segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

JT2709


           Esse conto eu escrevi em novembro de 2014 para a Ciranda de Contos e Poesias de Londrina, organizado por Nina Cardoso. O conto JT2709 ficou em terceiro lugar na Categoria Adulto.


JT2709

Dizem que morrer é a única certeza que temos na vida, aliás “basta estar vivo para morrer”, ou “na vida caminhamos rumo à morte”. Muitos são os pensamentos acerca daquela que ninguém espera encontrar tão cedo. Temida por alguns, parceira de outros, a morte é ser fascinante, que dirá os médicos que passam anos estudando tudo aquilo que pode matar, dissecando corpos, cuja alma a morte já levou há tempos. Arrisco dizer que a morte é a grande professora (vaidosa) dos médicos, aquela que sarcasticamente “torce” para que seu aprendiz não cometa nenhum erro, pois o erro a engrandeceria.
Não se pode também minimizá-la, sim ela tem o lado bom, reconheçamos. Nos dias de bom humor ela saí a caminhar com sua cestinha de alívios, vai aos hospitais, às ruas, aos cárceres, às igrejas, à casa daqueles a quem tudo falta e à daqueles a quem tudo sobra, aos asilos, aos desertos, ao seu coração. Às vezes ela chora ao ser recebida com um sorriso, ela sabe que o mundo não é justo e alguns não merecem sofrer, simples assim.
Teresa às vezes pensava nela, como quem pensa sobre qual roupa vai vestir. Sentia-se curiosa a seu respeito desde pequena, nunca contou para ninguém que já a tinha visto quando contava com cinco anos. Mas naquele dia feliz, talvez o mais feliz da sua vida, lembrou - se de certo acontecido.
O pai de Teresa, Jairo, era homem muito carinhoso com os filhos, com seus canários, com a esposa... Sueli tinha os olhos azuis ancoradas por duas nuvens pretas, trevosas! Era assim que Teresa entendia as olheiras da mãe. “Quando será que a chuva vai sair dessas nuvens?” – pensava.
Sua tia uma vez a colocou carregada para dentro de casa porque as nuvens iam chorar no céu - ela torcia para que o sol um dia iluminasse o mar, o mar azul dos olhos da mãe.
Sentada no banco há três horas, ela riu deste fato, pensava sobre como a criança pensa diferente, sente diferente. Os adultos - que um dia foram crianças - se esquecem de que seu petit sempre sabe o que acontece dentro de casa, por mais que seu entendimento não seja nada ortodóxico.
Teresa já tinha percebido que tinha que brincar sozinha. Seu irmão era grande demais para tomar chá com suas bonecas e sua mãe sempre estava cansada. “Por que a vovó gosta de brincar comigo e a mamãe não? Por que a vovó às vezes é brava? Porque a vovó não sabe quem é você? Porque um dia ela foi embora, dizendo que estava atrasada para escola? A vovó estuda, mãe?”
Hoje, no entanto, ela sabe que sua mãe aos trinta anos não era uma mulher feliz, o alzheimer de sua avó a corroeu por oito anos.
“Nossa, oito anos!” – pensou. Pela primeira vez teve vontade de dizer para sua mãe que sentia muito! Uma emoção estranha lhe invadiu o peito, não era dor, talvez algo como angústia.
“Mas porque será que estou lembrando dessas coisas? Justo hoje? Por quê?”
Ela então se sentiu culpada por estar quase chorando, bem no meio do dia da sua felicidade.
Teresa levantou, começou a andar por aquele lugar lotado e foi ao banheiro lavar o rosto. Sentir a água gelada a trouxe de volta à realidade. Foi comprar um cappuccino, voltou e sentou-se, ainda lhe restavam duas horas. “Passam dez, mas não passam duas!”
Começou a trabalhar, embora fosse algo que houvesse prometido a si mesma evitar. Mas e todas aquelas pessoas sentadas ali como ela, não tendo como fugir da situação... A situação exigia doses homeopáticas de paciência; trabalhar foi um inevitável recurso de relaxamento. Sua experiência como ilustradora a faz olhar para o mundo “com seus olhos 3D”, como sempre dizia aos amigos próximos.
