domingo, 21 de setembro de 2014

Velho sábio


Velho Sábio

Minhas aulas de psicologia ultimamente têm sido como entrar em uma sala de espelhos, cada palavra que o professor fala me faz voltar ao passado, questionar pessoas, questionar a vida, me olhar nos olhos e dizer: oi, estava procurando por você! Confesso que isso às vezes é meio aterrorizante, viciante. Quanto mais eu descubro, mais me descubro, fico nua, assim sinto quando escrevo.
Fato é que não estou sozinha, tenho parte da humanidade com os mesmos questionamentos. Cada um vai trombando com suas respostas pela vida, alguns além de esbarrarem com elas, agarram-nas e as levam para a casa, para o trabalho, como vários teóricos da psicologia que tenho de estudar todos os dias.
O que é a mente? O que é o inconsciente? Por que desejo o que não é meu? O que me controla? E assim por diante. Este mês especialmente duas professoras estão ensinando conceitos básicos da teoria de Jung, comprei até o livro “O homem e seus Símbolos”, mas já tinha lido um pouco de “Memórias, Sonhos, Reflexões”.
Confesso que o danado mexe com a cabeça de qualquer um; meus colegas sempre dizem ele é muito viajado, que é demais para eles.
Depois que comecei a estudá-lo, meus sonhos se intensificaram... e olha que sonho não é problema para mim, tenho cachos e cachos, sonho acordada e dormindo, no ônibus... até cansa. Preciso colocar esse excesso de imaginação em extinção. De acordo com a teoria behaviorista, fico sob o controle do ambiente de quando estava no estado de vigília, ou seja, Jung! Jung! Jung!
Tive um sonho que me causou grande impacto esses dias. Estava eu na sala de aula, e uma colega de classe agarrava meu pescoço e me sufocava. Meu professor  - analista do comportamento - vem correndo para me ajudar, mas fecho os olhos e penso: Meu Deus! Vou desmaiar!
Quando acordo, estou em uma pequena sala, sentada no sofá da minha avó – esse sofá nem existe mais – e não havia ninguém ... daí eu pensei que tinha morrido e fiquei aguardando em silêncio. Quando cansei de esperar, resolvi abrir a porta que estava ao meu lado; estava morrendo de medo, mas como diz o ditado “Está no inferno, abraça o diabo”, e lá fui eu.
Abri a porta e tinha outra porta (bem clichê!) a outra porta quem abriu por dentro foi um homem de camiseta listrada e calça jeans, não conseguia ver seu rosto; parecia que tinha alguma coisa que o distorcia, como quando um ladrão coloca uma meia-calça na cabeça. Ele virou de costas e começou a andar, eu fui atrás dele em silêncio, uma sensação de bem estar começou a me invadir por todos os poros, eu olhava para todos os lados, mas não sei descrever o que vi, era lindo apenas. Perguntei então: quem é você? E ele respondeu: Eu sou o Infinito.
Acordei com aquilo na cabeça, trombara eu com alguma resposta interior? Não sei, mas tenho vontade de tatuar no corpo. Eu sou o Infinito! Isso é tão bonito, tão transcendente, tão relativo.
Dias mais tarde sonhei com ele. Aquela figura enigmática que se mostra na televisão, nunca foi entendida por mim de maneira clara quando criança e especialmente não o é nos dias de hoje. Acho incrível uma pessoa que consegue manter certa integridade enigmática, aquele lugar onde ele olha e diz: daqui para frente não se ultrapassa, baby! Acredito ser puro, decente, decente no sentido da palavra de digno, honesto.
Sonhei que conversava animadamente com Abujamra, mas não me lembro do teor da conversa. Quando nos despedimos, perguntei para ele: o que é a vida? E ele me olhou profundamente nos olhos e sorriu. Dentro de mim, seguramente, não esperava outra atitude, com certeza essa era uma resposta que ele não me daria. Por quê? Porque ele é o Abujamra! Ele te olha nos olhos e ironiza com certo mau humor maligno, certo mau humor extremamente terno, penso eu!
Acredito que a figura do Abujamra represente o símbolo do velho sábio, descrito como Felemon por Jung. Sua experiência e atitude provocadora, mostrada em seu programa de televisão, podem ter sido interpretadas pelo meu inconsciente como um sábio. A pergunta que faço a ele tem um teor filosófico, talvez seja por causa do meu próprio amadurecimento pessoal ocorrido de maneira acelerada nos últimos anos. Sua resposta me causou grande emoção, pois senti que eu já sei o que é a vida.

O que é a vida?
Ai de mim ... Ai de mim ...


Anotações de 2013 com uma pitada da Ju de 2014.

Observação: enviei este texto para o Programa Provocações (no site da TV Cultura) e hoje (26/09/14) ele foi publicado, na seção enforque-se.





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