família. Quantos anos amargos foram assim vivenciados! Quando se consegue libertar disso é que se começa a viver! Meu reinício foi a base de calmantes, hoje é na terapia e me cercando de amor.
Sabe aquela frase: quem apanha não esquece? É isso, não se esquece um abuso, a invasão sofrida está gravada no corpo, nas células, na memória.
Uma pessoa próxima a mim me perguntou se eu conhecia alguém que tivesse passado por isso e superado. A minha resposta foi: eu não conheço ninguém, e essas coisas não se superam, a gente convive com elas. Acredito que a sociedade atual tem essa ilusão de poder superar qualquer tipo de obstáculo, eu não quero vencer nada, não sou atleta da minha dor, eu quero apenas ter fé, acreditar em mim e saber que agora eu consigo acender o interruptor e iluminar todo o horror que existe dentro de mim. Agora eu posso ver, eu consigo abrir meus olhos e ver cada abuso, cada ferida no meu corpo.
Sei do alto preço que pago em publicar esta carta. Sinto que caminho para a morte, aquela morte simbólica e necessária... algumas coisas precisam morrer para outras novas nascerem.
Me sinto completamente nua escrevendo estas palavras, exposta...
 Vocês conseguem ver minhas feridas? Meus machucados?
Eu ainda sangro, sinto dor...
Sei fazer curativos. Meus curativos, aprendi sozinha, mas agora estou disposta (na coragem) a deixar que outros façam por mim.



