domingo, 14 de setembro de 2014

Meu primeiro conto


Este conto foi o primeiro que escrevi. Eu o inscrevi na Ciranda de Contos de Londrina (cidade onde moro) em 2013, e ganhei em segundo lugar na categoria adultos. Desde lá, tenho me esforçado para ler e escrever cada vez mais.


Reencontro                                                                  


Meu coração se entristece em vê-la deste jeito... tantos anos de luta, trabalho e devoção à filha para ter este triste fim. Minha amiga querida, quanto sofrimento...
Hoje ela acordou bem, quer dizer, bem dentro de suas condições de saúde. Abriu os olhos às nove horas da manhã, a luz entrou pelas suas pupilas e logo a realidade lhe tomou a consciência, e a tristeza novamente invadiu suas expressões faciais como se já tivessem nascido com ela; “mais um dia” - imagino que foi isso que pensou.
Há três meses ela foi trazida para cá, cá quer dizer Ala Psiquiátrica do Hospital Nossa Senhora dos Milagres. Rezo todas as noites para que realmente aconteça um “milagre” e ela acorde desse silêncio. Nem eu, muito menos os médicos, sabemos a causa de sua paralisia, de sua morte em vida; em palavras mais científicas: de sua depressão profunda.
A angústia nos últimos dias tem tomado proporções enormes dentro de mim, pois há momentos em que aqueles grandes olhos verdes me olham e me rasgam inteira, não sei se tal sentimento é porque ela quer me contar o que aconteceu e não consegue ou se realmente a minha presença a incomoda; afinal, eu sou a única que sabe de seu segredo, sou eu a testemunha de suas desaventuranças. Na dúvida, continuo aqui e espero que, o dia que puder, ela decida se desapareço ou se permaneço aqui.
Nesses meses todos sem ter muito como ajudá-la, entrei pelas cortinas do tempo e relembrei dos longos anos de amizade escrita com carinho em linhas que mais se parecem com uma corda pendurada no penhasco, nos momentos mais difíceis de sua vida fui eu a escolhida para estar ao seu lado.
Mas, de uma vez por todas, não há vítimas, não é mesmo? Ela sempre me disse isso. A única coisa real da vida são as nossas escolhas; “o mundo é feito por uma grande bola de macarrão de escolhas”, foi com essa frase que nossa amizade começou. Ela tinha nove anos, chegou até mim e despejou essa reflexão de sua pequenina cabeça, me olhou concentradamente e disse: “o mundo é feito por uma grande bola de macarrão de escolhas”.
Na época eu não entendi direito, achei engraçado, nós duas rimos, na verdade eu não prestei atenção no que aquilo queria dizer, hoje eu entendo e  percebo como ela era inteligente. Na minha pequenina cabeça “a grande bola de macarrão de escolhas” era aquele grude de macarrão que comia todas as quartas-feiras no orfanato, era horrível!
Quando nosso tempo naquele lugar chegou ao fim, ficamos distantes uma da outra, perdemos contato, mas eu sempre me lembrava dela com carinho e sentia a sua falta. Mas naquela época as meninas se casavam cedo, não se usava biquíni, muito menos se conhecia alguém do sexo oposto, era tudo: “isso não pode; uma mulher de respeito tem que saber cuidar da casa; boquinha fechada e perninha cruzada!”.
Aquelas aulas de economia doméstica provocavam uma profunda raiva nela, ela só falava dessa aula o dia inteiro, de como a odiava, como odiava a professora, como odiava os óculos da professora, como odiava aquelas tabelas de utensílios “su-per-ne-ces-sá-rios” para manter uma casa. Muitas vezes eu só escutava a voz dela de longe... Me ausentava do meu ser literalmente, de tanto ouvir suas reclamações.
Nosso reencontro foi de maneira inusitada, muito anos haviam se passado. Quando a vi, estava vestindo um uniforme de empregada doméstica e cuidando de uma linda menina de três anos. O nome da bochechuda era Beatriz. Cumprimentou-me com lágrimas nos olhos de tanta emoção, ela chorou, eu não consegui. Ela então ela me disse assim: “não podemos conversar agora, mais tarde, às 20h, quando colocar a Bia para dormir, nos encontramos e colocamos as fofocas em dia”. Fiquei feliz, vi que nada tinha mudado entre nós, era a mesma intimidade de antes.
À noite, como combinado, nos encontramos, ela me contou do seu sofrimento; eu não imaginava o fardo pesado que ela estava carregando nos últimos anos. Quando saiu do orfanato, foi trabalhar em uma indústria de calçados, lá ficou cinco anos e dividia um quarto no Bairro Bela Vista com uma colega que também trabalhava no mesmo local. Disse que todas as noites ela sentia um medo enorme, que aquele lugar era um muquifo, na verdade um cortiço, como depois me confessou. Quando teve a oportunidade de mudar de emprego, não recusou, ainda mais que o novo emprego dava abrigo também. Foi morar na casa de um militar, o alívio e felicidade que sentiu naqueles dias fazia seus olhos brilharem.
