segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A Velha Chola


- O que aconteceu? Que você está com essa cara?
- É que... uma velha, uma velha chola passou por mim...
- Uma velha chola?
- Sim, isso mesmo!

Existem momentos na vida – acredito eu – que somos impactados por algum acontecimento que levaremos no coração por muito tempo. Às vezes, não temos consciência de tal fato, esse momento veio e passou e só percebemos um bom tempo depois. Não foi o que aconteceu comigo, eu sabia que o que eu vivi naquela manhã, teria consequências; soube disso no exato momento em que a vi.
A viagem tinha sido longa, cheguei em São Paulo de manhazinha, na Rodoviária da Barra Funda. Decidi passar no banheiro, paguei os R$ 0,50 cents e entrei. Não é lá o banheiro dos sonhos ou o da sua casa, mas a necessidade coloca o ser o humano a fazer coisas incríveis. E lá estava eu, usando o equilíbrio que desde pequena minha mãe já havia ensinado, para não encostar na privada enquanto se faz xixi. Sim, isso não é só possível, é uma arte transmitida há muitas gerações pelas mulheres. Nesse exato momento, começo a ouvir um homem gritando, mais precisamente em espanhol. Achei estranho, lavei as mãos e me encaminhei até a porta de saída. Foi então que a vi...
Uma senhora, uma velha, uma velha chola estava com as suas roupas e saia coloridas, o cabelo divido em duas tranças que percorria as orelhas, passava por seu colo e iam até a cintura; logo acima da cabeça, um pequeno chapéu. Não sei precisar o que aconteceu comigo ao vê-la, por isso vou descrever a cena a priori e depois relatar o que seu senti e o que ainda sinto.
Essa mulher, com essas roupas e esse cabelo, estava paralisada na catraca da saída do banheiro; o homem que gritava com certeza era seu parente. Ele pedia para ela andar para frente, assim a catraca rodaria. Esse homem parecia nervoso, a velha chola parecia muito confusa, até um pouco assustada. Felizmente, a funcionária do banheiro ajudou e assim eles foram embora. Sim, uma cena simples, quiçá cotidiana, e eu a levo comigo quase sete anos depois.
Meu primeiro pensamento depois do ocorrido era: o que aquela senhora estava fazendo ali? Claramente não era o seu lugar, ela não estava feliz ou calma, parecia uma flor arrancada de sua terra e que agora não sabia como se portar no vaso novo. Fiquei com a imagem da velha chola muito presente naquele dia, decidi até escrever sobre ela, mas não consegui. Acredito que o que bateu em mim foi uma tristeza por ela, por ela não estar à vontade, não estar no seu lugar, na sua casa.
Desde então até os dias de hoje, a velha chola já passou por mim algumas vezes mais, e eu literalmente criei a expressão “a velha chola passou por mim hoje”. Digo sempre isso quando acontece de eu ver ou conhecer uma pessoa que traz no corpo o significado de suas raízes, do lugar onde habita, daquelas pessoas que, apesar da distância física, não se vestem ou se portam de maneira diferente, que não aderem aos “modismos” de seu novo lugar, que ainda conseguem se conectar de alguma maneira aos que vieram antes, aos seus antepassados.
Essas coisas eu sinto de maneira muito suave, pode ser um chapéu, um suspensório, um antigo anel de rubi, uma bolsa antiga de vime, um tamanco surrado. Podem ser muitas coisas, até mesmo um paninho florido que cobre a máquina de costura de sua mãe. Quando me vem essa sensação, eu logo digo - na verdade é pergunta disfarçada – Que anel bonito! Amo suspensório! E essa bolsa, hem... em quantos bailes já foi?  
Todas as vezes que faço isso, essas pessoas abrem um sorriso, e é só esperar que a história vem. Sobre o paninho florido, eu até levei um susto, aquela estampa já me era conhecida desde a infância, porém, quando a minha mãe me disse que aquele pano em cima da máquina de costura era um pedaço do vestido de casamento da minha avó, quase enfartei! Como assim, mãe? Vestido de casamento?
“Sim, naquela época, na roça, não tinha esse luxo de vestido de noiva, o vestido mais bonitinho que você tivesse guardado era usado na cerimônia.”
Com o tempo, o vestido foi ficando muito velho, a minha mãe então guardou um pedaço do velho tecido que hoje fica em cima da sua máquina. É exatamente nesses momentos que a velha chola passa por mim!
Tempos atrás, assisti a um filme não muito novo, se chama Spanglish. É um filme de comédia com uma boa surra de drama. Muitos assuntos importantes são abordados ao mesmo tempo, mas vou me ater a personagem da empregada mexicana que começa a trabalhar na casa de um casal americano nos EUA, nem sei o que escrever, é maravilhosa essa mulher!
Ela luta de todas formas para que a filha não seja influenciada pela convivência com essa nova família, o que realmente é muito difícil. Ela mostra para a filha que não se pode ter o que, na verdade, nunca foi seu. Ao final do filme, a menina entende que a mãe não deixou que ela perdesse o significado das próprias raízes.
Certamente, a velha chola, com esse filme, passou por mim mais uma vez.
Nessa sexta-feira à noite, eu coloquei no History channel e estava passando um programa chamado Alienígenas do Passado - sou desse tipo de gente, que assiste esse tipo de programa e adora.
Bom, eles apresentaram muitos casos ocorridos em diferentes partes do mundo na Antiguidade; fatos considerados folclore e abordados como indícios de comunicações alienígenas. Um exemplo são os dragões nas antigas histórias chinesas, que poderiam ser, na verdade, espécie de ovnis que abduziam pessoas, temporariamente ou de maneira permanente, como teria acontecido com um dos mestres, se não me engano, do TAO, que foi embora para sempre em cima de um “dragão”.
Outro caso que eles contaram nesse programa me impressionou pelas imagens. Creio que é no Chile e acontece todos os anos, trata-se de uma cerimônia religiosa e que, pelo que entendi, se chama “Estrela da Neve”. Muitas pessoas, homens e mulheres sobem nas montanhas cobertas de neve, há muitas cholas também. A finalidade é realizar esse ritual para trazer coisas boas durante o ano.
Apenas alguns homens sobem na parte mais alta e perigosa da montanha e trazem blocos de gelo considerados sagrados, que vão proteger e iluminar as pessoas daquela comunidade. É claro que a especulação é de que a estrela de neve resultaria de comunicações alienígenas ocorridas no passado, enfim...
De qualquer modo, tirando essa parte, as imagens, como falei, eram lindas. Comovia ver aquelas pessoas subindo a montanha para agradecer e pedir proteção, afinal, elas vivem ali.
 Foi nesse momento que a velha chola passou por mim novamente. Era aquele o seu lugar, nas montanhas, não presa na catraca do banheiro da rodoviária Barra Funda.

Obrigada, querida chola! Obrigada por continuar afetando a minha vida, para eu não me esquecer das pequenas coisas, das minúsculas coisas que me constroem, que me deixam em pé e me fazem ser o que sou, seja qual for o lugar em que estiver.

                                                                                                   Imagem: Google

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