domingo, 23 de abril de 2017

13 Reasons Why: Reflexões e Realidade



   Já faz uma semana que terminei de assistir à série 13 Reasons Why. Acreditei que no dia seguinte ia conseguir escrever, mas não, não consegui.
     Fiquei pensando milhares de coisas sobre a série, tentando fazer uma linha de raciocínio. E hoje, pensando novamente a respeito, cheguei à conclusão de que, se a série pega pela emoção, é por aí que devo caminhar. Então, não estranhe se o meu texto não tiver a mesma linha cronológica que os episódios, vou puxar e repuxar como fazemos com um estilingue, e espero que a minha mira atinja o coração de  você aí que se propôs a ler este texto.
      Em 2003, eu estava no segundo ano da faculdade de Serviço Social quando a minha turma ganhou uma aluna nova; eu não me lembro do nome dela, só me recordo de como ela era linda, negra, alta, com tranças no cabelo e andava de salto divinamente. Vim a descobrir depois que era passista de escola de samba há muitos anos (I love passistas). 
     Ela ficou um certo tempo no curso e depois acredito que foi para a turma do noturno. Um dia a gente estava conversando, e ela me falou sobre o irmão. Primeiro, de um jeito muito amável, depois, com muito ódio. Ela me contou que ele tinha se suicidado dentro de casa, me descreveu a cena, uma situação realmente muito triste... 
     Ela me disse: "Eu odeio o meu irmão, ele acabou com a minha família, meus pais nunca mais foram os mesmos."
    Eu questionei: "Mas por que ele se matou?"
     Ela me disse que não sabia, ele não tinha deixado nada escrito.
    Novamente questionei: "Ele tinha algum problema, algum trauma?"
    E ela me disse que não, que ele tinha amigos, um bom emprego, era bem-humorado, enfim... por mais que eles pensassem, não conseguiram descobrir nada, nenhum motivo. 
    Me lembrei dela esta semana, das expressões de seu rosto enquanto me contava essa história. Eu juro que pensei: "E se ela pudesse descobrir o que aconteceu com o irmão? E se houvesse um jeito, como em 13 Reasons Why?"
    E, sim, nesse momento acendeu uma luzinha na minha cabeça! É isso! Essa série nos prende porque você se torna expectador do que levou uma garota a se matar, existe essa oportunidade, enquanto que, para a grande parte das histórias de suicídio, não temos acesso ao que levou às vias de fato, não entendemos e, por isso, a nossa tendência é julgar.
     Há umas duas semanas, alguns amigos começaram a relatar que estavam assistindo à série e ficando muito mal, cada um por um motivo diferente. Por trabalhar há algum tempo com o tema suicídio, no mesmo dia outras pessoas me procuraram e me preguntavam o que eu tinha achado, algumas foram até mais específicas: "Eu devo assistir? O que você acha?"
    Bom, como eu não tinha assistido à série, comecei a reproduzir o pouco que tinha lido: "Olha, toma cuidado, como você está atualmente? Algumas cenas podem ser gatilhos; se você passou por algo parecido, não assista sozinho."
     Confesso que, quando soube da cena do suicídio, fiquei com muita raiva com tamanha irresponsabilidade da série (explico melhor daqui a pouco). Apesar de tudo - temia os meus próprios gatilhos -, decidi assistir, eu trabalho com isso, era meu "dever".
     Bom, toda aquela minha resistência inicial à série vinha de achar que ela faria mais mal do que bem, principalmente para os adolescentes e por tudo o que eu tinha lido a respeito. Ainda bem que a vi e consegui formular a minha opinião; e não tenho vergonha de admitir que mudei de ponto de vista. Como boa libriana, coloquei na balança os prós e os contras, e hoje eu afirmo: Sim! Assista à série.
       Quando eu terminei, me lembro de ter dito ao Leo (meu marido): "São todos crianças, muito novinhos e lidando com coisas tão pesadas".
     Não se ofenda se você tiver 17 anos e ler isso, não é criança no sentido infantil, é no sentido de falta de experiência de vida. 
    Do lado de cá, eu com meus 33 anos, me lamentei de ver como a adolescência é e continua a ser um período tão trevoso. Me lembrei de tantas coisas que aconteceram com amigos meus e que eu não ajudei. Penso que quando era adolescente - nos anos 90 - aconteceram coisas iguais, mas tinha um porém, não havia a internet, que existe hoje, não havia google, youtube, facebook, instagram, nem mesmo o orkut existia, o auge era você ter um e-mail e frequentar salas de bate-papo (se a sua internet discada fosse boa). Acredito que ser adolescente hoje é bem mais pesado que na minha época, porque, mudando de escola, na maioria das vezes, o "problema" terminava.
      Vi muitas pessoas na internet julgando os personagens, eu mesma fiz o mesmo, particularmente no estupro da Jéssica: "Hannah, sai da porra desse armário; Hannah pula em cima dele; Hannah grita... Pelo amor de Deus!! Não acredito que você deixou isso acontecer".
     Cinco minutos depois, disse para o Leo: "Acho que teria feito o mesmo que ela."
     A Ju que pensou tudo isso enquanto assistia à cena é a Ju de 33 e não a Ju de 17. Com 17 anos talvez também eu ficasse paralisada, sem reação. 
    Entende quando digo que são todos "crianças" (ou podemos usar o termo "jovens adultos")?
     A grande verdade é que só aprendemos a reagir depois que alguma situação se repete várias vezes na nossa vida, quando alguém que já passou por isso nos orienta: "Olha isso é errado, não é justo."
     Temos um agravante também, pessoas que sofrem violências graves podem literalmente paralisar e até se visualizar fora do corpo, de tão insuportável que é a realidade.
        Na minha época diziam "Cu de bêbado não tem dono". Tem dono sim! Pode ser homem ou mulher.
    Esse dito popular nasceu de onde? 
    Pensem um minuto, a nojeira que é essa pequena frase e que ano após ano é uma piada; será que é piada mesmo ou é a "verdade" que muitos agressores reproduzem, porque se refere ao que fazem constantemente?
     Vamos então a uma expressão corriqueira contida nas palavras de Bryce: "ela estava pedindo".
