segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Álbum de Família


Esta postagem é especial!
Antes de escrever, é necessário falar de amizade!
O ano de 2015 foi o ano em que mais fui ao teatro; pelas minhas contas, fui cinco vezes. Em cada apresentação havia um único motivo, a amizade.
Aquela amizade que chega sem querer, sem pretensões, sem cobranças e faz nascer no coração um sentimento lindo de "torcida" pelo outro.
Foi assim que fui ver várias vezes a peça República, da minha amiga Marina, e, na sexta-feira, dia 20 de novembro, fui ver, a convite da minha amiga Sol, sua peça de formatura da FUNCART: "Álbum de Família", de Nelson Rodrigues.
Soube previamente que não seria uma peça fácil, mas é na dor, no drama, que nascem grandes reflexões (no meu modo de pensar). Quando a peça terminou, confesso que fui embora meio desnorteada e refleti sobre ela durante um bom tempo. No dia seguinte, conversei com a Sol e ela me pediu para escrever minhas considerações.
Vou postar aqui do mesmo jeitinho que mandei a ela.

Lembrando que:
A peça Álbum de Família, de Nelson Rodrigues, (Montagem de Formatura da turma do noturno 2015, da Escola Municipal de Teatro de Londrina, com direção de Simone Andrade) ainda está em cartaz nesta semana (do dia 26 a 29) de quinta a domingo, às 21h.
Vale muito a pena assistir!! 


