domingo, 12 de março de 2017

Moonlight


Sem saber ainda que naquele dia eu iria ao cinema, horas antes comentava com o meu marido sobre como eu era preconceituosa na adolescência. Recordava que tinha amigos gays, mas, na minha cabeça, o “certo” ainda era os casais serem heterossexuais.  Pensava que era desrespeitoso um casal gay manifestar sua afetividade perto de crianças.
Ainda bem que o mundo não para de girar, e eu também girei com ele, me lembro de que esse meu pensamento foi embora quando me dei conta de como é injusto duas pessoas que se amam não poderem andar de mãos dadas na rua, algo tão simples e corriqueiro para qualquer casal hetero. Resumindo: meu preconceito caiu por terra, quando me coloquei no lugar do outro, quando tive a capacidade de ter uma verdadeira empatia, de observar este mundo cheio de padrões que não fazem sentido, já que sempre vai haver determinado grupo de pessoas que não têm o direito de serem felizes por aquilo que são.
Das sincronicidades do universo, fui assistir ao filme Moonlight no mesmo dia, e a minha sensação foi bem parecida com o que descrevi acima: Moonlight abre a facão uma trilha no nosso coração: a trilha da empatia.
O filme me impressionou muito, a maneira como foi filmado, a fotografia, o ritmo do filme em si, até pelo fato de ser o primeiro filme a que assisto em que todos os atores são negros. Porém, gostaria de destacar duas coisas: os atores e as falas do filme.
Sou muito observadora quanto a isso, pois adoro cinema. Os personagens principais Chiron, sua mãe Paula e Juan: a atuação desses atores foi impecável, coisa linda de se ver. Todos os atores que interpretaram Chiron em especial, se eu pudesse, abraçaria eles longamente.
Acredito que uma das coisas mais difíceis para um ator é conseguir passar o sentimento de medo e insegurança pelo olhar, e isso eles conseguiram fazer, ao mesmo tempo fizeram Chiron uma criatura extremamente doce.
Esse filme toca em pontos polêmicos como: maternidade, paternidade, drogadição, tráfico de drogas, homossexualidade, desamparo. Tudo costurado com falas cruas, reais e profundas.
O enredo e tudo o que o acompanha me sensibilizaram demais exatamente por isso: aquilo que eu disse sobre empatia, lembra?
É isso!
Quem assiste consegue sentir a dor quando se tem um parente que é viciado em algum tipo de drogas. Eu passei por isso, não com a minha mãe, mas com o meu pai, que durante alguns anos bebia tanto que quase morreu.
O sentimento de Chiron pela mãe, tão ambíguo: ora preocupação, ora ódio, ora  indiferença – sei bem o que é isso. Para quem nunca passou por situação semelhante na família, com o filme consegue minimamente sentir um pouco dessas emoções. São feridas abertas ao longo de muitos anos que afetam os relacionamentos para sempre.
E o cubano Juan? O que é esse homem? Um traficante detentor de todo o mal do mundo?
Não! Não, nesse filme. Aliás, brilhantemente, podemos constatar escancaradamente a mensagem de que ser pai e mãe não precisamente tem a ver com o fator biológico e, sim, com assumir um compromisso perante outro ser humano. Isso é Juan, com todas as suas contradições, um traficante, que representa a figura paterna para Chiron, e juntamente com Teresa, sua namorada, encarnam a mãe e o pai que protegem, alimentam, que respondem às dúvidas, sejam elas quais forem.
Uma cena especial, para mim - acho que é a última cena em que aparece o Juan -, foi a conversa que Chiron teve com Juan e Teresa. Uma conversa dura, que leva Juan às lágrimas. Essa cena deveria ser vista por todos aqueles que ainda acreditam que não alimentam um sistema de tráfico quando consomem drogas ilícitas. Sim, alimentam, e esse sistema destrói pessoas, destrói famílias. A minha família quase se desmanchou por causa de uma droga lícita, igualmente vil, mas aquelas que ainda são proibidas possuem um ciclo mais cruel ainda. Sim, podemos ser responsáveis direta ou indiretamente pela queda de alguém, e quando Chiron (ainda criança) se levanta da mesa e dá as costas para Juan é o momento em que ele entende isso. Juan desmorona. Juan o ama. Juan vende drogas para a mãe de Chiron.
Apesar desse paradoxo, Chiron leva Juan para sempre consigo. Arrisco dizer que encarna Juan, até como proteção, como podemos ver na terceira parte do filme.
De maneira sensível, Moonlight fala sobre homossexualidade, aquela velha história: se fosse para escolher, ninguém escolheria ser homossexual. Infelizmente essas pessoas sofrem e sofrem muito, desde a infância. Guardadas as particularidades do Chiron, podemos sentir todos os seus percalços até a vida adulta pelo fato de ser o que é. Porém, tudo é sublimado quando Chiron tem os sentimentos correspondidos.
De verdade, como toda libriana que se preze, o romance corre nas minhas veias, e a última sequência de cenas do filme aumentou consideravelmente a minha quantidade de suspiros por segundo! O que foi aquilo? Aquela tensão? Aquele carinho todo?
Kevin consegue deixar Chiron totalmente nu, e não estou aqui dizendo de roupa e, sim, de alma. (Dica para a vida: se encontrar alguém que consiga te deixar nu desse jeito também, pense seriamente em dar companhia para a sua escova de dentes).
Kevin alimenta Chiron – literalmente - com comida de verdade; Kevin, através de uma música, diz a ele o quanto Chiron nunca saiu de seus pensamentos; Kevin o questiona em determinado momento: Quem é você, Chiron?
Moonlight é filme que expõe umas das principais características do ser humano: ser contraditório. Todos os personagens o são, porém é um filme que também fala sobre o amor: e todos os personagens amam - e amam muito.

 O filme se encerra com duas frases:
“Você foi o único que me tocou.”
“Eu nunca fui tocado por mais ninguém.”

O símbolo ultrapassa a literalidade em questão, a declaração de amor mais bonita que já vi em um filme e que me levou às lágrimas.







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