     A velha discussão retorna e sempre retornará: a culpa é da vítima.
     Você, que assistiu à serie, admita que quando Hannah entrou na festa na casa de Bryce o seu pensamento foi: "Por que ela está aí? Hannah, vai embora, sua louca; Hannah, não entra na jacuzzi".
     Eu admito que pensei! 
     Muitos agressores, principalmente jovens, acreditam que "ela está pedindo", e justificam: "com essa roupa curta: tá doida pra dar".
    Bryce diz que Clay não entende nada de mulheres porque é virgem. É mais uma desculpa para homens que usam e abusam da própria força para ter satisfação sexual... 
    Me lembro de meu espanto quando uma advogada veio à minha turma de Serviço Social falar sobre violência contra a mulher, ela indagou: "Se uma mulher estiver nua na cama de um homem é estupro?"
     Resposta: "Se em algum momento e por algum motivo, ela disser NÃO, e o parceiro continuar, é estupro sim".
    Me lembro do embrulho no estômago que saí daquela palestra, muitos estupros acontecem dentro de casa e o agressor é o próprio marido.
     Pensando friamente, achei fantástico o jeito que Bryce, o agressor, foi feito na série: bonito, simpático, agradável, ajuda os amigos; quem iria desconfiar do Bryce, não é mesmo? 
    Os agressores, em sua maioria, se escondem atrás dessa persona. Conheço casos de meninas que foram violentadas pelos namorados - aquele namorado fofo. Um caso de uma mulher que foi violentada pelo melhor amigo - aquele de muitos anos. 
     Infelizmente, o que acontece na série é mais comum do que imaginamos, seja entre adolescentes ou mulheres.
       Sobre o Justin, que polêmico! Sim, ele deixou a namorada ser estuprada. Bryce disse: "O que é seu é meu".
    Fiquei pensando nesse mundo masculino, de parceiragem, camaradagem; até que ponto é o limite?
    Quando Marcus (aquele cara de quem você também não desconfiou) abusa de Hannah em um local público, ninguém a defende, ninguém pergunta o que aconteceu, os amigos sabem, o Zach ainda fica com um peso na consciência, mas não sabe lidar com a situação. 
     Voltando para o Justin, quando explica para a Jéssica o inexplicável, os motivos que o levaram a deixar que acontecesse o estupro, ele diz a ela que quando Bryce o jogou no chão, ele sentiu como a criança que era agredida pelos namorados da mãe e ficava sem nenhuma condição de reagir. Cá entre nós, o Bryce exercia quase uma função paterna na vida de Justin. Ele era tão amigo, não é mesmo?
    Uma das características de alguns agressores é realmente causar essa confusão: "ele é uma pessoa boa". Até quando os homens vão permitir a violência contra as mulheres? ou mulheres também permitirão que tal violência ocorra?
     Quando trabalhava como assistente social, eu já vi e ouvi cada história... Dou graças aos deuses que de uns três anos pra cá a questão sobre o assédio esteja sendo tão escancarada. Quando falamos de assédio, estamos ensinando garotas e garotos, homens e mulheres a reagir. Adolescentes não são ensinados a reagir, portanto não se pode julgar Hannah nem mesmo Justin de um jeito tão feroz.
      Uma outra coisa que veio em mente: essa série deveria ser assistida por todos os diretores, coordenadores, professores de escolas. Fica claro, como essa instituição não é preparada para lidar com questões de violência  - e olha que a escola da série é bem mais prafrentex do que as nossas escolas no Brasil. O objetivo de muitas escolas hoje se resume quase que na seguinte frase: temos que treiná-los a desempenhar o máximo no ENEM e no vestibular.
     E no vestibular da vida, quem orienta?
     Sabemos que os pais têm uma função essencial nesse papel, mas e a função educadora da escola, ainda existe?
    Os conflitos escolares são um aperitivo para a nossa vida adulta; se a escola não consegue lidar com isso (e muitas não querem mesmo), olhamos para a nossa sociedade e encontramos a mesma coisa.
     As nossas leis nos protegem? As leis são cumpridas?
    Uma cena reveladora para mim foi quando a mãe de Hannah foi ao banheiro da escola e fica impressionada com a quantidade de frases agressivas escritas na parede, e confronta os responsáveis pela escola. A decisão então foi apagar tudo, pintar as paredes do banheiro, ou seja, apagar as provas do crime.
     Podemos até pensar "isso é tão comum". Concordo com você, na nossa sociedade é tão comum a violência que paredes com frases ofensivas não significam mais nada, vivemos uma completa banalização da violência. 
   Quando se fala sobre Bullying, se ouve tanto: "Isso aconteceu comigo, na minha época era a mesma coisa, isso passa". 
     Percebe que, com frases desse tipo, estamos permitindo que a violência ocorra geração após geração? Não se ensina outro tipo de comportamento, e pior, se reproduzimos esse tipo de pensamento, somos igualmente agressores!
    Um adolescente que está no primeiro ano do ensino médio ou no sexto ano do ensino fundamental e ouve que "uma hora isso passa", "a escola daqui a pouco termina", pode ter certeza de que, além de não se sentir ajudado (afinal de contas ele precisa ir à escola todos os dias), ele nunca mais terá a confiança para contar sobre seus problemas, pois estes serão sempre minimizados.
      Tem gente que começou a assistir à série e não achou nada de mais. Nos primeiros episódios, Bryce publica uma foto das partes íntimas de Hannah contidas no celular de Justin para o pessoal da escola: isso não é nada de mais? Quando falei da banalização, é isso que quero dizer, não se enxerga  mais a violência, apesar de estar ali.
         O que vocês acharam dos pais de Hannah? 
    Eu achei pais normais, presentes. Agora, por que, mesmo tendo pais assim, ela não conseguiu pedir ajuda? E os pais de Clay, que sabiam que alguma coisa estranha estava acontecendo e chegaram até a verbalizar isso? E os pais de Jéssica?
