quarta-feira, 12 de julho de 2017

Carta aberta ao meu abusador



   Esta carta foi escrita há quase dois meses.

   Prefácio

   Coragem – a força que vem do coração.
   A publicação dessa carta, para mim, tem finalidade terapêutica, ser capaz de mostrar a minha dor é também ultrapassar limites pessoais, ultrapassar o limite do silêncio. Esse silêncio que me assola e me devora.
    “Não conta nada a ninguém”. Essa frase ecoa aqui dentro de mim há anos e hoje - com muita coragem e também receio - resolvi fazer o contrário, vou contar a todos que puder. Minha intenção também é procurar os meus iguais, homens e mulheres que assim como eu sofrem pelo fato de terem sido abusados sexualmente na infância. Onde vocês estão? Vocês sentem o que eu sinto? Além da minha psicóloga e de algumas pessoas que me amam, eu não converso e não conheço aqueles que, como eu, silenciaram, pois não são reconhecidos em sua dor.
   Peço, encarecidamente, que, caso você se interesse em ler esta carta, não me desrespeite. A vida já é por demais difícil do lado de cá. Se quiser compartilhar, compartilhe. Se quiser escrever como isso te tocou, escreva. Mas, por favor, não dê uma opinião cheia de ódio e achismos se você não me conhece, não faça isso, por favor.
    Aqui, do lado de cá, de quem escreve, de quem se expõe, está se fazendo um esforço enorme, um movimento nunca antes feito... a dor é algo extremamente atemporal, já faz mais de vinte anos e ela continua aqui, me visitando. Se você se sentir tentado a escrever coisas do tipo: “perdoa”, ou “vai viver a sua vida”, ou “esquece isso, já faz tanto tempo”, ou “Jesus pode curar a sua dor” - vou logo avisando que, ao longo de tantos anos, já tentei todas essas opções, encontrei Jesus e até o Diabo, e nenhum deles foi capaz de apaziguar o que “jaz aqui dentro”, portanto não julgue, pessoas são seres diferentes.
   Esta carta foi escrita durante minha mais recente crise, em um momento de muita dor, e é neste momento que não consigo saber as consequências de tal ato, de publicar a carta, que peço que respeitem a minha dor.
    Uso aqui, então, meu recurso, meu blog, para ser portador eterno desta carta. Lanço esta carta, a minha dor, como alguém que lança um pássaro no ar, esperando que ele voe e que encontre um novo lar, que ele conheça novas terras, novos olhares – e, em meu desejo, espero que ele não volte nem para me visitar, nem para dar notícias, espero que finalmente encontre o seu caminho.
Juliana T. Moraes



CARTA ABERTA AO MEU ABUSADOR

 27 de maio de 2017.

Eu te odeio, eu te odeio profundamente!
Quanto mais eu luto para esquecer o que aconteceu mais difícil fica - e sabe por quê? Porque, hoje, com mais de 30 anos, eu me lembro e tenho consciência de quão nojento e covarde foi o que você fez comigo.
Eu sinto que não tenho mais forças para continuar...
A velha pergunta me assombra nos momentos de crise:
 Que Juliana era para existir agora? Como ela seria sem as cicatrizes? Eu choro... eu choro muito, estou chorando agora, sozinha, porque eu sinto que nunca vou conhecer essa parte roubada de mim.
Tenho que conviver com isso, mas às vezes doí, e doí tanto, que se a morte me olhasse nos olhos, eu a convidaria para ser minha irmã, aquela que nunca tive, aquela que faria tranças em meu cabelo e fecharia meus olhos com as mãos.
A raiva me domina por completo, as pessoas não entendem o que tem aqui dentro de mim, não entendem por que me isolo, por que quero resolver as coisas sozinha. 
Dentro de mim existe uma imensa solidão, a solidão de uma menina de 5 anos que não sabia o que estava acontecendo. Você sentiu prazer em me tocar? Acreditava que estava me masturbando?
Eu me lembro da sua risada, seu filho da puta, ela não sai da minha cabeça. Saiba que eu tive dor durante dois dias depois dessa "brincadeira".
Já tentei me matar algumas vezes, hoje sei que era você que eu queria matar, matar esse horror que existe dentro de mim.
Eu sou ruína, eu sou escombro, eu sou quilos e quilos de pedras fragmentadas, eu sou esse quebra-cabeça de granito que tenta se montar há anos e não consegue terminar... e, por vezes, vem uma nova tempestade, e eu preciso recomeçar, achar aquelas pedras que fazem sentido e que se aproximam.
 Eu não estou nunca sozinha, existem partes de mim que se conversam, às vezes é dia, as vezes é noite, e na minha frente aquela montanha de pedras para juntar. Daí surge a minha pequena, a pequena Ju, aquela que você abusou por tantas vezes, a menina alegre e triste ao mesmo tempo. Ela sempre vem me perguntar coisas, juntar as pedrinhas, acho que ela tem esperança que um dia eu a salve.
Do outro lado está uma mulher forte, bonita e cheia de raiva, essa mulher que sempre me levanta, é uma parte de mim, que me espera também, é o meu futuro ou meu presente que você me roubou. Ela sempre me espera, ela é vulcão, a chamo de Serena... Serena como um vulcão. Serena carrega Tomé, um menino que eu salvei dos meus sonhos obscuros, ela cuida dele, porque eu ainda não consigo.
Consegue ver meus fragmentos? As minhas pedras? Todos os elementos para uma bela psicose estão juntos, não é mesmo? Sim, isso é loucura, a loucura pode enlouquecer; a minha me salva e me cura. Todos esses pedaços, todas as Julianas um dia vão sair de dentro de mim, e nesse momento eu vou me sentir livre, não vou mais sentir medo.
Sem medo de me olhar no espelho,
Sem medo de andar de vestido,
Sem medo de tocar!
Ah, sim, o toque! Infelizmente eu carrego esse peso até hoje, tenho medo de toque, porque você, seu estrume, me tocou quando eu era uma criança. Até hoje eu não me permito por vezes ser amada, amada por quem me ama e a quem, por vezes, eu não consigo dar amor, dar afeto, dar toque. Nesse momento em que eu vejo a pessoa que me ama infeliz é que eu me lembro de você e do que você fez comigo.
Eu estou cansada, isso não passa, não vai embora, estou cada vez mais sozinha, não sei fazer quem me ama feliz... eu... eu já não sou feliz há muito tempo.
É tão injusto viver e sobreviver, dia após dia, com essa dor
Você não vai me matar, essa fase de tentativas já passou. Mas daqui para frente eu vou ser o seu inferno, se prepare, eu não vou mais me silenciar.
Eu vou viver!



