quinta-feira, 16 de março de 2017

Para educar crianças feministas


     Como começar a escrever sobre esse livro? Não sei. Por isso decidi ser mais honesta possível, assim as ideias surgem na minha cabeça, na mesma velocidade que meus cabelos brancos o fazem.
   Cá estou eu, há cinco minutos, comendo uma paçoca caseira que a minha amiga trouxe de outra cidade só porque sabe que eu gosto – dos carinhos diários que é importante ressaltar – e cá também estou olhando para a tela do computador pensando: Como começar a escrever sobre esse livro? Hoje o reli, em especial para tentar escrever esse texto - e o impacto foi o mesmo.
      Vou escrever que o livro é uma carta. Quem escreve cartas atualmente?
     Tenho um saco de pano em que guardo as minhas cartas em casa, e a beleza delas é que se tornam algo permanente, algo que pode até ser passado pelas gerações – não que seja a intenção – quem guarda e-mails por tantos anos? Fica aí o silêncio.
     Me lembro de quando achei em uma pasta uma carta que meu pai escreveu para a minha mãe pouco tempo antes de se casarem, muito revelador descobrir nas suas palavras carinhosas a ansiedade pela primeira noite de amor.
      Pois bem, Chimamanda escreve uma carta a sua amiga de infância Ijeawele na “esperança de que fosse algo prático e sincero”. A amiga gostaria de saber o que devia fazer para criar sua filha como feminista. O que se sucedeu depois comigo ao ler a introdução foi o ato de não parar de ler – devorar – até a última linha.
     O livro consegue realmente dar a impressão de que você abriu uma caixa e encontrou uma carta, de alguém conhecido ou não, e resolveu ler, e assim caminhou até o final. Tudo isso porque Chimamanda coloca referências da infância dela e da sua amiga, fala de coisas muito particulares e durante todo o tempo se refere a Chizalum, a filha recém-nascida de Ijeawele.
     Gostaria de ressaltar sobre o questionamento da amiga da autora: o que devia fazer para criar sua filha como feminista. Esse questionamento, a princípio passou por mim rápido, mas na segunda vez que li o livro até grifei essa parte: CRIAR SUA FILHA COMO FEMINISTA.
     Bom, acredito que finalmente eu encontrei um norte para esse texto. O que mais me atingiu nesse livro foi justamente o fato de ele me fazer questionar as minhas ações e pensamentos do cotidiano, ele me fez voltar a vários momentos da minha vida em que fui criada em um sistema machista, mas também a momentos em que eu mesma reproduzi e ainda reproduzo esse machismo todo. Por isso que essa indagação torna-se importante, criar uma filha (o) como feminista também pode ter um duplo sentido, na primeira vez que li me deu a impressão  de entender o seguinte: como criar uma filha para que ela seja feminista. Mas não, não é isso, essa palavrinha COMO é o que faz todo a diferença.
  E aí que veio o meu desconforto, será que eu verdadeiramente sou feminista?
    Chimamanda escreve para a amiga dando quinze sugestões para que ela possa criar a filha como feminista, mas como educar uma criança para que ela venha a ser feminista se eu ainda sou contraditória em relação ao feminismo?
     Acho que o fato de ainda não ter filhos fez com que eu lesse esse livro como espelho, ou seja, olhando para minha imagem e trazendo reflexões à tona.
      Não vou falar sobre as quinze sugestões de Chimamanda, quero deixar o gostinho para que você, caríssimo leitor, seja mordido pelo bichinho da curiosidade e, na próxima vez que entrar em alguma livraria, pegue esse livro na mão para ler. Vou falar de quatro coisas que me tocaram no livro; não que as outras coisas não tenham importância, é questão pessoal mesmo, cada um tem a sua.
       Aí vai:

1.  Eu tenho valor.
   Chimamanda logo no início de sua carta, fala a amiga de suas duas premissas feministas, a primeira é: eu tenho valor. “Eu tenho igualmente valor. Não “se”. Não “enquanto”. Eu tenho igualmente valor. E ponto final.”
   Parece algo simples, mas não o é. Como e de maneira profunda, as mulheres não são criadas para se valorizarem e consequentemente crescem e se tornam inseguras em muitos aspectos da sua vida. O pior, a insegurança, para muitos, já virou uma característica do “ser mulher” na nossa cultura.
    Essas três palavras – eu tenho valor -  me pegou bem nas tripas, pois em muitas coisas eu me desvalorizo, seja para questões internas, quanto externas. Um exemplo disso é o próprio ato de escrever, sempre gostei de escrever, tenho textos guardados desde criança, porém posso contar nos dedos as vezes em que mostrei eles para alguém. Agora, mulher feita, quantas e tantas vezes já escrevi e depois apaguei tudo, simplesmente por achar que “não é bom”, “quem vai querer ler isso”, “tem gente que escreve melhor do que eu” e assim vai a lista da autossabotagem, ou seja, cadê o meu valor? O valor das minhas palavras?
   Felizmente, o ato de fazer terapia me ajuda muito nessas questões, mas o que me deu um empurrãozinho para divulgar meu blog foi ter sonhado com Eliane Brum, (vou abrir um parênteses aqui para questões oníricas). No sonho, ela, Eliane, respondia indagações para leitores em uma revista. Me lembro de uma mulher que me dizia ser muito difícil a sua questão ser escolhida por ela para ser publicada; eu então pegava uma revista e mostrava a essa mulher que Eliane Brum tinha escolhido três indagações minhas e publicado, me lembro do meu espanto em perceber que o “algo difícil” tinha acontecido comigo e não uma, mas três vezes. Na manhã seguinte, meu eu interior, meu self, com roupinha de Eliane Brum, me deu a coragem que precisava para começar a divulgar meu blog.
    Bom, outra coisa foi que eu cresci sem dar valor para a minha aparência pessoal, sem me achar realmente bonita, algo que tem muitas questões por trás também, mas hoje eu vejo que a minha mãe não me ensinou isso, pois ela não se acha bonita e não adianta as pessoas a elogiarem, porque ela não sente isso. Me lembro de ser criança e estar sentada na janela do quarto dos meus irmãos, olhando a minha mãe lavar roupa no tanque. De repente, ela parou e disse: as minhas mãos são feias.  Eu respondi a ela que não eram, mas ela me rebateu: são sim, são mãos de quem lava roupa.  E eu novamente rebati e disse: suas mãos lavam roupas, mas são bonitas.
   Ainda nos sentimentos de criança achei aquilo triste, tanto que está marcado na minha memória.
   A primeira sugestão de Chimamanda para sua amiga é: seja uma pessoa completa. Ouso dizer que quem não se dá o valor não consegue ser completo.

2. Ensine a Chizalum a não se preocupar em agradar.
    Chimamanda pede a amiga que não coloque essa pressão em sua filha. “Ensinamos as meninas a serem agradáveis, boazinhas, fingidas. E não ensinamos a mesma coisa aos meninos. É perigoso. Muitos predadores sexuais se aproveitam disso. Muitas meninas ficam quietas quando são abusadas, porque querem ser boazinhas. Muitas meninas passam tempo demais tentando ser “boazinhas” com pessoas que lhes fazem mal. Muitas meninas pensam nos “sentimentos” de seus agressores. Esta é a consequência catastrófica de querer agradar.”
    Quando li esse parágrafo, fiquei literalmente acabada.     Fui vítima de abuso sexual na infância, o agressor era da família, e eu era muito pequena para entender o que se ocorria comigo. Quando me dei conta (ainda criança, um pouco mais crescida), me recordo claramente da minha agonia, dos sentimentos contraditórios em relação ao acontecido: “será que eu conto?” “O que vão pensar?”,  “Vou acabar com o casamento da minha tia... eu gosto tanto dela” e, assim, querendo ser boazinha, demorei anos para falar sobre isso. Portanto, essa sugestão de Chimamanda é tão importante e profunda, não só pela questão do risco de abusos na infância, mas também que, quando você ensina sua filha (o) a ser agradável, você não ensina a ter personalidade, opinião.
   Agradar a todos não é benéfico, muitas mágoas e feridas acontecem porque você se calou, tanto na vida pessoal quanto na profissional.
  Chimamanda escreve uma coisa simples e maravilhosa: “Mostre-lhe que não precisa de que todo mundo goste dela. Diga-lhe que, se alguém não gosta dela, outro gostará. Ensina-lhe que ela não é apenas um objeto de que gostam ou desgostam, ela também é um sujeito que pode gostar ou desgostar.”
     E nós, seres adultos e bem-resolvidos, conseguimos fazer isso? Fica aí o silêncio novamente.

3. Dê a Chizalum um senso de identidade.
    A sugestão da autora é que a amiga ensine a filha a ter orgulho de ser, entre outras coisas, pertencente à cultura Igbo. De ensinar as partes bonitas de sua cultura e rejeitar aquelas que não são, mas, enfim, ensiná-la suas raízes, a ter orgulho de sua história e orgulho de ser o que é. É algo que ela deverá aprender em casa e não na escola. Sabemos o quanto isso é importante, em especial à criança negra, que durante a sua vida não vai se encontrar representada em vários âmbitos da sociedade.
    Bom, eu não sou mãe, mas essa parte do livro me pegou em especial por sentir uma lacuna em minha vida, no que se refere a identidade e ancestralidade. Se eu tenho essa dificuldade, acredito que vai ser complicado se um dia tiver que fazer isso com um filho(a).
     Nos últimos anos, em especial, me dediquei a essa questão de raízes e descobri muitas coisas que não me foram contadas na infância e também não me foram ensinadas como, por exemplo: pensei a vida toda que meu sobrenome era espanhol, mas na verdade é português. Pode parecer só um detalhe, mas a história, ao ser contada e recontada, foi mudando e escondendo fatos importantes, fatos esses que passam até pelo sobrenome. Eu não me sinto conectada com as minhas raízes, elas não me foram contadas em sua verdade, cabe a mim atualmente juntar esses caquinhos quebrados e dar significado a cada um deles.