     Achei interessante a série colocar pais presentes e, de certa forma bons, para os personagens centrais. Ter pais presentes não significa que o filho ou filha está isento de cometer suicídio ou ser estuprada em seu próprio quarto. Quando Jéssica diz ao pai "aconteceu uma coisa comigo", eu literalmente desmanchei. Ter a coragem de dizer essa frase não é fácil, o medo de ser julgada por quem nos ama pode ser avassalador, e o silêncio pode ser a escolha mais "confortável".
     Voltando à primeira pergunta, não sei se existe uma resposta exata, mas a vergonha e a culpa podem ser respostas aceitáveis. Infelizmente, a nossa sociedade ainda culpa a vítima por ter sofrido violência, e não digo nem a sexual, quantas histórias ouvimos assim "foi assaltado... mas por que você deixou o celular em cima da mesa do restaurante? ou como você deixou seu carro naquela rua tarde da noite? Você  não sabe que não se deve andar com a mochila nas costas em ônibus?" 
    "Com certeza você estava pedindo para ser assaltado! Pedindo para ser estuprada!"
     É triste pensar isso... será que Hannah pensou?
     Levar embora um celular, um carro que não é seu, é crime. Tocar no corpo de alguém sem a permissão da pessoa também é crime, não importa a situação.
     O grande erro da escola, para mim, foi escancarado na figura do senhor Porter. Difícil ser conselheiro, eu entendo, na conversa com Hannah ele começou bem, porém as duas opções que ele deu a ela foram difíceis de engolir: "Ou denuncia ou você segue com a sua vida?"
     Acredito que Sr. Porter representa muitos profissionais que são mal-instruídos acerca das questões ligadas à violência. Me recordei de um fato que aconteceu comigo há uns 11, 12 anos. Uma colega de profissão me contou que uma garota de uns 15 anos tinha relatado a ela que o pai a estuprava constantemente; ela disse que a menina deveria denunciar, a garota respondeu que tinha contado para a diretora da escola. Sabe o que a escola fez? Chamou o pai da menina para conversar; ele negou tudo de maneira tão convincente que a escola encerrou o caso. Sabe o que aconteceu com a menina quando ela chegou em casa? Adivinhem... foi violentada novamente.
     Bom, essa minha colega não denunciou o caso, me disse que o local era uma favela, e ela tinha que trabalhar, tinha medo de denunciar e ser morta em alguma viela. Eu me lembro de ficar transtornada com essa história e dizer a ela: "Denuncie e morra com dignidade!"
        Quem tem o dever de proteger está mesmo protegendo? Quantos profissionais chamam o agressor para uma conversa em vez de acreditar na vítima? 
     Fiz um curso de violência infantil há muitos anos, e a orientação era a seguinte: se a criança relatar uma situação de violência, denuncie! Coloque sob proteção. Depois, com inquérito, a história vai ser verificada, se é verdade ou mentira, depois será investigado. A primeira coisa a se fazer é acreditar na vítima, pois muitas crianças não são protegidas por este motivo, são desacreditadas em sua palavra.
         Vamos falar sobre Hannah Baker.
     Eu me lembro de que na minha adolescência senti algumas vezes uma imensa solidão, não sei explicar exatamente, mas me lembro de me agarrar às amizades, mesmo que não fossem amizades tão legais, pelo simples fato de não querer ficar sozinha. Vi a Hannah fazer isso algumas vezes no decorrer dos episódios, se colocar em situações para se sentir parte de alguma coisa, tanto que várias vezes ela mesma diz: "Eu não deveria ter ido na festa, não deveria estar aqui". A intimidade dela foi exposta tantas vezes, fosse por meio de comentários, imagens, pela violação de seu corpo ou até pelos pensamentos divulgados sem sua autorização em uma revista da escola. Em quem acreditar? Em quem confiar?
     Quando muitas coisas ruins acontecem e se está fragilizado, é possível que se acredite que a causa dos problemas está em si, e a única maneira de colocar um fim a tantas coisas ruins, é acabando com a causa, ou seja, consigo mesmo. Interessante é que quando Hannah rabisca em um papel, querendo entender por que tudo aconteceu com ela, chega a todos os nomes, a todas as razões, ela diz sentir um alívio, uma vontade de viver. Isso se deve ao fato de ela conseguir visualizar que outras pessoas colaboraram para que ela estivesse em sofrimento. Se eu pudesse encontrar Hannah Baker diria, repetidas vezes, a culpa não é sua!
       Hannah também foi grossa com alguns de seus colegas, cabe pensar por que ela começou a agir assim. 
    Escrevo aqui uma "provocação", apesar das inúmeras razões que Hannah utiliza para justificar o suicídio, ela talvez se esqueceu de colocar uma pessoa, ela mesma! Digo isso porque eu mesma pensei sobre mim, sendo eu, do chamado grupo dos "sobreviventes de si mesmo". Com certeza, uma das razões, talvez a primeira da fita, seria eu mesma. Podemos fugir de tudo o que se possa imaginar, se trancar em um quarto e não ver mais ninguém, mas não se pode fugir de si mesmo, da própria consciência e da raiva que se sente quando não conseguimos agir ou tomar alguma atitude positiva. Nos transformamos em nosso próprio agressor, no nosso próprio assassino. É duro conviver com quem nos deseja mal, ou seja, conosco mesmo.
        Gostaria muito de encerrar com Clay, ao lado de Hannah, foi o outro grande protagonista. Enquanto Tony, às vezes, o apressava a ouvir as fitas, Clay foi o mais saudável do grupo. Ele não conseguia "seguir em frente" como os outros estavam fazendo, preocupados com a suas referências para entrar na faculdade, com frases "A Hannah morreu e não se pode fazer mais nada". Clay literalmente surtou, e com razão, era pesado demais, pesado demais para continuar vivendo a vida como antes. Clay era alguém diferente, pois não fazia questão de estar em grupos; podemos dizer que havia uma autenticidade, apesar da pouca idade. Ele começa a fazer coisas, ser justiceiro e, de certa forma, presta apoio à Jéssica, grava a fita denunciando Bryce. Move uma energia e age de um modo que, ao final, vários personagens passam a contar a verdade quando intimados.
        Após Clay entregar as fitas para o senhor Porter e contar sobre Hannah, ao sair da sala do conselheiro, diz:

"AS COISAS PRECISAM MELHORAR, PRECISAMOS MELHORAR A FORMA COMO CUIDAMOS UNS DOS OUTROS."

            Me permitam ser repetitiva:

    "As coisas precisam melhorar, precisamos melhorar a forma como cuidamos uns dos outros."
     "As coisas precisam melhorar, precisamos melhorar a forma como cuidamos uns dos outros."
     "As coisas precisam melhorar, precisamos melhorar a forma como cuidamos uns dos outros."
   

     Quando uma pessoa comete suicídio, segundo pesquisas recentes, no mínimo cinco pessoas próximas são atingidas e, possivelmente, vão precisar de tratamento psicológico. Assim, conseguimos identificar o impacto da morte de Hannah em muitos personagens. Podemos até afirmar que todos eles precisariam passar por tratamento psicológico. Ao final da série, isso é escancarado com a tentativa de suicídio de Alex.
              Vocês assistiram ao documentário que tem quando terminam os episódios? Assistam, vale a pena. 
     Entendi o porquê de ter cenas tão fortes, hoje aceito que cenas fortes produzem efeitos, passa a ser mais claro o sentimento da vítima, o pensamento do agressor. Mas ainda acredito que a cena de suicídio deveria ter sido filmada de outra maneira, aquilo é uma perigosa aula de como se matar. Se a série consultasse especialistas em suicídio, essa cena com certeza não existiria.
     O desespero dos pais quando encontram Hannah já é por demais avassalador, somente essa cena seria o suficiente.

      Mesmo escrevendo tanto, não dei conta de falar de todos os personagens. Mas novamente recomendo: é boa série para assistir, gerar discussões; eu, portanto, recomendo.

 Destaco, entretanto, alguns cuidados que se podem ter:
- Não assista sozinho, convide um amigo, seus pais e converse ao final de cada episódio;
- Não faça maratona da série. Ela precisa ser assistida aos poucos, muitas cenas podem estar mexendo com você, apesar de você acreditar que não;
- Se você sofreu ou sofre bullying, violência sexual ou pensa em suicídio, por favor, não assista à série sozinho, lembre-se de que os personagens são fictícios. A arte, mais especificamente o cinema, tem sempre o objetivo de nos sensibilizar de alguma forma, e a finalidade, segundo o documentário da série, é exatamente a de fazer que quem precisa de ajuda se sinta encorajado a pedi-la.
 - Você não precisa assistir a todas as cenas se não tiver vontade, não se force a assistir e a sofrer sem necessidade. Cenas com conteúdos violentos podem ser gatilho para que você se deprima mais ou pense em suicídio.