Oi Sol, tudo bem?
Aí vão as minhas reflexões, o que eu consegui assimilar da peça.
Bom, logo no começo quando entramos no teatro, tinha aqueles “seres” segurando os cachorros, eu senti que os cachorros eram desejos nos olhando, nos encarando, bem intimidador... o Leo comentou comigo que se lembrou do Sócrates quando dizia que dentro dele moravam dois cães, um do instinto e outro do bem (como se fosse o bem e o mal). O cão que se sobressaía era sempre aquele a quem ele alimentava mais. Realmente foi uma boa introdução para entrar no clima da peça.
Vou começar falando da irmã da senhorinha. Para mim, ela se transformou daquele jeito por causa da rejeição sofrida durante a vida, pelos pais e pelos homens. A maneira que ela consegue se sentir melhor, de obter prazer, é maltratando a irmã e conseguindo as virgens para o Jonas. Ela se satisfaz vendo o prazer dele e o desagrado da irmã.
O Guilherme (o padre) é outro personagem que me deixou bem assustada, quando ele descreve como matou a muda. Ele tem uma mistura de sentimentos bem evidente, a questão da culpa (quando revela que se mutilou, cortando o próprio pênis) e ao mesmo tempo o seu lado sombrio, bem violento. Para mim, a questão dele se apaixonar pela irmã foi a maneira que ele encontrou de se defender da mãe. Aliás, todos os meninos fazem isso de alguma forma, o Edmundo se casa, ele vira padre e o Nonô enlouquece.
A Glória ainda tem um lado infantil, mas fica claro que a sua “inocência” é deturpada. Ela representa claramente a pureza, a inocência que de alguma forma os homens da família querem acreditar ser possível existir. Tanto o Guilherme quanto o Jonas transferem para ela um Ideal, porque ela é de certa maneira “a intocada”. Glória, por sua vez, para mim, se apaixona pelo pai também como uma maneira de se vingar da mãe, que nunca lhe deu amor, é uma maneira de ter poder, possuir o pai (aquele que sustenta a todos) possuir o proibido, o homem da mãe, a mãe que não a ama.
O Edmundo, para mim, foi o que passou mais a sensação de inocência, o estar perdido. Ele não se assemelha aos irmãos, nem ao pai, se casa como forma de se defender do desejo que sente pela mãe, mas mesmo assim a ama. Em nenhum momento ele desrespeita a mãe fisicamente, quem faz isso é ela claramente quando o beija. Ele por fim se suicida, creio que de raiva, mas também de culpa. Raiva por saber da relação da mãe com o Nonô e  também de culpa por ter consumado o incesto.
A personagem da menina que fica parindo é bem angustiante, na verdade, ninguém mostra uma verdadeira compaixão por ela. Em casa, depois, fiquei pensando que ela representava todas as meninas que haviam passado por ali. Nem sua vida nem sua morte foram dignas, não foram respeitadas, enfim...
Bom, o Jonas, o chefe da família, foi realmente insuportável de ver, fiquei com muito nojo, asco dele. Minha impressão é a de que ele nunca foi boa coisa na vida, mas, com a traição da mulher (acredito que mulher na época deveria representar a pureza e a submissão sexual), ele entra em conflito, transferindo tal sentimento para Glória, sua filha. Glória passa a representar tudo de mais sublime e belo. Como ela é “inatingível”, ele começa a buscar sua satisfação nas meninas mais novas. Acho que o fato de procurar virgens, pode estar relacionado com uma possível culpa (para se purificar) de ser tão asqueroso.
A Senhorinha foi a que mais deu voltas em minha cabeça. No começo da peça, eu realmente acreditava que ela era íntegra, honesta, religiosa, que tinha que suportar aquela situação. Mas aos poucos, pela fala que ela tem com a irmã, comecei a perceber que ela não era tão boazinha assim. Ficou evidente principalmente na relação com Edmundo o quanto era manipuladora, narcísica, se vitimava para o filho. Porém, depois que a máscara caiu, beijou-o com um sorriso cínico, sentia prazer por ser a amada, a única. Isso fica bastante evidente quando discutiu com a nora, o prazer de ouvir que ela era a amada, não demonstrava remorso nem arrependimento. A senhorinha, para mim, no final das contas é a grande vilã, enlouqueceu a todos os filhos (que só poderiam ser dela... menos o Guilherme, que ela mesmo fala ter perdido para a Glória). Também afetou a filha e até contribuiu para a insanidade do marido.
O Nonô, com certeza, é figura bem importante, sua loucura conduz a peça  toda; sua loucura é a porta-voz da loucura da família. Ele, para mim, faz o Círculo da peça, pois a peça começa com ele dizendo aquela frase; e a peça termina com ele falando a mesma frase - mas desta vez acompanhado pela mãe, como a mostrar a gênese de tudo, a loucura da mãe. Portanto, o ciclo, o círculo se completa.
Solzinha, é isso!!! Desculpa se viajei demais!!!
Ahh! Última coisa, fiquei pensando em casa... a obra de um artista é sua biografia, o que viveu ou observou. O que será que Nelson Rodrigues viu, escutou para nascer uma obra como essa? Esse é o meu ponto de interrogação. Preciso pesquisar mais sobre ele.

Beijossss, Ju





Foto: Claúdia Fortunato


 Foto: Claúdia Fortunato


 Foto: Claúdia Fortunato


 Foto: Claúdia Fortunato


 Foto: Claúdia Fortunato


 Foto: Claúdia Fortunato


 Foto: Claúdia Fortunato


 Foto: Claúdia Fortunato


 Foto: Claúdia Fortunato


 Foto: Claúdia Fortunato


 Foto: Claúdia Fortunato


 Foto: Claúdia Fortunato


Foto: Claúdia Fortunato







2 comentários:

  1. Olá Juliana, fiquei bastante feliz com a análise. De fato você tem razão, a vida de Nelson Rodrigues com certeza é ponto extremamente importante para análise de sua obra. Durante o processo de montagem da peça li o livro O Anjo Pornográfico, biografia escrita pelo Ruy Castro, com certeza o melhor livro que li em 2015.

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    Respostas
    1. Que bom que gostou!!
      Parabéns pela sua atuação!!!
      Vou procurar esse livro para ler com certeza,obrigada pela dica.

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