Posfácio

É incrível que depois que a crise passa, me vem à cabeça uma suposta calmaria, um “tá tudo bem”. Sim, sobrevivi a mais uma crise de raiva e ódio. Quantas crises já tive ao longo dos anos? Inúmeras. Sinto uma imensa melhora a cada uma delas, antes ficava mais de uma semana deitada no quarto, chorando, chorando a fio por mais de três horas, quanta dor meu Deus! Uma dor que voltava para mim, para uma mutilação do meu coração, a depressão, as ideações suicidas, a melancolia, é por demais cruel. Me tornei a minha própria agressora. Atualmente, nas minhas crises, esse punhado se sentimentos agressivos não são mais dirigidos a mim e sim ao meu agressor.
Acredito que cabe ressaltar aqui que fui abusada desde muito pequena, o último abuso foi aos 11 anos. Recalquei por longos anos tal fato, quanto finalmente contei, aos 16 anos, minha família não soube como lidar, eu também não. Um pouco mais velha, cheguei a ficar cara a cara com meu abusador (marido da minha tia), ele confirmou as minhas memórias, até aquelas de quando eu era muito pequena. Sim, foi tudo real. Aos 24 anos, com a nova lei sobre pedofilia (Lei Joana Maranhão), tentei denunciá-lo à polícia, mas minha tia (esposa do abusador) ameaçou se matar e matar também os filhos... não tive estrutura emocional, voltei para casa, tive meses de gastrite, emagreci quase 10 quilos e deprimi cada vez mais, recomeçando a vida inúmeras vezes.
Atualmente, estou conseguindo revirar memórias na terapia, sentir sensações repulsivas novamente não é fácil, é dolorido, machuca, mas hoje compreendo que é a forma de me libertar de tantas coisas que não foram faladas, porque, afinal de contas, criança assustada não fala. Esse movimento de dar voz à criança é nauseante, eu não estou em terra firme, segura, estou no meio do mar, aprendendo a nadar na correnteza e não apenas no mar calmo.
 Deixar extravasar pelas minhas mãos toda a minha dor e sofrimento, esse é o modo encontrado para superar esses momentos, escrever, chorar, levantar no dia seguinte e continuar com a vida, com as pequenas coisas que fazem feliz. Eis o poder da arte!
Essa é forma de matar a dor que mora aqui dentro, sobrevivendo e realizando os meus planos; essa é a minha doce vingança: não ser destruída nem me destruir. Eu sei que sou forte, talvez mais forte do que eu imagino, mas a minha autoimagem ainda sofre pequenas alterações pelos traumas vividos. Aos poucos, entendo que eu sou uma mulher maravilhosa e entendo também o quanto, em cada crise, eu não fui doente e sim saudável. Sentir dor é sinal de que estamos vivos! E quantas pessoas ao nosso redor não se permitem ser saudáveis, não se permitem escutar suas dores emocionais?
A grande tragédia de ter sido abusada sexualmente na infância (dentro da família) é não ter provas. É sentir a desconfiança do adulto nos pequenos gestos, é ouvir: “Quando foi isso? Por que não me contou?”
Não se pode fazer nada; e assim a vida caminha, pessoas vivendo como se nada tivesse acontecido. A tragédia é: você também passa a viver como se nada tivesse acontecido, pelo bem da família. Quantos anos amargos foram assim vivenciados! Quando se consegue libertar disso é que se começa a viver! Meu reinício foi a base de calmantes, hoje é na terapia e me cercando de amor.
Sabe aquela frase: quem apanha não esquece? É isso, não se esquece um abuso, a invasão sofrida está gravada no corpo, nas células, na memória.
Uma pessoa próxima a mim me perguntou se eu conhecia alguém que tivesse passado por isso e superado. A minha resposta foi: eu não conheço ninguém, e essas coisas não se superam, a gente convive com elas. Acredito que a sociedade atual tem essa ilusão de poder superar qualquer tipo de obstáculo, eu não quero vencer nada, não sou atleta da minha dor, eu quero apenas ter fé, acreditar em mim e saber que agora eu consigo acender o interruptor e iluminar todo o horror que existe dentro de mim. Agora eu posso ver, eu consigo abrir meus olhos e ver cada abuso, cada ferida no meu corpo.
Sei do alto preço que pago em publicar esta carta. Sinto que caminho para a morte, aquela morte simbólica e necessária... algumas coisas precisam morrer para outras novas nascerem.
Me sinto completamente nua escrevendo estas palavras, exposta...
 Vocês conseguem ver minhas feridas? Meus machucados?
Eu ainda sangro, sinto dor...
Sei fazer curativos. Meus curativos, aprendi sozinha, mas agora estou disposta (na coragem) a deixar que outros façam por mim.



2 comentários:

  1. Minha filha não tenho palavras para espressar nossa dor será para mim eterna.Te amo minha filha anjo amada.

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