       Se você conhece alguém que pensa em suicídio. Saiba que há formas de buscar tratamento:

     - Busque apoio de amigos e familiares, conte o que está acontecendo;
      - Busque tratamento psicológico e psiquiátrico. Busque o CAPS  (Centro de Atenção Psicossocial) de seu bairro para uma orientação com um profissional de saúde especializado, procure tratamento nas faculdades de Psicologia.
     - No Brasil, existe uma linha telefônica por meio da qual você pode pedir orientação 24h por dia. Esse trabalho é desenvolvido pelo CVV (Centro de Valorização da Vida). Disque 141 e converse anonimamente com algum voluntário, ou entre no site www.cvv.org.br e converse pelo chat.
     - Em casos graves: não deixe a pessoa sozinha, esconda facas, remédios, cordas etc. Internação sem o consentimento da pessoa é uma maneira de evitar que ela cometa suicídio.
         
         Não julguem um suicídio! Suicídio é ato de desespero!

   "AS COISAS PRECISAM MELHORAR, PRECISAMOS MELHORAR A FORMA COMO CUIDAMOS UNS DOS OUTROS"




        



            
      


      
       

quinta-feira, 16 de março de 2017

Para educar crianças feministas


     Como começar a escrever sobre esse livro? Não sei. Por isso decidi ser mais honesta possível, assim as ideias surgem na minha cabeça, na mesma velocidade que meus cabelos brancos o fazem.
   Cá estou eu, há cinco minutos, comendo uma paçoca caseira que a minha amiga trouxe de outra cidade só porque sabe que eu gosto – dos carinhos diários que é importante ressaltar – e cá também estou olhando para a tela do computador pensando: Como começar a escrever sobre esse livro? Hoje o reli, em especial para tentar escrever esse texto - e o impacto foi o mesmo.
      Vou escrever que o livro é uma carta. Quem escreve cartas atualmente?
     Tenho um saco de pano em que guardo as minhas cartas em casa, e a beleza delas é que se tornam algo permanente, algo que pode até ser passado pelas gerações – não que seja a intenção – quem guarda e-mails por tantos anos? Fica aí o silêncio.
     Me lembro de quando achei em uma pasta uma carta que meu pai escreveu para a minha mãe pouco tempo antes de se casarem, muito revelador descobrir nas suas palavras carinhosas a ansiedade pela primeira noite de amor.
      Pois bem, Chimamanda escreve uma carta a sua amiga de infância Ijeawele na “esperança de que fosse algo prático e sincero”. A amiga gostaria de saber o que devia fazer para criar sua filha como feminista. O que se sucedeu depois comigo ao ler a introdução foi o ato de não parar de ler – devorar – até a última linha.
     O livro consegue realmente dar a impressão de que você abriu uma caixa e encontrou uma carta, de alguém conhecido ou não, e resolveu ler, e assim caminhou até o final. Tudo isso porque Chimamanda coloca referências da infância dela e da sua amiga, fala de coisas muito particulares e durante todo o tempo se refere a Chizalum, a filha recém-nascida de Ijeawele.
     Gostaria de ressaltar sobre o questionamento da amiga da autora: o que devia fazer para criar sua filha como feminista. Esse questionamento, a princípio passou por mim rápido, mas na segunda vez que li o livro até grifei essa parte: CRIAR SUA FILHA COMO FEMINISTA.
     Bom, acredito que finalmente eu encontrei um norte para esse texto. O que mais me atingiu nesse livro foi justamente o fato de ele me fazer questionar as minhas ações e pensamentos do cotidiano, ele me fez voltar a vários momentos da minha vida em que fui criada em um sistema machista, mas também a momentos em que eu mesma reproduzi e ainda reproduzo esse machismo todo. Por isso que essa indagação torna-se importante, criar uma filha (o) como feminista também pode ter um duplo sentido, na primeira vez que li me deu a impressão  de entender o seguinte: como criar uma filha para que ela seja feminista. Mas não, não é isso, essa palavrinha COMO é o que faz todo a diferença.
  E aí que veio o meu desconforto, será que eu verdadeiramente sou feminista?
    Chimamanda escreve para a amiga dando quinze sugestões para que ela possa criar a filha como feminista, mas como educar uma criança para que ela venha a ser feminista se eu ainda sou contraditória em relação ao feminismo?
     Acho que o fato de ainda não ter filhos fez com que eu lesse esse livro como espelho, ou seja, olhando para minha imagem e trazendo reflexões à tona.
      Não vou falar sobre as quinze sugestões de Chimamanda, quero deixar o gostinho para que você, caríssimo leitor, seja mordido pelo bichinho da curiosidade e, na próxima vez que entrar em alguma livraria, pegue esse livro na mão para ler. Vou falar de quatro coisas que me tocaram no livro; não que as outras coisas não tenham importância, é questão pessoal mesmo, cada um tem a sua.
       Aí vai:

1.  Eu tenho valor.
   Chimamanda logo no início de sua carta, fala a amiga de suas duas premissas feministas, a primeira é: eu tenho valor. “Eu tenho igualmente valor. Não “se”. Não “enquanto”. Eu tenho igualmente valor. E ponto final.”
   Parece algo simples, mas não o é. Como e de maneira profunda, as mulheres não são criadas para se valorizarem e consequentemente crescem e se tornam inseguras em muitos aspectos da sua vida. O pior, a insegurança, para muitos, já virou uma característica do “ser mulher” na nossa cultura.
    Essas três palavras – eu tenho valor -  me pegou bem nas tripas, pois em muitas coisas eu me desvalorizo, seja para questões internas, quanto externas. Um exemplo disso é o próprio ato de escrever, sempre gostei de escrever, tenho textos guardados desde criança, porém posso contar nos dedos as vezes em que mostrei eles para alguém. Agora, mulher feita, quantas e tantas vezes já escrevi e depois apaguei tudo, simplesmente por achar que “não é bom”, “quem vai querer ler isso”, “tem gente que escreve melhor do que eu” e assim vai a lista da autossabotagem, ou seja, cadê o meu valor? O valor das minhas palavras?
   Felizmente, o ato de fazer terapia me ajuda muito nessas questões, mas o que me deu um empurrãozinho para divulgar meu blog foi ter sonhado com Eliane Brum, (vou abrir um parênteses aqui para questões oníricas). No sonho, ela, Eliane, respondia indagações para leitores em uma revista. Me lembro de uma mulher que me dizia ser muito difícil a sua questão ser escolhida por ela para ser publicada; eu então pegava uma revista e mostrava a essa mulher que Eliane Brum tinha escolhido três indagações minhas e publicado, me lembro do meu espanto em perceber que o “algo difícil” tinha acontecido comigo e não uma, mas três vezes. Na manhã seguinte, meu eu interior, meu self, com roupinha de Eliane Brum, me deu a coragem que precisava para começar a divulgar meu blog.
    Bom, outra coisa foi que eu cresci sem dar valor para a minha aparência pessoal, sem me achar realmente bonita, algo que tem muitas questões por trás também, mas hoje eu vejo que a minha mãe não me ensinou isso, pois ela não se acha bonita e não adianta as pessoas a elogiarem, porque ela não sente isso. Me lembro de ser criança e estar sentada na janela do quarto dos meus irmãos, olhando a minha mãe lavar roupa no tanque. De repente, ela parou e disse: as minhas mãos são feias.  Eu respondi a ela que não eram, mas ela me rebateu: são sim, são mãos de quem lava roupa.  E eu novamente rebati e disse: suas mãos lavam roupas, mas são bonitas.
   Ainda nos sentimentos de criança achei aquilo triste, tanto que está marcado na minha memória.
   A primeira sugestão de Chimamanda para sua amiga é: seja uma pessoa completa. Ouso dizer que quem não se dá o valor não consegue ser completo.

2. Ensine a Chizalum a não se preocupar em agradar.
    Chimamanda pede a amiga que não coloque essa pressão em sua filha. “Ensinamos as meninas a serem agradáveis, boazinhas, fingidas. E não ensinamos a mesma coisa aos meninos. É perigoso. Muitos predadores sexuais se aproveitam disso. Muitas meninas ficam quietas quando são abusadas, porque querem ser boazinhas. Muitas meninas passam tempo demais tentando ser “boazinhas” com pessoas que lhes fazem mal. Muitas meninas pensam nos “sentimentos” de seus agressores. Esta é a consequência catastrófica de querer agradar.”
    Quando li esse parágrafo, fiquei literalmente acabada.     Fui vítima de abuso sexual na infância, o agressor era da família, e eu era muito pequena para entender o que se ocorria comigo. Quando me dei conta (ainda criança, um pouco mais crescida), me recordo claramente da minha agonia, dos sentimentos contraditórios em relação ao acontecido: “será que eu conto?” “O que vão pensar?”,  “Vou acabar com o casamento da minha tia... eu gosto tanto dela” e, assim, querendo ser boazinha, demorei anos para falar sobre isso. Portanto, essa sugestão de Chimamanda é tão importante e profunda, não só pela questão do risco de abusos na infância, mas também que, quando você ensina sua filha (o) a ser agradável, você não ensina a ter personalidade, opinião.
   Agradar a todos não é benéfico, muitas mágoas e feridas acontecem porque você se calou, tanto na vida pessoal quanto na profissional.
  Chimamanda escreve uma coisa simples e maravilhosa: “Mostre-lhe que não precisa de que todo mundo goste dela. Diga-lhe que, se alguém não gosta dela, outro gostará. Ensina-lhe que ela não é apenas um objeto de que gostam ou desgostam, ela também é um sujeito que pode gostar ou desgostar.”
     E nós, seres adultos e bem-resolvidos, conseguimos fazer isso? Fica aí o silêncio novamente.