Depois de um tempo na casa trabalhando como empregada doméstica, recebia muitos elogios de sua senhora, “afinal aquelas aulas tinham servido para alguma coisa”, e tendo direito a um minúsculo quarto, pensava sempre de como tivera sorte, o quartinho era seu, enfim tinha seu silêncio, sua cama, seu criado mudo, ria me dizendo: “que pena que era mudo, precisava tanto conversar com alguém!”
Enfim, depois de certo tempo, percebeu que o militar a olhava carinhosamente, e ela se sentia culpada, pois o achava bonito. Me dizia: “meu Deus, você tem que conhecer ele, como ele é lindo, com aquela farda, aqueles olhos castanhos, pele branca e uma timidez que me perturbava durante minhas noites de solidão”.
Um dia, porém, depois do banho, quando foi dormir, sentiu um papel debaixo do travesseiro, era uma carta com seu nome, quando a leu não podia acreditar, era do militar lhe dizendo que sentia um carinho especial por ela, mas não podia sequer ter o prazer de lhe dar um abraço, um beijo, pois a vida era feita de escolhas, e ele não podia deixar sua mulher, afinal de contas isso seria um escândalo para sua carreira. Também lhe disse que não ficasse preocupada, pois nunca lhe faria mal, tinha escrito aquela carta por impulso para poder, nem que fosse apenas por palavras, manifestar seu amor proibido...
Durante duas semanas evitava ficar na presença de seu patrão, não sabia o que fazer... nunca tinha se sentido tocada por alguma coisa desse tipo, se sentia especial, se sentia culpada, era mulata, era empregada, não tinha esse direito, seu único direito era o de sobreviver e aquele emprego, e o seu quartinho eram a sua vida.
Pausa, uma longa pausa, e o silêncio ficou entre nós, não quis incomodá-la com os meus questionamentos, ficamos nos olhando por um tempo até que ela continuou... “era noite” - me disse – “minha senhora me acordou dizendo que sua mãe havia passado mal, não sabia o que tinha acontecido, mas seu irmão estava na porta para que juntos fossem até o hospital. Me recomendou que de manhã preparasse o café da manhã e que contasse ao seu marido por que não estava na cama, afinal ele estava tão cansado que resolveu não o acordar”. Mais uma pausa, então me olhou e me mostrou a grande cicatriz que trazia no peito, a cicatriz do pecado, “do pecado” - foi assim que começou.
“O pecado que cometi me faz rezar três terços toda noite: um pela minha alma, que sei que vai para o inferno; outro pela alma de minha senhora, pela traição que lhe fiz pelas costas; e outro por ter atentado o militar a cometer o pecado”. Naquela noite, quando ela saiu para ver a mãe no hospital, o desejo lhe tomou conta e, como em um sonho, simplesmente caminhou descalça até o quarto do militar e ficou o olhando dormir. Como no sonho tudo é possível, se permitiu sentar ao seu lado e acariciar seus cabelos, seu rosto, suas mãos. Quando ele acordou, disse apenas: “ela não está aqui, e eu quero dormir com você está noite”. “Foi então” - me contou – “que tudo que eu sempre imaginei se tornou realidade, fizemos amor, muitas vezes, nos olhamos em silêncio muitas vezes, e ele disse muitas vezes  como eu era linda, mais linda ainda era minha borboleta... eu nunca dei muita bola para aquela marca de nascença nas costas, ele me dizia: minha borboleta fica em mim e não vai embora nunca mais”. Quando o dia amanheceu minha amiga foi embora e nunca mais trocaram uma palavra.
Alguns meses depois, ao perceber que estava grávida, pensou em tirar a criança, mas não conseguiria, era muito amor que jorrava de seu peito. Fez então a única coisa que poderia fazer, se arriscou, mas sabia que ele iria entender. Depois da missa de domingo, quanto os patrões voltaram para casa, disse que tinha um problema e precisava da ajuda deles para resolver, revelou que estava grávida. O militar, segundo ela, não sabia o que fazer, pensou que ela iria contar tudo à esposa, ele sabia que só ele podia ser o pai, pois a falta de jeito dela, até mesmo sua dor, denunciavam que havia sido sua primeira vez. No entanto, ela disse que havia engravidado de um padeiro, amigo seu de infância, e que ele era branco como leite, disse que não poderia criar a criança. Então fez o seguinte pedido: se o bebê nascesse branco, eles poderiam ficar como ele, como filho, pois sabia que sua patroa não podia engravidar. Para que a família não desconfiasse, poderia ficar o tempo que lhe restava de gravidez escondida, e só voltaria com a criança nas mãos; agora, se a criança fosse escura igual a ela, nunca mais voltaria, sabia que não poderia criar uma criança no emprego.