Começou então a absorver o que os outros faziam para lidar com tudo aquilo que era imposto no momento. Foi assim que viu uma menininha deitada no chão com a cabeça no colo do pai. Concentrou seu olhar por alguns instantes, sua caneta se afrouxou entre os dedos e mais uma vez seus pensamentos voltaram-se para sua mãe, para a sua avó, para aquele dia.
- Filha, vem cá... filha, preciso te dizer uma coisa... - mas sua mãe estava tão cansada que dormiu escolhendo feijão, dormiu parecendo um Buda, sentada, imóvel, não pendia nem para um lado nem para o outro, estava ali estática. E sua avó a chamava no quarto: filha... filha preciso te dizer... o som da televisão abafava os lamentos da avó.  Tereza, contudo, ouviu e deixou de ver seu desenho favorito – as aventuras de Babar -  e foi devagarzinho até o quarto.
A porta estava encostada, sua avó estava murmurando baixinho, a menina deitou no chão como de costume e espionou pelo vão da porta e viu... viu sua avó com uma mulher e estranhou, quem seria? Pensou em chamar a mãe, mas não o fez, ficou ali como em um encantamento, maravilhada com a cena diante de seus olhos.
Chinelo de dedo com unhas vermelhas, calça jeans, camiseta branca, cabelos lisos pretos amarrados no alto da cabeça. Seria uma enfermeira?
Teresa ficou olhando. Foi quando de repente sua avó abriu os olhos e sorriu diante daquela mulher.
- Quanto tempo esperei, e você demorou! Veio me buscar?
- Sim, eu vim! A senhora está bem?
- Estou me sentindo especialmente lúcida no dia hoje, sei da minha condição, chamei minha filha, gostaria de me desculpar, sei que sou um fardo...
- Sua filha está dormindo, deixe-a descansar, poupe-a de despedidas; despedidas são dispensáveis quando não a como mudar o futuro nem muito menos o passado.
- E minha neta? Posso falar com ela?
- Pode, ela está ouvindo você agora.
- Está? Eu não a vejo
- Sim, ela está!
Teresa, ao se lembrar de tal fato, sentiu novamente o frio, um frio por todo o corpo, o qual a manteve paralisada. Como poderia aquela mulher de costas para a porta saber que a menina estava ali. Teresa não tinha como ver o rosto da mulher que conversava com sua avó.
- Minha menina - começou a avó – um dia você vai morrer e vai ser no dia mais feliz da sua vida, porque em toda felicidade extrema existe a morte daquilo que é velho.
A recordação fez que lágrimas começassem a descer sem descanso. No desespero, Teresa andou e encontrou um canto próximo ao orelhão, sentou-se no chão, abaixou a cabeça e continuou a chorar. Sim! Ela se lembrou da frase que sua avó disse, se lembrava dessa cena como se estivesse imersa em um profundo silêncio. Mas ela sabia que havia algo... sabia, mas, como era pequena, acreditava ser normal não lembrar.
Agora tudo fazia sentido, o que toca o coração não é jamais esquecido, e a profecia  se cumpria. O dia mais feliz da sua vida seria o da sua morte. Teresa, de olhos fechados, respirou fundo e voltou novamente a sua avó...
Escutou, Teresa!! Aquela mulher agora olhava para ela, que estava deitava no canto da porta. Escutou, Teresa? E a menininha fez que sim com a cabeça. Não se esqueça disto, agora volte à sala e chame sua mãe.
A pequena escorregou um pouco para trás, mas antes olhou sua avó que, deitada na cama, também a olhou. Levantou-se e foi com seus pezinhos descalços chamar a mãe.
“Mãe, a vó!” – disse.
Sua mãe abriu os olhos como tentando entender o que a filha dizia e foi até o quarto correndo.
“Será que minha mãe sabia, mas como, como haveria de saber?”
Assustou-se  quando a mãe saiu correndo, mas depois do silêncio, foi até o quarto da avó e viu a chuva chegar serenamente... a chuva que há tanto tempo as nuvens negras dos olhos da mãe guardava. Sua avó estava morta. No quarto não havia mais ninguém.
Teresa, apesar da pouca idade, sabia quem aquela mulher era e não contou para ninguém. Depois de adulta acreditou ser aquilo uma fantasia infantil, mas e agora?
