quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Auschwitz


Hoje realizei um antigo desejo, visitar um dos locais mais importantes da nossa história recente. É longe para se chegar, mas não há arrependimentos.
Não consigo descrever o que senti, não posso dizer que foi tristeza, foi algo pior, acho que não tem nome para isso, acho que faltam palavras em meu vocabulário... havia muitos turistas, idosos (italianos), jovens falando em alemão, crianças com quipá enroladas na bandeira de Israel.
O cheiro forte de vela e incenso me impressionou logo na chegada, os tijolos tinham várias assinaturas com anos diferentes, uma tentativa de dizer: estive aqui!
A apreensão em todos era inevitável, o que encontrar? Imaginava que seria intenso, mas foi realmente bem diferente... diferente porque não tenho na minha história experiências que se assemelham ao que vivi hoje.
A visita guiada em espanhol (escolha nossa) durou 3 horas... 3 horas caminhando sem parar, tivemos apenas um intervalo de 10 minutos, entre Auschwitz e Birkenau.
Foram tantas informações que é impossível relatar. Os guias conduziam a visita de maneira organizada e avisavam: não se pode filmar, alguns lugares não  podem ser fotografados, não se pode fumar nem comer dentro do Campo. Alguns não aguentavam a maratona e arriscavam comer um lanche sentado. Vi uma turista americana fazendo isso; ela foi imediatamente advertida, teve que levantar e sair, afinal ali é um lugar de respeito, quem quiser fazer qualquer coisa desse tipo precisa sair do Campo.
A sensação de nó na garganta até o primeiro choro do dia não demorou muito. Nessa hora não se pensa em nada, não se ouve o guia, não se consegue fotografar... Ver na minha frente duas toneladas de cabelo foi demais pra mim.... cabelo de 35 mil mulheres bem na minha frente.... e escutar da guia: não se desperdiçava nada... havia tapetes ali e roupas de soldados feitos destes cabelos. As roupas, os dentes, tudo antes, durante e depois da morte eram usados para fins diversos. "A desumanização da morte", palavras da guia.
A parte das crianças foi muito para o coração... ver milhares de sapatinhos, meu Deus!! Quanta crueldade, aquelas que sobreviviam também eram usadas para experiências de laboratório, ... não é necessário dizer. Das 232.000 crianças que ali chegaram, apenas 800 saíram vivas. Vivas??
Nos laboratórios não são permitidas visitas... alívio de minha parte.
Entrar na câmara de gás foi inexplicável, parece que tudo está lento, rodando, o silêncio, as marcas na parede, tudo ali em menos de um minuto. Sim, é muito rápido. Percebi que a guia demora em alguns lugares e em outros lugares era tudo muito rápido, acredito para evitar nossa emoção, que já era demais...
Depois pegamos um ônibus para Birkenau, um lugar imenso, foram quase duas horas de caminhada e mesmo assim não se consegue ver tudo. 
Novamente as lágrimas desceram sem minha autorização - nunca chorei assim na minha vida, um choro sem pensar, sem soluçar, seria eu ou meus olhos? - não sei - quando passamos pelo portão principal de Birkenau, a guia nos disse "a maioria das pessoas que passou por este portão não saiu daqui viva" ,"tudo que aqui se pisa, tem cinzas de alguém"
“Indústria da morte” termo usado pela guia. Tudo era documentado, contado e recontado para se evitarem fugas. Chegar em Birkenau era um alívio, a possibilidade de deixar aquele vagão e “recomeçar”. Os judeus eram enganados o tempo todo, tudo planejado para se evitar o pânico. “Bem - vindos, aqui tem trabalho para todos! Agora vocês iram tomar banho e comer”. Eram separados em duas filas para o “médico” examinar (alguns compravam terras realmente acreditando estar indo em direção a uma nova vida, já que nas cidades a perseguição era implacável). Na verdade estavam sendo separados para ver quem seria imediatamente morto e quem iria para o Campo.
Havia também a lei do silêncio, não podia haver comunicação, quem se arriscava era fuzilado. E também tinha o Campo Familiar, algo do qual nunca tinha ouvido falar; era em uma parte separada em que os nazistas colocavam algumas famílias. Eles não tinham seus cabelos cortados, nem eram maltratados, tudo isso para serem filmados pela propaganda nazista. Essa sobrevida durava seis meses, quando eram mortos e trocados por outros.
Meu marido perguntou à guia quais filmes tinham sido gravados ali, a resposta foi direta: "nenhum!" Estamos em um cemitério, gravações de filmes nunca foram permitidas, algumas imagens para documentários podem ser autorizadas, mas filmes, não!
Esses são alguns detalhes do dia de hoje, nem sei o que dizer... só consigo pensar que caminhei durante três horas em uma ferida aberta e muito, muito dolorosa...
Dia que vai estar em meu coração para sempre!! 

27/06/2014
Campo de Concentração de Auschwitz - Polônia





























Fotos de autoria de Juliana Thaís de Moraes e Leonardo Cassanho Forster



Nenhum comentário:

Postar um comentário