Quando terminou, me contou que o militar se levantou e fez um longo discurso à mulher de como era obrigação deles a de ajudar aquela pobre alma que nunca tivera família, crescera em um orfanato e caíra nas garras de um sedutor padeiro. Disse que o acordo era justo, afinal de contas poderia ter um filho tão sonhado. Ela ajudaria a cuidar da criança, guardando o segredo entre os três. Sua patroa nem poderia imaginar a terrível traição daquele momento, aceitou com o pedido do marido e firmaram acordo com ela. Foi então que durante cinco meses ela viveu em um sítio no interior do estado, teve a criança, uma menina branca como o pai, e voltou. Para a família, contaram a incrível história de que a menina tinha sido deixada na porta de casa, “um verdadeiro milagre de Deus”, e assim ninguém desconfiou.
Apesar do sofrimento, disse para mim que era feliz, pois podia cuidar da filha e sempre manteve o respeito com os patrões, pois, apesar de tudo, eles a haviam ajudado e, no seu coração, ela sabia que ele a amava, sabia que a menina era sua filha; a prova disso foi o desenho que ele mesmo pintou grande no quarto da menina.
Depois que me contou o segredo, nos abraçamos longamente, e prometi a ela guardar comigo sua história, disse que sempre, em qualquer momento, estaria aberta para futuros desabafos.
E foi assim que tudo aconteceu... mas hoje, 16 anos depois de nossa última conversa, estou no meio do resto de suas coisas sem saber a sequência dos fatos... será que um dia vou saber?
“Querida e única amiga, quanto tempo não é mesmo? Hoje me disseram que ‘acordei’ depois de seis meses; e qual não foi minha surpresa ao ver que você nunca me abandonou, que sempre esteve ao meu lado. Bom, imagino que queira saber o que aconteceu, pois é, aconteceu!
Meu segredo foi revelado da maneira mais brutal possível, a minha dor foi tão grande que, quando ouvi aquelas palavras, tudo escureceu, tudo... acordei hoje com você ao meu lado e sorri.
Os anos se passaram e continuei a trabalhar com dedicação naquela casa, afinal, minha filha estava lá. Como lhe contei da última vez que nos encontramos, ele sabia que a filha era dele e, por isso, a amava demais. Chorei escondida no meu quartinho quando entrei naquele dia no quarto de Bia e vi aquela imensa borboleta pintada na parede, foi o jeito, acredito eu, que o militar encontrou para dizer: ‘eu te amo e amo nossa filha’, bom pelo menos eu sempre imagino que é isso que ele quis dizer... não consegui disfarçar o sorriso depois que vi aquela parede e ele sorriu para mim. Foi a nossa despedida através daquele sorriso. A borboleta que ele tanto beijou naquela noite e pediu para que não o abandonasse realmente nunca o deixou. Bia nascera com uma borboleta nas costas como eu.
O que foi uma lembrança de felicidade por vários anos se tornou meu suplício. Há seis meses Beatriz, minha nova senhora, entrou em meu quarto sem avisar, eu me assustei, disse para ela esperar, mas a arrogância que aprendeu com mãe de criação lhe dava esse direito. Quando abriu a porta eu estava vestindo meu uniforme de costas, quando me virei ela estava me olhando e me disse: ‘tira a roupa!’ Eu respondi: ‘o que Bia?’ Ela foi agressiva: ‘não me chame de Bia, tira logo essa merda de roupa’, eu tirei, e naquele momento as lágrimas saíam dos meus olhos sem minha permissão... ela me tocou e disse: ‘eu não acredito! Eu não acredito! É você, esses anos todos e eu nunca desconfiei de nada, não é possível, não posso ser sua filha! Filha de uma empregada, uma mulata’.
Sabe, vou lhe contar uma coisa foi muito difícil, mas não a culpo, sua outra mãe acho eu tinha medo que ela gostasse demais de mim. Quando a Bia estava crescendo, percebi que começou a falar que gente mulata era para ser empregado, coisas desse tipo, tenho certeza de que falava essas coisas para ela com medo da menina gostar demais de mim.
Minha senhora gritando me perguntou: ‘você é minha mãe?’ Eu respondi: ‘sou’.
Ela perguntou: ‘e quem é meu pai?’ Eu disse: ‘seu pai é o seu pai’.
Ela perguntou novamente: ‘minha mãe sabia?’ Respondi: ‘ela morreu sem saber’.
Ela ficou com tanta raiva de mim que quebrou a única coisa que eu tinha na vida: meu quartinho. Ninguém ouviu... seus pais tinham morrido em um acidente de carro há dois anos. Ela vivia na casa com a avó materna, mas esta não estava em casa no momento.
O que veio depois me foge da lembrança... me lembro de deitar, de chorar, me lembro da Dona Isaura, sua avó, me olhando, me chamando, me lembro dos médicos e hoje eu acordei.


Não tenho mais ninguém... não tenho a Bia, nem o meu quartinho, a única coisa que tenho é você, querida amiga, não vou mandar você embora nem mesmo te rasgar por saber meu segredo, vou te levar comigo para onde eu for... me lembro da primeira coisa que escrevi quando te conheci: "o mundo é feito por uma grande bola de macarrão de escolhas".






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