4. Ensina-lhe sobre a diferença.
   “Torne a diferença algo comum. Torne a diferença normal.”
      Ensinar sobre a diferença tem que estar no topo da lista de qualquer pai ou mãe ou daqueles que um dia almejem sê-los.
        E o que acontece depois?
   O que acontece é que, para se fazer isso, é necessário olhar para si e para todos os seus preconceitos e questioná-los uma a um.
     A maioria dos nossos preconceitos são apreendidos na infância, a criança observa tudo ao seu redor, até as contradições provindas dos pais, que podem falar coisas bonitas, mas não efetivamente colocá-las em prática. E, sim, a criança vai ver tudo isso. 
    A grande questão sobre ensinar a diferença, para mim, tem a ver com violência. A nossa sociedade está doente porque não há tolerância com o diferente, pessoas morrem todos os dias porque não se aceita o diferente e colocam-se nesse balaio as mulheres, os gays, os trans, os negros, os índios, as religiões que não são da “maioria” e por aí vai a lista. O mundo não é um quadrado em que posso selecionar os que têm direito e os que não têm, os certos e os errados. O Mundo é redondo, com muitas pessoas lindas e diferentes entre si - e nós nos incluímos nele.

     Bom, Chimamanda no decorrer do livro traz muitas questões relevantes como: permitir-se falhar, “fazer junto” com o pai, papéis de gênero, sexismo, linguagem, não associar aparência com moral, vergonha, romance, opressão, dentre outros.
      Eu recomendo esse livro “pra geral”, para aqueles que têm filhos, para aqueles que pensam sobre o assunto, para aqueles que não querem ter filhos, para aqueles que têm sobrinhos, irmãos mais novos, até para aqueles que não convivem com crianças, porque, se queremos uma sociedade mais justa e igualitária, temos que começar a nos questionar sobre os nossos preconceitos e as nossas ações, para que haja uma mudança de comportamento, de atitude, a longo prazo. Só assim as crianças serão educadas de uma maneira alternativa, que não é mesma como fomos criados.
     Esse livro, sendo uma carta - repetindo o que já escrevi -, torna-se algo permanente, algo que podemos ler e reler. Chimamanda, carinhosamente fala à amiga, que ela pode seguir suas sugestões, mas isso não garante que tudo saia como imaginado, “porque às vezes a vida é assim”.
    O importante é tentar, mas o conselho dos mais valiosos contidos no livro é: “E sempre confie nos seus instintos mais do que em qualquer outra coisa, porque o amor por sua filha que lhe servirá de guia.”
         Suspiros, suspiros...





2 comentários:

  1. Sou lacônico, econômico com as palavras, você sabe disso.
    Quando digo que gostei muito, sou sincero: minhas palavras não são vazias. Porém, nem sempre dizendo, dizemos tudo. Então, vou desenvolver melhor aqui o: GOSTEI MUITO.
    Meu anima pediu licença, a Sumo Sacerdotisa em mim se apoderou do Logos, eis tudo:
    Adorei a introdução duplamente provocativa sobre os aspecto perene das cartas se comparado à efemeridade dos e-mails. Agradável perceber que, já nesse começo, você deu vazão a certo tom confessional que passou a costurar seu texto do início até o arremate.
    Não bastasse a sensibilidade de pôr algo tão simples em uma perspectiva mais profunda, sua resenha foi se construindo de modo muito particular, corajoso e sensível - tal é a obra, tal sua autora.
    O texto vai num crescente de descobertas. A perspicácia em encontrar a ambiguidade da expressão "Criar sua filha como feminista" deu novo sentido ao livro comentado. Chamar atenção para o detalhe que faz toda a diferença é convidar o leitor a crescer com a gente.
    Suas palavras têm um modo de sacralizar sua dor e também dar maior sentido ao livro, que surge ressignificado como espelho para mim também. Quanto de machismo ainda tenho em mim? Não sei. Com quanto dele ainda me comprazo e me afirmo socialmente como homem? Não sei. Seu artigo-resenha funciona como um pequeno espelho ao me mostrar o espelho maior, que é o livro de Chimamanda.
    Na sua abordagem, você colocou-se em xeque, e esse é o antídoto para fugirmos à hipocrisia. Sua postura deu verdade a seu texto e deu uma força transformadora a ele.
    Assim, não se questione sobre "o valor de suas palavras", não tenha dúvidas sobre isso, elas fazem toda diferença: não as negligencie nem abandone - suas palavras são você soprando como espírito. Seu espírito me faz bem, me faz crescer.
    Citar a experiência de ver os dedos de sua mãe e a questão da educação facilitadora do abuso é abrir uma ferida que não é só sua, uma lição para vida de quem tiver o privilégio de ler o seu texto.
    Sempre linda em tudo!
    Agora o anima se cala...
    Digo tudo:
    Te amo!!

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