3. Dê a Chizalum um senso de identidade.
    A sugestão da autora é que a amiga ensine a filha a ter orgulho de ser, entre outras coisas, pertencente à cultura Igbo. De ensinar as partes bonitas de sua cultura e rejeitar aquelas que não são, mas, enfim, ensiná-la suas raízes, a ter orgulho de sua história e orgulho de ser o que é. É algo que ela deverá aprender em casa e não na escola. Sabemos o quanto isso é importante, em especial à criança negra, que durante a sua vida não vai se encontrar representada em vários âmbitos da sociedade.
    Bom, eu não sou mãe, mas essa parte do livro me pegou em especial por sentir uma lacuna em minha vida, no que se refere a identidade e ancestralidade. Se eu tenho essa dificuldade, acredito que vai ser complicado se um dia tiver que fazer isso com um filho(a).
     Nos últimos anos, em especial, me dediquei a essa questão de raízes e descobri muitas coisas que não me foram contadas na infância e também não me foram ensinadas como, por exemplo: pensei a vida toda que meu sobrenome era espanhol, mas na verdade é português. Pode parecer só um detalhe, mas a história, ao ser contada e recontada, foi mudando e escondendo fatos importantes, fatos esses que passam até pelo sobrenome. Eu não me sinto conectada com as minhas raízes, elas não me foram contadas em sua verdade, cabe a mim atualmente juntar esses caquinhos quebrados e dar significado a cada um deles.

4. Ensina-lhe sobre a diferença.
   “Torne a diferença algo comum. Torne a diferença normal.”
      Ensinar sobre a diferença tem que estar no topo da lista de qualquer pai ou mãe ou daqueles que um dia almejem sê-los.
        E o que acontece depois?
   O que acontece é que, para se fazer isso, é necessário olhar para si e para todos os seus preconceitos e questioná-los uma a um.
     A maioria dos nossos preconceitos são apreendidos na infância, a criança observa tudo ao seu redor, até as contradições provindas dos pais, que podem falar coisas bonitas, mas não efetivamente colocá-las em prática. E, sim, a criança vai ver tudo isso. 
    A grande questão sobre ensinar a diferença, para mim, tem a ver com violência. A nossa sociedade está doente porque não há tolerância com o diferente, pessoas morrem todos os dias porque não se aceita o diferente e colocam-se nesse balaio as mulheres, os gays, os trans, os negros, os índios, as religiões que não são da “maioria” e por aí vai a lista. O mundo não é um quadrado em que posso selecionar os que têm direito e os que não têm, os certos e os errados. O Mundo é redondo, com muitas pessoas lindas e diferentes entre si - e nós nos incluímos nele.

     Bom, Chimamanda no decorrer do livro traz muitas questões relevantes como: permitir-se falhar, “fazer junto” com o pai, papéis de gênero, sexismo, linguagem, não associar aparência com moral, vergonha, romance, opressão, dentre outros.
      Eu recomendo esse livro “pra geral”, para aqueles que têm filhos, para aqueles que pensam sobre o assunto, para aqueles que não querem ter filhos, para aqueles que têm sobrinhos, irmãos mais novos, até para aqueles que não convivem com crianças, porque, se queremos uma sociedade mais justa e igualitária, temos que começar a nos questionar sobre os nossos preconceitos e as nossas ações, para que haja uma mudança de comportamento, de atitude, a longo prazo. Só assim as crianças serão educadas de uma maneira alternativa, que não é mesma como fomos criados.
     Esse livro, sendo uma carta - repetindo o que já escrevi -, torna-se algo permanente, algo que podemos ler e reler. Chimamanda, carinhosamente fala à amiga, que ela pode seguir suas sugestões, mas isso não garante que tudo saia como imaginado, “porque às vezes a vida é assim”.
    O importante é tentar, mas o conselho dos mais valiosos contidos no livro é: “E sempre confie nos seus instintos mais do que em qualquer outra coisa, porque o amor por sua filha que lhe servirá de guia.”
         Suspiros, suspiros...