Agora que se lembrara da frase de sua avó, pensava ser aquilo real, foi muito forte se lembrar, talvez mais forte de que quando era criança.
- Atenção senhores passageiros, o embarque para vôo JT2709 com destino a Amsterdam está aberto.
Por um momento ela pensou se era correto entrar naquele avião. Levantou-se, foi se aproximando do local onde os passageiros formavam uma fila para o embarque. Aquele dia, era sim, um dos dias mais felizes de sua vida, seu sonho de conhecer o velho mundo finalmente se realizaria, sua aventura há tanto acalentada começaria pela Holanda e, então Bélgica, França, Itália, República Tcheca e Alemanha. A grande viagem era um presente dela para ela mesma. Quando comprou as passagens, pensou: “Teresa, feliz trinta anos!”
“Trinta anos...” - era exatamente a idade de sua mãe quando sua avó morreu. Diante do nervosismo, do olhar perdido, olhou para o chão e viu os passos de uma mulher com chinelo de dedo e unhas vermelhas vindo em sua direção. Olhou para cima e escutou:
- Você tem medo de avião?
- Não! - disse Teresa
A mulher não lhe era estranha. Em uma fração de segundos, ela se lembrou. Sim, era ela, a mesma do quarto da avó, a morte.
- Você veio me buscar também?
- Não, eu não vim te buscar, vim apenas cumprir uma promessa.
- Que promessa? Como assim? Você também faz acordos com as pessoas, é isso?
- Não, eu não faço acordos.
- Então cumpra a sua promessa! - disse Teresa em voz baixa, desafiando a morte.
E ela começou  dizendo assim:
- Quando mandei você sair do quarto e chamar a sua mãe, sua avó, mulher sábia, mulher do mundo das letras, me disse que você era muito pequena para se lembrar do que ela havia dito e me pediu para, no dia mais feliz da sua vida, eu vir ao seu encontro e te fazer lembrar. Você não me viu, mas eu estava sentada ao seu lado na sala de espera, queria ter a certeza de que você conseguiria entender, mas vi agora que você ainda não entendeu...
- Eu não entendi? É claro que entendi! Hoje eu vou morrer!
- Não, minha querida, pelas minhas contas você ainda tem mais 43 anos neste mundo.
Teresa, aturdida com mais uma revelação, tantas no mesmo dia, disse à morte, desta vez mais serena – serena de cansaço:
– Por favor, me explique então estou confusa!
- Bom - disse a morte, caminhando junto com a fila de embarque, - “um dia você vai morrer e vai ser no dia mais feliz da sua vida, porque em toda felicidade extrema existe a morte daquilo que é velho” - Sua avó te disse exatamente isso. Saiba, menina dos pezinhos descalços, que eu, como todos dizem,  “sou a viagem”. E eles têm razão, mas poucos entendem, poucos estão conscientes. Aqueles que perambulam por aí com uma mochila nas costas já entendem há muito tempo, adoram morrer e renascer constantemente antes da viagem final.
- Mas hoje é sua primeira grande viagem, e a sua avó sabia que você seria mulher de muitas andanças. Porém, tudo tem um começo, um primeiro passo, e tudo o que nos é desconhecido e desejado nos causa mudanças irreparáveis.
A morte fez uma pausa e a olhou nos olhos:
- Ao entrar neste avião, uma Teresa vai morrer para outra poder nascer, você está preparada?
Teresa finalmente entendera o significado das palavras de sua avó e  por ela sentiu imensa gratidão.
- Sim, estou preparada! Eu quero morrer hoje! Estou sentindo uma felicidade muito grande agora, eu não sei o que dizer... obrigada! A emoção invadia o rosto de Teresa entre sorriso e lágrimas.
- Por favor, você vai embarcar? É a nossa última chamada - alertou a funcionária da companhia aérea.
- Sim, é claro!
         A sala de embarque já estava vazia, quanto tempo se passara?
Quando Teresa se virou, não havia mais ninguém. Ela sorriu, entregou o seu bilhete, caminhou pelo corredor que levava a porta do avião e pensou:
“É... ela nunca gostou mesmo de despedidas.”





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